Do limão, uma limonada

Clayton Netz

20 de maio de 2010 | 20h03

DELTA / ENERGIA

Os traders de energia da filial brasileira da Enron Ricardo Lisboa, Rubens Parreira e Mateus Andrade engrossaram a coluna dos mais de 21 mil demitidos pela empresa americana quando veio à tona, em 2001, a maquiagem contábil que a fez ser execrada como sinônimo de má conduta corporativa. Mas o que podia ter abreviado a carreira deles no setor elétrico, na verdade, deu o empurrão inicial para a formação de um negócio promissor. Com o dinheiro de suas economias, eles resolveram transformar o limão da demissão numa limonada e criar, em pleno apagão energético de 2001, a Delta Energia, especializada na comercialização de energia elétrica.

Atualmente, a Delta está entre as cinco maiores comercializadoras independentes de energia do País e tem em sua carteira clientes como a Vale, Gerdau e Votorantim, entre outros. “Com o apagão, vimos que havia oportunidade para um novo nicho de negócios”, diz Mateus Andrade, diretor-geral da Delta.

De um faturamento de R$ 2 milhões em 2002, a empresa esperar chegar a R$ 280 milhões neste ano. Esse desempenho se deve, em grande medida, à diversificação em curso, principalmente à exportação de etanol, que deve representar perto de 40% do total. “Temos expectativa de crescimento com a venda de energia elétrica, mas nossa aposta agora é mesmo o etanol, que promete uma expansão muito mais acelerada”, diz Andrade.

Baseada em São Paulo, a Delta começou a vender etanol para o mercado externo no final de 2008. Em 2009, as vendas do combustível geraram receitas de R$ 30 milhões. Para este ano, segundo Eolo Mauro Neto, responsável pelo braço de exportação da Delta, devem crescer para R$ 100 milhões.

A tendência é que o etanol ganhe cada vez mais espaço na estratégia de crescimento da Delta. Em junho próximo, a empresa vai inaugurar um complexo de armazenagem do combustível em Ribeirão Preto, centro do polo sucroalcooleiro paulista, que consumiu R$ 30 milhões em investimentos. O complexo vai servir para estocagem do combustível destinado à exportação, feita para a Europa, Coreia do Sul, Jamaica, Japão e Tailândia. “No mercado brasileiro de etanol, basicamente só existem os negócios feitos à vista”, afirma Neto. “Queremos, com os nossos tanques, evitar o impacto da alta de preço na entressafra para continuarmos atendendo nossos clientes estrangeiros com contratos futuros.” No segundo semestre deste ano, a Delta vai inaugurar um escritório comercial em Genebra, com o objetivo de se aproximar de seus maiores clientes.

A experiência com o etanol deverá ser replicada com o biodiesel. “Até 2011, queremos iniciar uma operação com combustível à base de soja, que dispõe de maior oferta de matéria-prima e apresenta o melhor custo benefício diante das outras fontes”, diz Andrade.
Até agora, o crescimento da Delta tem sido bancado por recursos próprios. Andrade, no entanto, não descarta a possibilidade da entrada de novos sócios, sejam investidores individuais, sejam fundos de equity. “Já recebemos sondagens, mas nenhuma se mostrou interessante para a Delta.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.