Acordo de Brumadinho ajuda Vale a ‘virar página’, mas marcas de tragédias seguirão presentes

Acordo de Brumadinho ajuda Vale a ‘virar página’, mas marcas de tragédias seguirão presentes

Mariana Durão, Luísa Laval e Felipe Laurence

05 de fevereiro de 2021 | 13h19

Voluntários tentam salvar vaca atolada na lama de rejeitos de ferro, após rompimento da barragem da mineradora Vale/ FOTO WILTON JUNIOR/ ESTADAO

“Virada de página” foi uma expressão recorrente nas análises do mercado financeiro sobre o acordo de R$ 37,7 bilhões fechado ontem, pela Vale com o Estado de Minas Gerais e outras autoridades no caso Brumadinho. De maneira geral, o acerto foi bem recebido, porque elimina incertezas, gera segurança jurídica e abre caminho para amenizar o desconto dado às ações da Vale em relação às das concorrentes australianas Rio Tinto e BHP Billiton.

Para o BTG Pactual, mais importante que os números do acordo é seu efeito de virar a página do desastre com a barragem. O analista Daniel Sasson do Itaú BBA diz que a Vale deixa para trás as principais incertezas relativas às reparações e seu impacto financeiro. “A Vale atingiu o objetivo de ter uma maior segurança jurídica, pois o acordo feito realmente incorpora eventuais ações legais que a empresa poderia sofrer”, afirma.

Para analistas de mercado, é possível agora projetar melhor números da Vale

O Credit Suisse resumiu o efeito como “tirar um peso adicional dos papéis da empresa”. Henrique Esteter, da Guide Investimentos, diz que os dados de produção e o acordo permitem projetar com mais segurança o futuro da Vale. A Guide prevê que a Vale tenha um ano de forte geração de caixa e remunere seu investidor com yield de aproximadamente 10%, acima da média.

Maior acordo judicial já realizado na história do País, o acerto de R$ 37,7 bilhões ficou cerca de 30% abaixo dos R$ 54,7 bilhões pedidos pelo Estado, Ministério Público (estadual e federal) e Defensoria na ação civil pública de reparação de danos encerrada após quatro meses de negociações. Por outro lado, superaram a estimativa da Vale, que previa um custo total de reparação de R$ 29,6 bilhões.

Na prática, a Vale conseguiu a liberação imediata de R$ 5,4 bilhões em depósitos judiciais de garantias, e, portanto, o provisionamento adicional relativo à tragédia será de R$ 14,4 bilhões – algo próximo de US$ 2,7 bilhões, equivalentes a 3% do valor de mercado da companhia. Para uma multinacional do porte da brasileira, o valor não chega a doer no bolso. Apenas nos nove primeiros meses de 2020 a mineradora acumulou lucro de R$ 27,4 bilhões.

Impacto no pagamento de dividendos deve ser neutro

Os analistas também enxergaram o acordo como favorável (ou ao menos neutro) ao pagamento de dividendos. A XP calcula que o impacto adicional de R$ 19,8 bilhões a ser reconhecido no exercício de 2020 não deve afetar o pagamento, reduzindo talvez o rendimento dos proventos mínimos de 9% para 7,5%. A equipe do Bradesco BBI diz que a Vale tem espaço em seu balanço para pagar dividendos extraordinários. A estimativa da casa é de pagamento de US$ 9 bilhões em proventos.

A notícia do acordo se soma à recepção positiva ao relatório de produção de 2020, divulgado na quarta pela mineradora. Apesar da pandemia, a Vale conseguiu fechar o ano produzindo pouco mais de 300 milhões de toneladas de minério de ferro, volume 0,5% inferior ao de 2019, mas dentro de suas projeções. Entre os analistas do setor, o destaque foi para as vendas 5% acima da produção no quarto trimestre, reforçando a estratégia de normalizar estoques e possibilitar uma maior aderência entre vendas e produção.

Tragédia de Brumadinho deverá ter impacto nos próximos anos

Do ponto de vista operacional e de imagem, entretanto, a tragédia que deixou 272 mortos em Brumadinho ainda deverá reverberar sobre a Vale nos próximos anos, ainda que em menor escala. A mineradora reafirmou no relatório de produção a meta de chegar às 400 milhões de toneladas em 2022. O volume, entretanto, deveria ter sido alcançado em 2019 e foi adiado pelo desastre.

O plano de retomada de capacidades apresentado no relatório de produção da Vale é a prova de que a empresa ainda terá de lidar com as consequências de Brumadinho por bastante tempo. Ele envolve adequações de barragens e a recuperação de produção gradual, principalmente nos Sistemas Sul e Sudeste, onde a Vale teve operações paralisadas após o desastre.

O Bradesco BBI avaliou que o acordo libera um gatilho para atrair para a Vale investidores internacionais, mais preocupados com a agenda ESG (ambiental, social e de governança). Na manhã de ontem, entretanto, circularam em portais e na TV imagens de protestos dos atingidos pelo rompimento da barragem contra o acordo, na frente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. A Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas) diz que não houve apoio das assessorias técnicas independentes na realização do acordo. As famílias afetadas reclamam da falta de participação e de acesso aos documentos.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 04/02/2021, às 18:51:16

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