Alta da Selic não fecha temporada para ofertas de ações em Bolsa, diz Pedro Mesquita, da XP

Alta da Selic não fecha temporada para ofertas de ações em Bolsa, diz Pedro Mesquita, da XP

Cynthia Decloedt

17 de março de 2021 | 17h18

Os investidores têm convivido com novas emoções desde meados de fevereiro e as expectativas são de que o Banco Central ajuste a taxa Selic levemente para cima, movimento que pode mexer com o fluxo de recursos nos mercados. Mas a janela para as ofertas de ações em bolsa não fecha, na opinião do sócio e responsável pelo banco de investimento da XP, Pedro Mesquita. “Vivemos uma janela desde o final de 2019, que se fechou por três meses na primeira fase da pandemia”, afirmou Mesquita ao Estadão/Broadcast. “Depois disso, houve momentos melhores e piores. Até o meio de fevereiro, esteve muito bom.”

Apesar de reconhecer que os movimentos de juros podem provocar mudanças no intervalo positivo para as ofertas de ações, o executivo da XP descarta a preocupação no momento. “Não vejo o Brasil convivendo com taxa de juro de dois dígitos. Perto de 5% e variando um ponto para cima ou para baixo ainda é um bom estímulo”, afirma. Muitos economistas esperam uma alta de 0,50 ponto porcentual na Selic na reunião de amanhã, dos 2% atuais para 2,5%.

Mesquita aposta que esta próxima janela de ofertas e precificações, a partir das próximas semanas, trará ao mercado algo como R$ 60 bilhões em novas transações na bolsa. Ele também se entusiasma com o ritmo esperado até o final do ano e enxerga a marca de R$ 200 bilhões como um número possível em 2021. “Vamos ter mais um ano histórico de ofertas e com bom apetite para as ofertas”, afirma.

Em sua avaliação, o segundo semestre poderá trazer mais tranquilidade aos mercados, com o quarto trimestre despontando como o mais robusto em ofertas. “Vivemos um presente muito difícil, mas o segundo semestre será melhor, com a vacinação progredindo e a contaminação caindo”, diz.

Mesquita é entusiasta da tecnologia. Ele diz que o IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) da Locaweb, empresa de hospedagens digital, feita em fevereiro do ano passado e que movimentou R$ 1,2 bilhão, abriu um caminho para outras companhias no setor na bolsa brasileira. Esse grupo chegou em peso levantou mais de R$ 10 bilhões. “Ficou claro que as companhias não precisam serem listadas em bolsa no exterior. As ações são negociadas com múltiplos similares, aqui ou no exterior. Não importa onde o capital foi aberto, os fundos de fora investem aqui e em outro qualquer local do mundo”, diz.

A pandemia contribuiu para a quebra de paradigma, na opinião de Mesquita, à medida que jogou luz e acelerou o crescimento das companhias de tecnologia. Por outro lado, obrigou fundos e analistas a agirem rápido e se preparem para olhar as ofertas. “Isso é resultado da nova economia, que se acelerou na pandemia. Tanto que, quando a situação piora, as empresas ligadas à tecnologia e ao digital sobem mais”, nota.

Cerca de oito empresas do setor de tecnologia estão com pedidos de análise de ofertas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), número já equivalente ao das lançadas em todo o ano passado. Entre os nomes estão a Infracommerce, plataforma de soluções para o e-commerce e a Bionexo, de soluções para a saúde, ambas atuando junto a setores em alta.

Aposta da área de investimentos da XP é chegar à liderança do segmento em 2022

Na corrida pela liderança de vários mercados, a XP embarca numa briga em que estão nomes tradicionais do universo de investimentos e, sob o mantra do sonho grande, busca ocupar destaque também no ranking dos maiores bancos de investimento. “A XP se inseriu nesse novo contexto de forma diferente e construiu em muito pouco tempo um espaço importante no mercado de capitais. Por que não buscar ser o maior banco de investimento?”, diz Mesquita.

Ele arrisca dizer que o grupo chegará à liderança até o fim do ano que vem. “Já que temos expandido nossa presença no mercado local, é muito factível”, afirma. Mesquita lembra que a XP construiu a área de estruturação de operações de mercado de dívida há seis anos e de ações, há três. “Hoje, já somos o terceiro no ranking de operações de ofertas de ações da Anbima e os primeiros em distribuição de títulos de renda fixa e híbridos.”

Após a aquisição da Riza, conhecida assessora financeira independente de operações de fusões e aquisições, no ano passado, a XP participou de uma das maiores fusões recentes em saúde, da Hapvida e Notre Dama Intermédica, com valor de mercado de mais de R$ 100 bilhões juntas. Também trabalhou na aquisição do maior hospital do Maranhão, o São Domingos, pela Dasa Diagnósticos, por R$ 2 bilhões.

Mesquita acredita que com a incorporação da Riza, a área de banco de investimento da XP está pronta para chegar à liderança. “Trouxemos o time da Riza e com isso formamos a trinca de banco de investimento, disputando com os melhores no mundo em originação de captações por meio de dívida, ações e de operações de fusões e aquisições”, afirmou.

XP saiu de quinto para terceiro lugar no ranking da Anbima

A empresa vem, de fato, marcando território nas ofertas de renda fixa (instrumentos de dívida, como debêntures e certificados de recebíveis do agronegócio e imobiliário) e de renda variável (ações). De acordo com o ranking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), a XP saiu do quinto para o terceiro lugar em número de operações de ofertas iniciais (IPO, na sigla em inglês). Entre elas, o emblemático IPO do Grupo Mateus, que movimentou R$ 4,6 bilhões, trazendo para a B3 uma varejista do nordeste, aberta há 34 anos por um garimpeiro de Serra Pelada.

Em operações de captação por meio de instrumentos de dívida de renda fixa (debêntures, majoritariamente) e de títulos híbridos, a XP ficou em primeiro lugar em distribuição em 2020, avançando território contra o líder Itaú BBA. Mas considerando o ranking somente de distribuição de títulos de renda fixa da Anbima, a XP subiu ao terceiro lugar no ano passado, de sexto em 2019. O Itaú é líder na distribuição de renda fixa em 2020 e 2019 pelo ranking da Anbima.

“A XP se inseriu nesse mercado de forma diferente e construiu, em muito pouco tempo, um espaço importante no mercado de capitais”, disse Mesquita. Ele atribui a velocidade na conquista desse espaço ao acesso que a XP tem a novos investidores, especialmente, as gestoras independentes que cresceram a partir de sua plataforma.

A brincadeira é, no entanto, de gigantes. Além do próprio Itaú, que saiu do capital da XP no ano passado, e lidera posições de destaque no mercado de capitais, e do norte-americano Bank of America, que está no topo das operações de ações, a XP enfrenta times pesados de outros bancos, que também se estruturaram para brigar pelos maiores postos.

A joint venture UBS-BB foi criada para abocanhar uma participação maior em operações de bancos de investimento, com a missão de figurar no topo dos rankings. O Bradesco também ajeita seu banco de investimento para galgar mais espaço nesses mercados, buscando sinergia entre a área de atacado para originar mais operações.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 16/03/2020 às 18:36

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