Às pressas, empresas buscam tecnologia e preparam trabalho em tempos de quarentena

Às pressas, empresas buscam tecnologia e preparam trabalho em tempos de quarentena

Fernanda Guimarães

23 de março de 2020 | 15h01

Depois de decretada a pandemia do novo coronavírus, muitas empresas sem a cultura do trabalho à distância se depararam com o desafio de manter o dia a dia da companhia em tempos de quarentena, imposta pela necessidade de barrar o avanço do vírus. Após a elaboração de planos de contingência, que incluem até mesmo o aluguel de notebooks, companhias já projetam que algumas das experiências bem sucedidas, como o home office em parte da semana, podem ser adotadas após o fim da crise.

Na Eventials, plataforma de webinars, como são chamadas as conferência online ou videoconferência, a demanda pelo produto cresceu 150% na primeira semana de anunciada a pandemia. “Nossos clientes começaram a aumentar o escopo do uso da ferramenta e estamos tendo também demanda de novos clientes”, diz o presidente e fundador da companhia, Thiago Lima. Com 420 clientes antes da crise, a Eventials já projeta fechar o mês com 500. “As empresas foram obrigadas a repensar seus hábitos de trabalho”, afirma. Por lá, a prática do home office, ou teletrabalho, que já era realidade, está sendo plenamente adotada neste momento.

Segundo Lima, uma dúvida de muitas companhias em relação ao trabalho remoto diz respeito à segurança da informação. De olho no aumento da demanda, a SonicWall lançou uma solução de acesso remoto seguro aos ambientes corporativos. Segundo o responsável pelas operações da companhia no Brasil, Arley Brogiato, as empresas estavam preparadas para permitir o home office para um pequeno número de usuários. No entanto, após o decreto da pandemia, tiveram de correr para conseguir prover acesso ao maior número possível para o trabalho remoto.

“Houve um boom na demanda”, diz ele. Na SonicWall, o crescimento da demanda nesse período foi na ordem de 1.000%. Para ele, mudanças na forma de trabalho em todo o mundo devem se acelerar a partir daqui. “Estamos vendo uma nova revolução tecnológica”, diz. “A estrutura já existia, porém estamos aplicando-a em massa, o que modifica o comportamento das pessoas e organizações.”

Há dois anos, a empresa de tecnologia na nuvem Binario Cloud começou a se preparar para permitir que seus funcionários pudessem trabalhar de casa, porque parte da equipe morava em regiões distantes da sede. No processo, a empresa deixou de ocupar uma área de 4 mil m² para outra de 400 m². O diretor de negócios da companhia, Luiz Fernando Souza, diz que, quando começaram as notícias relacionadas ao coronavírus, a empresa imediatamente fez um mapeamento de quais funcionários poderiam ser deslocados para o home office. Também buscou saber quais ferramentas seriam necessárias para o trabalho remoto. “Os gestores começaram a trabalhar em mecanismos para manter os funcionários engajados”, afirma Souza. Depois de declarada a pandemia, foram aparadas as últimas arestas operacionais, como a transferência dos ramais das mesas para celulares.  Depois de decretada a pandemia, 100% da equipe está remota.

Souza afirma que algumas empresas, dentre elas suas clientes, vinham em processo de transformação digital. Com a necessidade trazida pela crise atual, elas passaram também a questionar a cultura corporativa e estão buscando formas de melhorar a operação.

O presidente da Sucesu, Sociedade dos Usuários de Tecnologia, Harlen Duque, afirma que a crise fez empresas se depararem com ferramentas que não estavam habituadas – poderão viver um momento de disrupção na forma de trabalho. “Ficará um aprendizado”, afirma.

A Neobpo, especializada em serviços de callcenter, tem 15 mil funcionários. O presidente da companhia, Eraldo de Paola, diz que as empresas do setor neste momento deixaram a concorrência de lado e estão trocando experiências. A empresa conseguiu, mediante a crise, colocar 30% de sua força de trabalho em home office. “Mas, a partir daqui, vamos conseguir virar a chave para momento de contingência”, diz.

No Grupo DNR, composto por 17 empresas e que emprega 2,4 mil funcionários, as ações têm sido variadas e em algumas das empresas o home office foi adotado desde o início desta semana. “Uma vez que todas operam via plataforma e contamos com todos os sistemas para acompanhar o trabalho remoto e realizar conferências, essa mudança de ambiente de trabalho foi facilitada”, diz o presidente da companhia, Daniel Nunes Romero.

Em outras empresas do grupo, a estratégia tem sido a rotação de colaboradores. “Nas que tiveram de ficar abertas, compramos um medidor de temperatura e testamos o colaborador todas manhãs. Caso seja detectada febre, ele vai para quarentena. Optamos também por reforçar ainda mais os nossos eventos online”, diz. Também foi mapeada a estratégia, se houver necessidade, de fechamento completo da operação física. “Esperamos que esse tempo sirva para nos mostrar que podemos ter uma política de trabalho mais flexível atingindo os mesmos, se não, melhores resultados”, afirma.

Contato: fernanda.guimaraes@estadao.com