Arcos Dorados anuncia iniciativas ambientais, mas lista é considerada ‘básica’

Arcos Dorados anuncia iniciativas ambientais, mas lista é considerada ‘básica’

Talita Nascimento

15 de setembro de 2021 | 16h00

 

Cliente no McDonald’s; empresa elencou 25 iniciativas para reduzir seu impacto ambiental  Foto: Werther Santana/Estadão

A Arcos Dorados, franquia responsável pela operação do McDonald’s em 20 mercados da América Latina e do Caribe – inclusive o Brasil -, anunciou que seus novos restaurantes e os a serem remodelados seguirão 25 iniciativas para reduzir seu impacto ambiental. Nas contas da empresa, os estabelecimentos economizarão, mensalmente, 10.000 kWh de energia, 16 mil litros de água e reutilizarão 1.200 quilos de materiais e outros recursos. Com a iniciativa, a empresa afirma que as lojas serão sustentáveis. Especialistas, porém, indicam que ainda há grandes desafios a serem superados, antes que a rede mereça o título.

Dentre as 25 iniciativas estão o uso de ar condicionado com baixo consumo de energia; gases refrigerantes não poluentes; aquecedores solares de água; iluminação LED; bem como a recuperação da água de chuva e da água de condensação dos aparelhos de ar condicionado para tarefas como lavagem das fachadas, limpeza dos banheiros e irrigação dos jardins. Também entram na lista a separação de resíduos no salão e do óleo vegetal utilizado para ser transformado em biodiesel; o uso de madeiras certificadas nos móveis; de vidros com filtro infravermelho para reduzir a temperatura interna; painéis solares e telhados com isolamento. Em 2021, foram inauguradas 30 unidades com todos os itens.

Apesar de positiva, a iniciativa da empresa tem pontos vagos, a lista é considerada básica, atrasada e tem metas pouco ambiciosas, segundo especialistas. Algumas, inclusive, beneficiam mais a própria empresa, com redução de custos no longo prazo.

“Não vejo, de forma detalhada, direta e contundente porque a Arcos Dorados seria, a partir de agora, sustentável”, afirma o analista em regulação do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Rafael Arantes Rioja. Dentre os principais desafios discutidos por empresas para a preservação do meio ambiente, estão a necessidade de reduzir a poluição, o uso de recursos e a pegada ambiental.

“Na alimentação, um dos principais responsáveis por comprometer a questão ambiental é a produção intensiva de carnes. A pecuária tem forte impacto ambiental”, afirma. “Existem também matérias-primas que utilizam agrotóxicos e não vi nada muito contundente, dentro desse plano apresentado, para estímulo de alimentos orgânicos, agroecológicos e práticas mais sustentáveis de pecuária.”

Maria Eugênia Buosi, sócia da Resultante Consultoria ESG, concorda com a preocupação em relação à cadeia de fornecedores. “A ligação com setores como o agronegócio e frigoríficos exige controles mais eficientes sobre toda a cadeia de valor”, diz.

Em seu site, a Arcos Dorados afirma ter uma política de abastecimento de carne  proveniente de bovinos de áreas livres de desmatamento. No entanto, a empresa diz que pretende acabar com o desmatamento de toda a cadeia de abastecimento de matérias-primas até 2030. Ou seja, ainda há nessa cadeia de suprimentos quem desmate.

Cardápio

Rioja, que também é nutricionista, diz que a saudabilidade dos alimentos ainda é, em si, um desafio para o setor de fast food no mundo. Ele não é o único a pensar assim. “(Os desafios das redes de fast food) passam pelo uso de aditivos químicos e o modelo de negócios baseado no consumo excessivo de alimentos gordurosos e ricos em açúcar, controversos para a saúde dos consumidores”, afirma Maria Eugênia.

Segundo a empresa, os alimentos de seu menu cumprem com os mais altos padrões de qualidade. “Para assegurar isso, trabalhamos constantemente no desenvolvimento de processos de produção que fomentem o cuidado do meio ambiente, o respeito à saúde e o bem-estar dos animais”, diz. “No ano passado, a marca deu mais um passo importante e anunciou a remoção e substituição de corantes e aromatizantes artificiais em 14 ingredientes, incluindo itens do cardápio infantil. O processo levou mais de 2 anos e contou com a colaboração de 90 fornecedores em toda a América Latina, sendo 15 deles no Brasil”, complementa a companhia.

Outras das medidas também são consideradas por especialistas muito básicas para se tornarem obrigatórias apenas a partir de 2021, como “separação de resíduos no salão e do óleo vegetal utilizado para ser transformado em biodiesel”. A Arcos Dorados informou, a partir do questionamento, que essas medidas não são novas. “A Arcos Dorados sempre realizou a destinação ambientalmente adequada de todos resíduos gerados. No Brasil, destinamos o óleo vegetal utilizado em nossos restaurantes para o processo de reciclagem desde 2017 e, com essa iniciativa, já recuperamos mais de 8,890 milhões de litros”, afirmou a companhia, em nota.

Em relação à parcela de óleo destinada a virar biodiesel, a empresa informa que “a receita gerada é reinvestida em iniciativas de economia circular, fomentando novos projetos do segmento”.

A Arcos Dorados diz que a implementação do “checklist” de 25 itens representa, portanto, “uma nova fase para a expansão da companhia, ao determinar como obrigatórias, iniciativas que têm sido utilizadas em inaugurações e reformulações de restaurantes brasileiros há mais de cinco anos”. Um exemplo é o compromisso de usar madeira certificada. Questionada sobre a utilização de algum outro tipo dessa matéria prima antes do compromisso, a empresa afirmou que “não possui nenhum tipo de mobiliário produzido com madeira sem certificação”. “Com esse compromisso, formalizamos uma diretriz que sempre foi seguida pela companhia”, disse.

Como garantia de que os termos assumidos serão cumpridos, a Arcos Dorados diz que seu relatório de sustentabilidade é auditado pela consultoria Ernst Young. No entanto, Rioja afirma que esses relatórios não têm uma padronização, o que possibilita que as empresas, em geral, escolham os dados convenientes para serem expostos. Assim, apesar da auditoria certificar que são reais, isso não garante a fotografia verdadeira dos impactos ambientais e sociais da companhia.

Os investimentos para atender às exigências da rede serão divididos entre a Arcos Dorados e os franqueados. Todo o aporte para construção dos restaurantes McDonald’s no Brasil é de responsabilidade da Arcos Dorados, inclusive o investimento em medidas sustentáveis. “Já equipamentos de iluminação, condicionadores de ar e fritadeiras – importantes para redução do impacto ambiental -, por exemplo, são desenvolvidos por fornecedores junto à Arcos Dorados e com contribuição dos franqueados, tendo seu valor negociado para toda a rede. No caso dos demais equipamentos, o investimento é do franqueado, que têm acesso a valores competitivos”, afirma a companhia.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 13/09/2021 às 17h21.

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