Retrógrados querem criar reserva de mercado para conselheiros, diz Nogueira Batista

Retrógrados querem criar reserva de mercado para conselheiros, diz Nogueira Batista

Cristiane Barbieri

26 de junho de 2021 | 15h00

João Pinheiro Nogueira Batista, CEO da Evoltz  Foto: Arquivo pessoal

O mundo dos conselheiros profissionais tem fervido desde segunda-feira (21), quando o Nubank anunciou que a cantora Anitta havia ganhado uma cadeira em seu conselho de administração. De um lado, há especialistas da área indignados tanto com o que consideram puro golpe de marketing quanto com o fato de ela não ter uma formação tradicional para o posto. De outro, há quem defenda a diversidade como um princípio básico para a criação um colegiado que dê maior solidez às decisões corporativas. “Conselheiro não é profissão”, diz João Pinheiro Nogueira Batista, CEO da transmissora Evoltz, conselheiro de duas empresas e ex-vice-presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) por três mandatos. “Existe muita gente retrógrada e reacionária que pretende criar uma reserva de mercado para conselheiros profissionais que é a maior besteira que se pode imaginar.” A seguir, trechos da entrevista:

A indicação de pessoas que não são conselheiros profissionais a cadeiras nos colegiados – como aconteceu com a cantora Anitta no conselho de administração do Nubank – é boa ou ruim? Traz diversidade e inclusão ou enfraquece a ideia de ter mais profissionais nos cargos?

João Pinheiro Nogueira Batista: Não existe a categoria ‘conselheiro profissional’. Por características pessoais e interpessoais, por bagagem acumulada ao longo da vida, seja ligada a atividades profissionais ou pessoais, a pessoa se torna um potencial bom conselheiro – ou não – para uma empresa. Do lado da corporação, as práticas modernas indicam que é necessário formar um conselho mais diversificado possível, para que a opinião dos conselheiros chegue a um denominador comum, em relação à estratégia da empresa. Se o conselho for formado por pessoas muito parecidas culturalmente e profissionalmente, vai tender a ter um viés muito único, em vez de ter estratégia mais ampla e inclusiva. Ou seja: ser conselheiro profissional não é o requisito mais importante, mas sim a bagagem que a pessoa tem e construiu ao longo da vida. A experiência acumulada e a sua capacidade de apoiar e emitir opiniões e julgamentos sobre situações empresariais e estratégicas. Claro que é importante ter o mínimo de conhecimento sobre riscos e exigências regulatórias, ainda mais em empresas listadas que têm uma série de especificidades. Fora isso, é mais importante ter uma vida empresarial e humana rica e diversa, para trazer essa experiência e arcabouço para o conselho, do que ser certificado e profissional.

A formação de conselheiro é essencial para que se exerça essa função? Ela pode ser aprendida rapidamente?

Nogueira Batista: A formação é importante, mas não essencial. Pode ser adquirida – e é sempre bom e recomendável aprender as especificidades, sendo que o IBGC é a instituição mais bem aparelhada para dar a formação adicional para qualquer um que queira exercer a função de conselheiro. Mas não é o mais importante. A pessoa pode tirar dez no curso e pode não ter experiência, não saber transmitir, nem inovar ou dialogar. Formação técnica não resolve isso.

Qual deve ser o principal papel desse conselheiro ‘fora da caixa’? Ele deve ficar restrito a um conselho consultivo ou a algum comitê que não seja deliberativo?

Nogueira Batista: O melhor conselho de administração para uma empresa tem de ser determinado pelos acionistas. A partir daí, determina-se o tipo de experiência importante para trazer ao conselho, em uma ou mais pessoas, mas é importante ter um grupo de pessoas que se complementem. Todos os conselheiros devem ser fora da caixa, não precisam estar restritos a um conselho consultivo devem e ser diferentes. O ideal é ter um conselho formado por gente fora da caixa e que, juntos, constituam um elemento indutor de crescimento e perpetuação da empresa. Se o IBGC tiver uma iniciativa pró-ativa em relação a supri-los dos conhecimentos técnicos que não tenham será uma ótima atitude. Será bastante adequado. Essa é a função principal do IBGC: promover a diversidade e estimular que pessoas novas, com experiências pessoais ricas sejam aproveitadas em conselhos, com as devidas capacitações técnicas para as especificidades da função. Se fosse o Nubank, aceitaria de bom grado e estimularia a Anitta a fazer esse aperfeiçoamento técnico. Por outro lado, só posso esperar que o IBGC honre sua tradição de prestar o apoio à formação e ao aperfeiçoamento de todo e qualquer conselheiro. O instituto existe para dar treinamento e estimular a boa governança e seria muito apropriado que o fizesse. Existe muita gente retrógrada e reacionária que pretende criar uma reserva de mercado para conselheiros profissionais que é a maior besteira que se pode imaginar.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 25/06/2021 às 18h05

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