Após demissão da alta cúpula para conter crise, IRB mexe em plano de incentivo

Após demissão da alta cúpula para conter crise, IRB mexe em plano de incentivo

Fernanda Guimarães

06 de março de 2020 | 08h29

Quando o comunicado da Berkshire Hathaway, do bilionário Warren Buffett, negou que o fundo tivesse investimentos no IRB Brasil e a alta cúpula do ressegurador foi colocada contra a parede, um dos primeiros questionamentos que surgiu no mercado foi sobre o plano de incentivo da empresa, com grande foco no curto prazo. Como consequência, além da saída de José Carlos Cardoso, até ontem presidente do IRB e Fernando Passos, ex-diretor financeiro – no mesmo dia em que a ação caiu mais de 30% na Bolsa e a empresa perdeu R$ 8 bilhões em valor de mercado -, o conselho de administração aproveitou e mexeu no modelo da remuneração dos executivos.

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No caso do IRB, a equação da remuneração traz um chamado “programa de superação”, que inclui a meta de “dobrar o valor de mercado da companhia em um período de 36 meses, com início em maio de 2018”. No formulário de referência do IRB, a explicação para esse item cita o “alinhamento entre acionistas e seus Diretores Estatutários”. Esse ganho variável aos executivos poderia variar entre 0,5 a 3 vezes o valor anual da remuneração total, caso em maio de 2021 as ações estivessem entre o patamar de R$ 72,87 e R$ 97,16. Na quarta-feira, pós cair 31,96% a ação fechou cotada em R$ 19,09. Ontem uma nova queda: a ação foi para R$ 15,97.  Werner Suffert, que chegou da BB Seguridade e assumiu na noite de quarta-feira o cargo de diretor financeiro do IRB e acumula por enquanto a presidência, não terá esse plano.

A remuneração de executivos em companhias abertas tem estado nos últimos anos na linha de frente da análise dos investidores. Até mais relevante do que o valor do salário fixo, a atenção se volta para incentivos de curto e longo prazos dos administradores, itens que podem trazer relevantes sinalizações sobre motivações e alinhamento com os acionistas na hora da tomada de decisão.

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Ontem, em teleconferência na tentativa de tranquilizar o mercado, Pedro Guimarães, presidente interino do conselho do IRB e também presidente da Caixa Econômica Federal, disse que o colegiado definiu, durante a quarta-feira, o fim desse plano de superação para os novos executivos. Os executivos que chegarão a partir de agora terão remuneração de acordo com a prática de mercado, com olhar de longo prazo e de governança, disse Guimarães. Ele afirmou ainda que a discussão da remuneração é importante, principalmente em se tratando das “corporations”, que são as empresas sem controle definido, caso atualmente do IRB Brasil Re, privatizado em 2013 e com capital aberto desde 2017.

Mas não foi apenas a atuação dos executivos em torno da existência ou não da participação do Berkshire que vem levantando dúvidas do mercado em relação aos incentivos “curtoprazistas” da administração do ressegurador. Um relatório de mais de 150 páginas da gestora Squadra tem gerado questionamentos em série sobre o balanço do IRB e se a administração tomava decisões para atender anseios de curto prazo.

Na carta da Squadra, um dos pontos cernes foram os itens não-recorrentes do demonstrativo financeiro, que sempre estão presentes para “ajudar” os números da companhia. A Squadra apontou eventos pontuais como vendas de shoppings, reconhecimento de constituições de reserva, avaliação otimista de contratos e reversão de provisões.

“Desde que o IRB realizou sua abertura de capital em bolsa de valores, no ano de 2017, temos dedicado esforços na análise de seus negócios e resultados. Nesse processo, encontramos indícios que apontam lucros normalizados (recorrentes)significativamente inferiores aos lucros contábeis reportados nas demonstrações financeiras da Companhia”, diz, de cara, a carta da gestora, que circulou o mercado ao longo das últimas semanas. Foi mais do que suficiente para o aumento do escrutínio de analistas e investidores sobre os números da empresa.

Ainda ontem, na teleconferência, Pedro Guimarães foi muito enfático ao dizer, em mais de uma oportunidade, que a confiança é total nos números do ressegurador. “Os números foram auditados por duas auditorias do ‘big four’ (as quatro principais empresas da área). Nunca houve um questionamento, uma ressalva ou ênfase”, disse Guimarães. “Se fosse preciso contrataríamos a terceira, quarta auditoria. É credibilidade acima de tudo, mas os balanços não têm ressalva, nem ênfase.”

Apesar disso, Guimarães disse que um dos trabalhos do IRB a partir de agora será de aumentar o nível de transparência e incluirá a maior abertura de itens recorrentes e não-recorrentes do demonstrativo financeiro.

Suffert terá essa missão: conseguir resgatar a credibilidade do mercado. Até por conta do tamanho do desafio, Guimarães disse que, no primeiro momento, esse era o principal cargo a ser ocupado. Ainda vaga está a presidência do Conselho – Guimarães assumiu interinamente na segunda-feira após a saída de Ivan Monteiro – e a presidência executiva. Segundo fontes, o nome escolhido deve ser Antonio Cassio, executivo que está deixando a presidência das Américas do Grupo Generali, cargo que ocupa desde abril de 2015.

Notícia publicada no Broadcast no dia 05/03/2020, às 15:46:27

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