Alta Liquidez trará estreantes e ESG será o grande tema nas captações externas de empresas

Alta Liquidez trará estreantes e ESG será o grande tema nas captações externas de empresas

Cynthia Decloedt

25 de dezembro de 2020 | 10h23

A alta liquidez e a presença crescente de investidores ligados à sustentabilidade devem fazer de 2021 um ano diferente para o mercado de títulos de dívida externa. Novas empresas, de setores até então pouco explorados, e operações estruturadas em cima de aspectos de compromissos ambientais, sociais e de governança (ESG), vão ganhar espaço, na opinião de especialistas. A expectativa é também de que janeiro, a principal janela deste mercado, seja já bastante aquecida.

“Podemos ter cerca de 10 emissões acontecendo em janeiro e já nas primeiras semanas”, disse o responsável por mercado de renda fixa do Bradesco BBI, Philip Searson. Ele aponta o fato de que muitos emissores devem optar por aproveitar a oportunidade que já está aberta, uma vez que o ano de 2020 termina com uma demanda elevada para as ofertas feitas pelas empresas e os custos de captação estão em patamares mínimos.

Searson cita também que o mercado enxerga que um eventual agravamento de casos da covid-19 nos Estados Unidos não deve levar a um novo lockdown da economia norte-americana até o final do mês, quando o país ainda terá Donald Trump efetivamente como presidente. Joe Biden, presidente eleito e defensor do fechamento da economia anteriormente, toma posse em 20 de janeiro.

Mas há outros grandes motivos, como a conjuntura muito favorável, do ponto de vista técnico. De acordo com Searson, existem aproximadamente US$ 14 bilhões em bonds vencendo no ano que vem e mais US$ 13 bilhões oferecendo opção de recompra, Desse total, uma boa parte, segundo ele, oferece opção de recompra a uma taxa pré estabelecida que, na maior parte dos casos, está abaixo do que vem sendo negociado no mercado. “Esse vai ser um grande impulsor do mercado”, avalia

O responsável pela área de mercado de dívidas do Bank of America (BofA) no Brasil, Pedro Campos, argumenta que os emissores brasileiros serão beneficiados pela possível queda nas ofertas das empresas norte-americanas, que fizeram um orçamento de guerra nos primeiros meses subsequentes à declaração da pandemia este ano e que, com a perspectiva de vacina e de retomada da economia, não devem precisar de tantos recursos. Ele estima que em janeiro haja um volume de captações de emissores brasileiros em linha com a média histórica de US$ 6 bilhões.

Este ano, foram captados US$ 1,9 trilhão por empresas norte-americanas de primeira linha e cerca de US$ 410 bilhões por empresas mais arriscadas, abaixo do grau de investimento, conhecidas como high yield (de maior retorno, dado o risco mais elevado). Nas duas categorias, houve crescimento nos volumes, de 55% e 70%, respectivamente. De América Latina, as emissões cresceram em menor proporção, ficando cerca de 15% acima de 2019 e somando US$ 135 bilhões.

Campos nota que a combinação de falta de papéis e juro negativo no mundo fará com que os investidores busquem operações de prazos mais longos. Segundo ele, existem atualmente no mundo US$ 17,5 trilhões em títulos de dívida de empresas e soberanos com juro negativo, correspondentes a quase um terço dos cerca de US$ 65 trilhões dessa dívida em circulação.

O perfil também vai mudar um pouco, prevê o responsável pelo Mercado de Capitais de Renda Fixa do Morgan Stanley no Brasil, Gustavo Siqueira . A grande maioria das empresas que acessam o mercado de dívida no exterior são exportadores dos segmentos de proteínas, mineração ou de energia. “Existe uma escassez e uma demanda reprimida para papéis de empresas de infraestrutura nas áreas de energia e varejo. O investidor quer ver outros tipos de papéis”, acrescenta.

Na fila dos estreantes, o que se pode esperar é uma combinação de empresas financeiras, varejo, telecom, energia e até saneamento, de acordo com Siqueira. “Espero ver mais operações relacionadas à economia real local, com receitas em reais”, diz.

ESG e bancos

Existe uma clara tendência de um aumento relevante nas operações de bonds relacionadas ao tema de responsabilidade ambiental, social e de governança. “ESG deixou de ser um tema e passou a ser central nos negócios. Estamos falando de um mercado que cresce exponencialmente em termos de demanda dos investidores por investimentos relacionados a ESG e esta é uma parte das discussões que temos com clientes”, afirma Campos, do BofA.

Segundo ele, os benefícios em termos de custos de um bond atrelado à sustentabilidade já aparecem para os emissores. Ele cita a emissão da Suzano, do setor de Papel e Celulose, que assumiu um compromisso de redução de emissão de gases provocadores do efeito estufa em dez anos e atraiu enorme demanda, resultando na operação de menor custo na história da empresa no mercado de dívida externa. “Isso reflete uma demanda adicional de investidores dedicados a ESG, parte deles que foram buscar os bonds da empresa no mercado secundário por não terem conseguido adquirir os papéis na emissão primaria”, observa.

Os bancos também são candidatos a embarcar no tema. Existem vários vencimentos de bonds de instituições financeiras no ano que vem e, como não existe uma necessidade clara de recursos, o que se comenta é que os bancos podem fazer operações relacionadas a ESG aproveitando alguma oportunidade de custo. Entre os vencimentos do ano que vem para os bancos estão bonds que foram emitidos há alguns anos para compor o índice de Basileia, de capital mínimo obrigatório, mas que perderam validade nesse sentido.

“Grandes bancos não têm necessidade de liquidez. Na maioria dos casos, eles têm acesso a funding melhor, em termos de custo, no mercado local e isso tem feito com que as emissões externas desse grupo sejam menos aquecidas. Mas as taxas dos papéis estão caindo para as mínimas históricas no secundário, podendo incentivar os bancos a realizarem emissões oportunistas para aproveitar o juro”, diz Campos.

Ele conta que o BofA fez emissão recente de US$ 1 bilhão que tinha fator ESG e que cada vez mais as instituições estrangeiras estão captando assim. Segundo ele, o BofA já tem 10 bilhões em papéis emitidos com o selo ESG.

Riscos

Assim como em outros mercados, as preocupações com as consequências geradas pela covid-19 estão ficando para trás também entre os participantes do mercado dívida internacional. Mas como as economias tendem a se desempenhar daqui em diante é um assunto recorrente, que ainda suscita apreensão.

“Apesar do momento bom que vivemos, esta rápida recuperação foi também artificial, puxada pela atuação dos bancos centrais globais e no Brasil, trazendo uma demanda igualmente artificial”, diz Siqueira, do Morgan Stantey. “Não há clareza do que pode acontecer e não se pode esquecer todo o prejuízo econômico que foi causado pela pandemia. Existem ainda muitos setores afetados”, acrescenta o executivo.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 24/12/2020 às 09:00

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