Santa Casa ajusta o caixa e investe em novo hospital

Clayton Netz

21 de julho de 2010 | 19h55

A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo dá mais um passo em direção a sua reestruturação financeira e operacional. A instituição filantrópica inaugura amanhã a segunda unidade do Hospital Santa Isabel, que funcionará ao lado do prédio antigo da Santa Casa, na região central da capital paulista, para atender pacientes particulares e convênios médicos. A nova unidade, que concorrerá com hospitais estrelados como o Albert Einstein, o Sírio Libanês e o Oswaldo Cruz, tem uma história peculiar.

O prédio foi concebido para abrigar um hotel do grupo Mofarrej, mas a Santa Casa convenceu o dono da rede hoteleira, Miguel Mofarrej, a alugá-lo para a instalação do hospital. “Disse ao Miguel que o local não era adequado para um hotel de luxo”, diz o advogado Kallil Rocha Abdalla, provedor da Santa Casa. Abdalla usou como argumento o fato de o hotel estar localizado em frente ao velório e o necrotério da Santa Casa para demover Mofarrej. Convenceu.

Negócio fechado, a Santa Casa investiu R$ 30 milhões para reformar e equipar o novo hospital, que conta com 103 leitos operacionais, 18 unidades de terapia intensiva, nove salas de cirurgia e centro de diagnóstico. A UTI do Santa Isabel II é a menina dos olhos da equipe médica da casa. Os leitos possuem amplas janelas, relógio, televisão, música ambiente e quadro com fotos da família do paciente. “Esse conforto é essencial para a recuperação e o bem-estar do paciente”, afirma Abdalla. A ideia da Santa Casa é que o novo hospital banque os atendimentos do SUS. A estimativa é que a nova unidade gere receitas de R$ 144 milhões por ano.

A inauguração do hospital só foi possível depois que a Santa Casa colocou as contas em ordem. Entre os esforços para encontrar o equilíbrio financeiro, a instituição vendeu propriedades, renegociou a forma de remuneração com o SUS e terceirizou vários serviços: compra de medicamentos e material médico-hospitalar, higiene e limpeza, segurança, recepção e portaria.

Com essas e outras iniciativas, as finanças da Santa Casa estão equilibradas. São R$ 80 milhões em dívidas equacionadas e um orçamento anual de R$ 1 bilhão. Grande parte desse montante, cerca de 70%, vem dos atendimentos prestados ao Serviço Único de Saúde (SUS). A Santa Casa também conta com fontes de recursos próprios, como o aluguel de mais de 400 imóveis que fazem parte do seu patrimônio, doados por pessoas físicas e jurídicas ao longo dos 400 anos de história da instituição. Entre os imóveis, está o antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos, em São Paulo, hoje locado para as Casas Bahia.

À frente do complexo da Santa Casa, que conta com 39 unidades de saúde, entre operações próprias e administradas pela instituição, estão 48 diretores de carreiras distintas, que comandam 10 mil funcionários. Em comum, eles têm especialização em administração hospitalar. Segundo Antonio Carlos Forte, superintendente da Santa Casa, grande parte das instituições similares, espalhadas pelo País só conta com a boa vontade de voluntários. “Tem Santa Casa por aí sendo administrada por açougueiro ou sapateiro”, diz Forte. “Admiro a boa intenção das pessoas, mas é preciso ser profissional para gerir um complexo hospitalar.”

Os planos da Santa Casa não param por aí. Novas fontes de renda devem irrigar seu caixa daqui para frente. A capela instalada no complexo, por exemplo, vai começar a realizar casamentos, com a bênção de dom Odilo Pedro Scherer, o cardeal de São Paulo. A lavanderia, que ocupa um prédio no complexo hospitalar, será terceirizada. Seu espaço será transformada num centro de convenções para uso próprio e de terceiros que queiram alugar o local para eventos. “E assim, a Santa Casa vai perseguindo a sua missão de caridade, só que agora, com crédito na praça”, diz Abdalla.

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