À espera de regulação específica, corretoras cripto ganham musculatura no Brasil

À espera de regulação específica, corretoras cripto ganham musculatura no Brasil

Aramis Merki II

31 de dezembro de 2021 | 05h10

Representação de bitcoin: criptomoedas atraíram investidor, apesar de volatilidade  Foto: REUTERS/Edgar Su

A abertura de capital da corretora de criptomoedas Coinbase na bolsa americana Nasdaq, em abril, coincidiu com um dos picos da cotação do bitcoin e ajudou a consolidar o segmento como classe de investimentos. Apesar da volatilidade dos ativos, o que se observou foi uma entrada maciça de investidores e um estímulo para a evolução de um novo mercado de exchanges – como são chamadas as plataformas de negociação. No Brasil, o movimento incluiu a entrada de grupos estrangeiros, novatos e nomes tradicionais do setor financeiro, uma disputa que deve ganhar novos contornos neste ano na expectativa de uma nova legislação para o setor.

De acordo com estudo da Fundação Getulio Vargas em parceria com a gestora Hashdex e a University Blockchain Research Initiative (UBRI), metade dos investidores em criptomoedas brasileiros entrou nesse mercado a partir de 2020.

Como fronteiras não fazem sentido no universo descentralizado construído a partir do blockchain, as gigantes globais como a Binance têm a preferência dos novos investidores brasileiros. Em novembro, mais de um terço do volume de bitcoin negociado no Brasil passou pela corretora, segundo dados do site Coin Trader Monitor.

A brasileira Mercado Bitcoin, que foi a plataforma mais usada no Brasil em 2019 e 2020, deve perder o posto este ano. Foi a quinta em volume de bitcoin no mês de novembro. Apesar disso, a empresa se dedicou a ganhar musculatura ao longo do ano: recebeu um aporte de US$ 200 milhões liderado pelo Softbank e se tornou o primeiro unicórnio (empresa com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão) do mundo cripto brasileiro. A holding que a controla, a 2TM, fez aquisições de startups dentro e fora do segmento. O grupo oficializou suas atividades de investimento com o lançamento de um braço de venture capital, o 2TM Ventures.

Em setembro a Mercado Bitcoin atingiu a marca de três milhões de clientes, após extinguir a taxa de saque do saldo em reais. O benefício vem na esteira da maior concorrência aportando no país. Em maio, a mexicana Bitso iniciou operações por aqui e já está no top 20 em volume transacionado. Outras que se aventuraram por aqui neste ano, com menos expressão, são as chinesas OKEx e a neozelandesa Easy Crypto.

No topo das exchanges mais usadas, outras brasileiras disputam a vice-liderança do mercado local, enquanto a Binance domina absoluta. O BitPreço, marketplace que compara e permite a compra de ativos em outras corretoras foi o segundo colocado em novembro, seguido de perto pela NovaDAX e pela BitcoinToYou.

Além das exchanges

Um dos movimentos vistos na reta final do ano e que pode se acelerar em 2022 é o das carteiras digitais oferecendo a negociação de criptoativos em seus aplicativos. A 99pay lançou o serviço em novembro, com a tecnologia da Foxbit por trás. A corretora brasileira, aliás, criou a Compra Fácil, solução que fornece a tecnologia e permite a customização com o logo da empresa parceira.

Além deste produto, a Foxbit tem um departamento para atender clientes institucionais que estejam interessados em seguir os passos da Tesla, Microstrategy e outras companhias globais que têm bitcoin em caixa.

Ainda em novembro o Mercado Pago anunciou sua entrada em cripto. A fintech argentina ligada ao Mercado Livre adicionou ao seu app a possibilidade de compra e venda de bitcoin, ethereum e da stablecoin USDP, da Paxos – a exchange parceira na operação. Por enquanto apenas um grupo de clientes tem acesso à ferramenta. Inicialmente não será possível pagar as compras com o saldo cripto. O uso dos ativos digitais para pagamentos, um anseio dos usuários e entusiastas cripto, ainda não será possível, mas a empresa tem planos para isso.

O Brasil é o mercado mais relevante para o Mercado Livre, por isso o projeto teve o pontapé inicial aqui, disse Osvaldo Gimenez, presidente da Mercado Pago no lançamento da ferramenta. Lançar o produto aqui e não na Argentina também indica o potencial de crescimento do mercado brasileiro no segmento cripto.

Dentre as instituições mais tradicionais do sistema financeiro, a que mergulhou na piscina primeiro foi o BTG. Em outubro, o banco anunciou a Mynt, corretora cripto que está em fase pré-operacional. A expectativa é que os serviços sejam oferecidos a partir do primeiro trimestre de 2022. A XP também teria planos de lançar sua própria plataforma, segundo especulações no meio, mas a corretora não confirma a informação.

Hora da regulação

As iniciativas devem ganhar ainda mais fôlego se sair do papel a nova regulação do setor.
Um projeto de lei no Congresso prevê que a prestação de serviços no segmento de ativos virtuais será regulamentada por órgão do governo federal. Por questões regimentais, o texto não define quem será o ente regulador. A expectativa é que o Poder Executivo deve direcionar ao Banco Central e à CVM.

O deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ), autor do projeto de lei tem a expectativa de que o texto seja aprovado no Senado e passe por sanção presidencial no primeiro trimestre de 2022.

A lei é vista pelos players brasileiros como forma de trazer segurança jurídica ao setor. Em março, a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto) acionou o Banco Central, o Ministério Público e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para investigar a Binance. A entidade apontou que a corretora chinesa presta serviços financeiros que não são autorizados no país.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 30/12/21, às 09h30.

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