É preciso gastar com inovação para ganhar no setor farmacêutico

Clayton Netz

27 de julho de 2010 | 19h53

NELSON MUSSOLINE

O governo brasileiro vai destinar até 2012 US$ 800 milhões de dólares para investimentos dos laboratórios farmacêuticos brasileiros em inovação. Iniciado em 2008, o desembolso faz parte do Profarma 2, programa patrocinado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), com recursos fornecidos pelo BNDES. O investimento em inovação é um dos pilares da estratégia de criação da Superfarma, sigla que abrigaria uma indústria farmacêutica de capital poderosa, capaz de competir em pé de igualdade com as potências mundiais do setor. Caberia à Superfarma aumentar as exportações de medicamentos, reduzindo o crônico déficit na balança comercial, em torno de US$ 4 bilhões anuais. Atualmente, para importações de mais de US$ 5 bilhões, o País vende lá fora ao redor de US$ 1,2 bilhão.

Boas intenções à parte, há quem veja com ceticismo essa proposta. “É utópico pensar em grande volume de exportação se não tivermos também um grande mercado interno e muito desenvolvimento de produto”, afirma Nelson Mussolini, vice-presidente do Sindicato da Indústria Farmacêutica do Estado de São Paulo (Sindusfarma).

Mussolini questiona a eficácia dos recursos alocados pelo governo para a inovação, base da criação de remédios. Segundo ele, o Brasil tem um caminho longo a percorrer até a constituição de um mercado interno robusto. Atualmente, a venda de produtos farmacêuticos é da ordem dos US$ 18 bilhões por ano. Isso é bem menos da metade das receitas de um laboratório como a suíça Novartis, que fatura US$ 44 bilhões, e inferior a um terço do da Pfizer, que vende US$ 50 bilhões. “A Pfizer investe 15% de suas receitas em pesquisa e desenvolvimento, o que dá US$ 7,5 bilhões por ano”, diz Mussolini. “Isso é quase a metade do tamanho do mercado brasileiro. Ou seja, para o executivo do Sindusfarma, os recursos para inovação gerados pelo Profarma 2, são pouco mais do que uma gota de água no oceano. “A criação de uma molécula exige mais de US$ 1 bilhão”, diz Mussolini. “E de cada 10 mil moléculas pesquisadas apenas uma vai para o mercado.”

Para ele, a maneira de o governo brasileiro fazer avançar o seu projeto de fortalecimento da indústria farmacêutica nacional passa pela criação de um fundo de desenvolvimento de longo prazo, com retorno a perder de vista. “Não se pode pensar de forma imediatista e exigir o reembolso dos recursos emprestados, como acontece hoje, no curto prazo”, afirma Mussolini. “Entre descobrir a molécula e lançar um produto no mercado, se a empresa for muito competente, levará de oito a 10 anos. Por isso, para ganhar, é preciso por dinheiro.”

A despeito das limitações atuais, Mussolini aposta no futuro do setor. O surgimento de uma nova leva de consumidores de classe média e a ascensão dos genéricos têm como pano de fundo a existência de transparência no mercado, o que atrai a atenção dos grandes competidores internacionais. “Tudo o que o capitalista quer são regras claras, concorrência igual para todo mundo e gente comprando”, diz Mussolini. “O Brasil tem tudo isso, o que o transforma num novo polo de crescimento para as multinacionais farmacêuticos.”

Tudo o que sabemos sobre:

Nelson MussoliniSindusfarma

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.