Ele fabricava pistões, sem saber o que eram

Clayton Netz

28 de fevereiro de 2010 | 15h56

MINDLIN

Conheci o empresário José Mindlin, o “doutor Mindlin”, como era tratado por quase todo mundo, ou o simplesmente “José”, como costumava se apresentar, no começo dos anos 1980. Editor-assistente de uma das principais publicações de negócios brasileiras,  fora incumbido de entrevistá-lo para uma matéria sobre qualidade, então um tema que recém-começava a ser incorporado ao vocabulário das empresas brasileiras. A Metal Leve, fundada em 1949 por Mindlin, era uma das exceções nesse quadro. Pioneira, tornara-se uma referência no tema, assim como na capacitação tecnológica.

Depois dessa primeira entrevista, voltei diversas vezes à fábrica da rua Brasílio Luz, no bairro de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Costumeiramente, a conversa não se limitava a tratar dos negócios da empresa. Passava por temas de interesse geral e, principalmente, sobre livros. Mindlin sempre tinha uma novidade ou um aquisição de livro raro, com o qual enriquecia sua preciosa biblioteca particular, a comemorar ( que tive a oportunidade de conhecer, a convite dele, muito tempo depois). E não deixava de me incentivar em relação ao hábito da leitura: criticava os que alegavam não ter tempo para ler, em função da correria do dia a dia. Citava seu próprio exemplo, para ilustrar  como era possível, sim, encontrar esse tempo. “Muitas das minhas leituras foram feitas na sala de espera dos clientes”, dizia. “Eu aproveitava o ‘chá de banco’ para vencer algumas páginas do livro que sempre carregava na minha pasta.”

Ilha de excelência da indústria nacional, fornecedora de pistões e bronzinas para as maiores montadora da indústria automobilística do mundo e para as grandalhonas do setor aeronáutico,, a Metal Leve foi, inclusive, umas das primeiras empresas brasileiras a se internacionalizar. No final da década de 1980, sob o comando de Mindlin, abrira duas fábricas nos Estados Unidos, uma na Carolina do Norte, a outra em Indiana. Nada mal para um advogado como ele, que parecia estar um tanto deslocado ao falar dos produtos da Metal Leve. Mindlin, aliás, fazia questão de ressaltar essa inapetência. “Já adiantei aos meus filhos que gostaria de descansar em paz num túmulo que tivesse o seguinte epitáfio: ‘José Mindlin: fabricou pistões a maior parte da vida sem saber o que eram’”

O sucesso de tantos anos, porém, não foi suficiente para assegurar a sobrevivência da Metal Leve em mãos de Mindlin e de seus sócios, as famílias Lafer, Buck, Gleich e Franco.  No início dos anos 1990, a  empresa foi atropelada por  um duplo movimento: internamente, pela abertura  da economia brasileira, promovido no governo do presidente Fernando Collor de Melo. Externamente, pelo fenômeno da globalização. De um momento para outro, a Metal Leve ficou exposta à concorrência internacional, que a pressionava com preços cada vez mais baixos e sem que ela tivesse condições de acompanhar mediante a redução de custos. Resultado: os prejuízos acumulavam-se balanço após balanço, a companhia perdia sua capacidade de investir e fazer frente aos gigantes estrangeiros que rondavam o mercado local. 

Diante desse quadro, só havia duas alternativas para a Metal Leve: associar-se a um grupo estrangeiro do setor,  o que lhe permitiria acesso ao capital de que tanto necessitava para investir e crescer, ou ser vendida, pura e simplesmente. Teimosamente,  Mindlin e seus sócios resistiram  a qualquer  dessas saídas. O tempo foi passando e a decisão pela transferência do controle para a alemã Mahle, em junho de 1996, se deu na undécima hora, com a empresa desvalorizada–  às vésperas da venda,  as ações da Metal Leve valiam um terço em relação à cotação de 1990.  Com isso,  o valor recebido dos alemães, foi muito menor do que poderia ter sido caso a decisão fosse tomada alguns anos antes.  Mindlin sempre  admitiu o erro e diz que a transferência do controle só aconteceu quando  ficou absolutamente convencido de que continuar resistindo  levaria a empresa à bancarrota. Citando Goethe, ele resumia o quão traumática foi essa constatação. “É preferível um fim com horror, do que um horror sem fim”, afirmou. “Se não fosse vendida, a Metal Leve se tornaria inviável.”

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