Por que há tão poucas megaempresas na América Latina

Clayton Netz

29 de março de 2010 | 13h11

PAULO

A América Latina concentra 10% da população e 5% do PIB mundial. No entanto, entre as 2 mil maiores empresas globais listadas pela revista Forbes, a participação da região é de apenas 2,5%, exatas 43 companhias, lideradas pela Petrobrás. Intrigado, o professor Paulo Feldman, da Faculdade de Economia e Administração da USP, com passagens por empresas como a Eletropaulo, Microsoft e Ernst & Young, resolveu estudar esse fenômeno. O resultado do trabalho é o livro Empresas Latino Americanas: oportunidades e ameaças no mundo global, lançado no início de março pela editora Atlas.

Feldman levanta algumas hipóteses para explicar essa pífia participação das empresas da AL no ranking global. Entre elas, figuram os vícios de gestão, a baixa profissionalização e a pouca disposição de cooperar de parte dos empresários (“o concorrente é visto como inimigo”, diz Feldman). Mas o principal motivo parece estar na origem das empresas, quase todas vinculadas a setores antigos da economia, como petróleo, alimentação e siderurgia, entre outros. “Não há empresas de setores de ponta, como o farmacêutico ou o de tecnologia da informação”, afirma. “Em sua quase totalidade são negócios do século 19.” A exceção à regra entre as grandalhonas latino-americanas fica por conta da Embraer, líder numa área de alta tecnologia como a indústria aeronáutica.

A má notícia, segundo Feldman, é que, a esta altura do campeonato, dificilmente haverá uma multiplicação de megaempresas no continente. “Não é nossa vocação formar grandes companhias”, diz. A boa notícia, é que há, sim, saídas para a prosperidade e para a criação de riquezas mesmo sem o gigantismo. Contra os Golias corporativos, Feldman preconiza a adoção do modelo italiano, ancorado nos pequenos negócios, baseado na multiplicação de Davis.

Para isso, acredita, é preciso que os empreendedores brasileiros deixem o individualismo de lado e aprendam a trabalhar em parceria. “Os italianos estão entre os maiores produtores de roupas e de móveis do mundo e a grande base são as micro e pequena empresas”, afirma Feldman. “Eles se unem para investir em tecnologia, marca e criação de canais de comercialização.” Para ele, o modelo italiano é compatível com a entrada do País num negócio típico do século 21, como a biotecnologia. A biodiversidade brasileira é um grande manancial para novos empreendimentos, que não precisam alcançar um grande porte para fazer a diferença. “A Amazônia é o celeiro”, afirma.

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