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O ano dos grandes recalls

Cleide Silva

16 de junho de 2014 | 15h41

SÃO PAULO – Em menos de seis meses, o número de veículos convocados para reparos no Brasil já equivale a 84% dos modelos envolvidos em recall em todo o ano passado. De janeiro até agora, 552,3 mil automóveis, comerciais leves, caminhões e motocicletas foram chamados para correção de defeito de fábrica, enquanto em 2013 inteiro foram 660,6 mil unidades.

O total de veículos envolvidos em 28 campanhas de janeiro até agora é 147% maior que o de igual período do ano passado, que também teve 28 convocações, segundo dados do Procon/SP. Uma única campanha da General Motors feita em maio, para 238,3 mil carros, já ultrapassa as 223,3 mil unidades de um ano atrás. Mesmo sem esse recall, o volume seria 40% maior ante o de 2013.

Nos Estados Unidos, só a GM convocou neste ano cerca de 14 milhões de veículos, mais da metade de todo o volume do ano passado, que somou 22 milhões de unidades. Analistas acreditam que a marca recorde de recalls de 2004 no país, de 30,8 milhões de veículos em 2004, será ultrapassada. China e Japão também contabilizam números recordes de recall neste ano.

O exuberante número de veículos que devem passar por reparos para consertar defeitos que colocam em risco a segurança dos usuários é resultado de recalls preventivos que estão sendo realizados pelas fabricantes no mundo todo.

As ações preventivas se intensificaram após as complicações enfrentadas pela GM nos EUA, que demorou 11 anos para reconhecer um defeito na chave de ignição de vários modelos, a maioria já fora de linha, que resultou em pelo menos 13 mortes. Em fevereiro, a empresa fez recall para 2,6 milhões de veículos.

Pela demora em reconhecer o defeito, a maior montadora dos EUA foi multada em US$ 35 milhões. Sua presidente, Mary Barra, teve de dar explicações ao Congresso americano. Após uma auditoria interna, ela demitiu 15 executivos por negligência.

Pânico

“Há um pânico, uma síndrome entre as empresas e elas estão realizando muitas chamadas preventivas”, afirma Francisco Satkunas, diretor da SAE Brasil, associação que reúne engenheiros e técnicos do setor automotivo. “Este ano haverá uma explosão no número de recalls”, prevê.

Depois das críticas em relação ao caso das chaves de ignição, a GM americana decidiu fazer recall de todos os veículos que ainda estavam em avaliação na Administração Nacional de Segurança de Tráfego em Rodovias (NHTSA), agência ligada ao Departamento de Transporte americano. O órgão recebe relatórios com possíveis defeitos nos carros, faz suas próprias avaliações e determina o recall.

“Isso explica o número elevado de recalls, mas foi uma decisão voluntária da companhia para facilitar o processo”, informa o presidente da GM América do Sul, Jaime Ardila. “Alguns dos recalls são por questões simples, com risco muito baixo”.

Para Ardila, na indústria como um todo, inclusive no Brasil, o número de recalls tem aumentado porque “os carros são mais complexos e as montadoras fazem um maior esforço por atuar preventivamente.” Segundo ele, não é uma situação nova, mas um processo que começou há algum tempo. “Minha interpretação é que todos vamos continuar a aumentar o número de recalls para proteger os clientes”.

O recall dos 238,3 mil veículos da GM foi decidido após a empresa ter detectado defeitos no lote de filtros de combustível recebido num único dia. “Como o fornecedor não tinha certeza de quando poderia ter acontecido o problema, decidimos fazer um recall de todos os carros produzidos com peças desse fabricante desde setembro do ano passado, quando ele fez mudanças no processo de produção”, explica Ardila.

Grupo especial

Depois do recall de 2010 que envolveu mais de 8 milhões de modelos Corolla por problemas de aceleração involuntária, que também resultou em mortes, a Toyota criou um grupo especial chamado de Smart Team para identificar defeitos e solucioná-los antes que ocorram acidentes. Todas as filiais do grupo, inclusive a brasileira, têm uma equipe como essa.

Segundo Steve St. Angelo, presidente da Toyota América Latina e Caribe, o grupo mantém contatos com consumidores, lojistas e agências governamentais para saber de reclamações e avaliá-las. Também envia técnicos para avaliar acidentes envolvendo carros da marca.

“Antes, só fazíamos um recall após 100% de certeza de sua necessidade; agora, se detectamos um problema, fazemos o recall por precaução”, diz St. Angelo. As decisões de convocação, antes concentradas na matriz japonesa, agora ficam a carga de cada região. Atualmente, a Toyota é a segunda montadora com maior número de recalls no mundo e no Brasil.

Na opinião de Márcio Marcucci, diretor de fiscalização do Procon/SP, o que está ocorrendo não deve ser visto como uma banalização de recalls. “O recurso está previsto na lei para evitar acidentes de consumo”, diz. “Mas, se por um lado é bom, por outro revela a necessidade das empresas terem maior controle na produção.”

Sofisticação

O sócio da PriceWaterhouseCoopers (PwC), Marcelo Cioffi, ressalta que recalls têm sido cada vez mais frequentes por causa da sofisticação dos veículos. “Quanto mais tecnologia embarcada, mais chances de problemas”.

Grande parte das novas tecnologias, integradas por sistemas eletrônicos, foi criada justamente para dar maior segurança aos usuários, como airbags e freios ABS. “Não é porque tem mais recall que a tecnologia não funciona; ao contrário, elas reduziram significativamente o número de mortos em acidentes”, afirma Cioffi.

Satkunas afirma que 70% das convocações têm como origem defeitos nos componentes. Cada automóvel têm em média 3 mil a 4 mil peças. O fato de um carro ser global, contudo, não significa que um recall lá fora seja necessário para um mesmo modelo produzido no Brasil, pois os fornecedores podem ser diferentes.

Cioffi lembra que, por enquanto, o elevado número de recalls não teve impacto nas vendas. No caso do recall da chave de ignição da GM americana, “há uma análise por parte dos consumidores de que a empresa, ainda que tardiamente, está promovendo as correções necessárias.”

 

 

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