A Fazenda Brumado liquida seu plantel

Clayton Netz

19 de fevereiro de 2010 | 00h06

Uma liquidação histórica de gado nelore brasileiro será anunciada na manhã da terça-feira, 23, no Otavio Café, em Cidade Jardim, na capital paulista. A família do pecuarista Rubens de Andrade Carvalho, o lendário Rubico de Carvalho, morto em julho do ano passado, aos 92 anos, vai ofertar, em uma série de leilões, a totalidade de seu plantel, de cerca de 700 bovinos puros da raça nelore e 300 da raça brahman, criados na Fazenda Brumado, em Barretos, no interior de São Paulo. “Esta é a venda única e total do maior banco genético de nelore Puro de Origem Importada do mundo”, afirma Antônio José Prata Carvalho, conhecido como Tonico Carvalho, o quinto dos seis filhos do patriarca. “Ninguém tem isso no mundo, nem a Índia, que é o berço do nelore.”Os leilões ocorrerão a partir de 6 de maio, durante a Expozebu, em Uberaba (MG), quando parte do gado brahman será leiloada. Os pregões de nelore serão quatro seguidos: entre os dias 16 e 19 de julho, na Leilopec, também em Uberaba.

A notícia da liquidação do plantel, que é praticamente sinônimo da raça nelore no Brasil, surpreendeu o pecuarista. Foi a família de Rubico de Carvalho que, juntamente com a família de Torres Homem Rodrigues da Cunha – outro entusiasta da raça– importou da Índia, na década de 1960, um lote nelores de alta qualidade genética. Batizado de “choque de sangue”, a vinda desses animais aprimorou de tal forma o rebanho nacional, que acabou levando a pecuária brasileira a dar o salto que transformou País, quatro décadas mais tarde, no principal exportador mundial de carne bovina.

O próprio Rubico costumava dizer que não criava simplesmente gado, mas que produzia “bens de capital”, numa referência ao poder que suas matrizes e reprodutores tinham de transferir qualidades como rusticidade e maior produção de carne aos seus descendentes. A decisão de liquidar o rebanho, segundo Tonico, ocorreu pela simples divisão dos bens deixados por Rubico. “Metade do rebanho pertence à minha mãe, que está viva. A outra metade, a seis irmãos, sendo que nem todos pretendem continuar na pecuária”, diz Tonico . “Em vez de dividir o gado, vamos leiloá-lo e repartir o dinheiro”, diz.

Para ele , no entanto, a genética do histórico Nelore do Brumado não corre o risco de se descaracterizar ou de se pulverizar em rebanhos pelo País afora, com a liquidação do plantel. “A parte da família interessada em continuar a criar o Nelore do Brumado, incluindo eu e meu irmão Rubens Prata Carvalho, o Rubiquinho, vai participar normalmente dos leilões, como qualquer comprador”, diz. Além disso, o irmão mais velho, Francisco José Prata Carvalho, não quis participar da venda coletiva e já levou o seu quinhão para seus pastos em Campo Grande (MS), o que ajuda a garantir a continuidade ao menos de uma parte do legado do pai, Rubico.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.