Alto escalão de bancos teme saída de Guedes e vê capacidade do governo em xeque

Alto escalão de bancos teme saída de Guedes e vê capacidade do governo em xeque

Fernanda Guimarães, Aline Bronzati e Cynthia Decloedt

24 de abril de 2020 | 22h49

Por Fernanda Guimarães, Aline Bronzati e Cynthia Decloedt

O pedido de demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, refletiu diretamente na confiança do alto escalão do mercado financeiro quanto à capacidade de gestão do governo Bolsonaro. Executivos de bancos ouvidos pelo Broadcasttemem, mais do que nunca, a saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, possibilidade que cresceu nos últimos dias em meio à adoção de um ‘Plano Marshall’ após a pandemia do novo coronavírus.

A retirada de Moro do governo acendeu o sinal de alerta no mercado financeiro, que relutava em aceitar a possibilidade de o governo perder sua ‘segunda grande estrela’. Antes da pandemia, fontes próximas ao governo já apontavam sobre uma eventual saída de Guedes. No entanto, a ideia era rechaçado no mercado financeiro que vê no ministro o fiador do plano liberal do governo eleito, principalmente, diante da inabilidade política e falta de capacidade de gestão de Bolsonaro. Agora, após a saída de Moro, tudo mudou.

“Foi muito correta e digna a atitude de Moro. A fervura começa a subir para o governo Bolsonaro. Gera uma incógnita quanto ao futuro de Guedes e do próprio Bolsonaro. E muita loucura junta”, afirma um alto executivo de um grande banco brasileiro, na condição de anonimato.

A saída de Moro preocupa porque seu ‘pedido de demissão’ veio envolto de denúncias que podem reverberar em um eventual pedido de impeachment do presidente Bolsonaro. Assim, o cenário ganha uma dose extra de volatilidade e a combalida economia, que sofre graves efeitos da pandemia, afunda mais por conta da crise política, que adiciona mais instabilidade ao País.

“A chance de Guedes sair já está em 50% depois do tal ‘Plano Marshall’. A confiança despenca (após a saída de Moro)… muito questionamento sobre a capacidade de gestão”, aponta outro executivo de grande banco.

O distanciamento de Guedes do governo Bolsonaro foi evidenciado nesta semana na divulgação do plano “Pró-Brasil”, chamado informalmente de ‘Plano Marshall’, em referência à estratégia adotada pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial para financiar a reconstrução dos países aliados. Considerado vago, o anúncio da iniciativa foi feito sem integrantes da equipe econômica ainda que o foco seja justamente a recuperação da economia para o momento pós-pandemia.

A preocupação é generalizada entre bancos locais e internacionais. “Não sei dizer se o Guedes sai ou fica. Mas acho que o Bolsonaro vai ter muita dificuldade em abortar o possível e provável processo de impeachment”, comenta uma fonte do alto escalão de um banco estrangeiro.

Guedes não estaria, conforme fontes, querendo sair do governo, mas o problema é que há cada vez mais dúvidas quanto à vontade de Bolsonaro em mantê-lo. Nos bastidores, depois da saída de Luiz Henrique Mandetta do ministério da Saúde e de Moro da Justiça, o chefe da Economia pode ser o próximo da fila.

Para executivos do mercado financeiro, a saída de Guedes pode gerar um ambiente ainda pior ao já difícil cenário diante dos efeitos da pandemia. Consideram um movimento desnecessário, ainda mais quando a previsão que já é quase um consenso no mercado de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caia 5% ou mais neste ano.

“Temos um momento absolutamente imprevisível nos próximos dias, com absurda volatilidade. O Bolsonaro deve se agarrar ao Centrão. Também será interessante ver como se comporta o núcleo militar, se fica ou não. O banco ainda está avaliando o cenário. Foi tudo muito rápido”, diz um vice-presidente de um banco estrangeiro com grande atuação no País.

Depois de abrirem o dia incomodados com o mau humor externo e a confirmação da saída de Moro, os investidores estrangeiros passaram a precificar nos títulos de dívida do Brasil também o enfraquecimento do ministro da Economia e, sobretudo, de uma crise política em um momento delicado da economia local. O CDS, contrato de proteção contra calote do Brasil, atingiu a máxima do dia durante a tarde, em torno de 378 pontos-base.

Notícia publicada no Broadcast no dia 24/04/2020 17:36:41

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