Dono de seu próprio nariz

Clayton Netz

19 de maio de 2010 | 19h53

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Entre 1994 e 1999, nada menos do que 1500 empresas brasileiras dos mais diferentes setores trocaram de dono. Desse total, 850 foram adquiridas por grupos estrangeiros. Neste último grupo, figuravam a Refripar, o segundo maior conglomerado da linha branca do País, e a Sanyo, fabricante de eletrodomésticos. Controladas pelo empresário paranaense Sérgio Prosdócimo, empregavam em conjunto 7 000 funcionários e faturavam algo ao redor de US$ 1 bilhão por ano – a Refripar foi comprada pela sueca Eletrolux e a Sanyo pelo grupo japonês de mesmo nome. Em troca do controle, Prosdócimo teria apurado uma fortuna superior a US$ 100 milhões da época. “Vendi porque não tinha mais fôlego para assegurar os investimentos necessários diante do acirramento da concorrência”, relembra Prosdócimo.

Montado nessa dinheirama, Prosdócimo, então com menos de 60 anos de idade, bem que poderia decidir-se por uma opulenta aposentadoria e se dedicar a cuidar de sua coleção de trenzinhos elétricos. “Mas a gente tem uma coisa no sangue que não nos deixa ficar parado”, diz Prosdócimo. Primeiro, ele investiu numa fábrica de embalagens, a Brasholanda, vendida a uma empresa finlandesa. Também entrou como sócio na DTcom, provedora de serviços de internet e de infraestrutura para educação corporativa. Não satisfeito, resolveu comprar a Charlotte, uma fábrica de pães falida. “Eu estava procurando sarna para me coçar”, brinca.

Uma das primeiras providências foi reformar a fábrica, que ocupa uma área de 3 000 metros quadrados em Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba. Outra foi trocar todos os equipamentos. “Sempre fui obcecado por qualidade”, diz Prosdócimo. A aposta deu certo. Ao desembarcar ali, a empresa tinha apenas 30 empregados e uma receita de R$ 70 mil por mês. Hoje, são 200 funcionários e um faturamento de R$ 1,2 milhão mensais. Além de abastecer com seus pães de forma a região metropolitana da capital , a Charlotte terceiriza a produção de torradas para redes de supermercados como a Walmart e Carrefour e para outra fabricante, a Wickbold. “É uma prova de que conseguimos produzir com qualidade”, afirma.

Aos 68 anos de idade, quatro pontes de safena, três filhos e cinco netos, Prosdócimo orgulha-se de ter se mantido em atividade e evitado entrar no time dos “sem indústria”, como aconteceu com muitos de seus colegas. No entanto, do período áureo em que figurava no rol dos empresários brasileiros mais influentes, Prosdócimo diz não ter muita saudade. Tampouco sente falta dos refletores. “Comecei a me preparar para o ostracismo uns três anos antes de vender os negócios”, diz. “Estou feliz por ser uma pessoa comum, dono do meu próprio nariz.”

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