Assessorias investem na criação de conselhos para ganhar força perante mercado e sócios

Assessorias investem na criação de conselhos para ganhar força perante mercado e sócios

Aramis Merki II e Bruna Camargo

15 de abril de 2022 | 05h40

CVM discute possibilidade de sócios capitalistas nos escritórios de investimento Foto: Fabio Motta/Estadão

As assessorias de investimento distanciam-se, cada vez mais, da imagem de um simples escritório e ganham corpo de empresa. Muitas casas estão se verticalizando, incrementando as prateleiras de produtos e serviços e dando novos passos para se tornarem corretoras e consultorias.

Uma tendência que surgiu nesse contexto de fortalecer a estrutura como empresa é a criação de Conselhos de Administração. Os colegiados estão sendo formados com o objetivo de desenvolver processos e governança corporativa, profissionalização perante o mercado e atração e retenção de sócios –  tanto talentos para o escritório quanto eventuais investidores, quando a regulamentação permitir.

Para Filipe Medeiros, presidente da consultoria especializada em assessorias de investimento AAWZ, existe um tamanho a partir do qual um escritório deve pensar em criar um conselho. “O que importa são as expectativas e os objetivos. Os que querem expandir, ter novos sócios precisam investir em governança”, diz.

De acordo com Medeiros, algo como 95% das assessorias têm os aspectos de governança decididos totalmente pelos sócios fundadores. “Até mesmo escritórios com 100, 200 assessores, ainda possuem toda a tomada de decisão na mão dos fundadores.” Essa falta de profissionalismo, diz, faz com que os contratos de sociedade com novos assessores (partnership) não sejam colocados em prática. Ao longo do tempo, a consequência é uma maior ingerência e rotação na equipe.

A oportunidade de oferecer mais governança para os sócios foi um dos principais motivos para o desenvolvimento dessa estrutura na Blue3 Investimentos, segundo Leone Cabral, sócio-fundador e presidente do Conselho de Administração do escritório parceiro da XP. Foi inclusive após fechar o acordo com  a XP – que terá participação de 49,9% no negócio quando a Blue3 se tornar corretora -, que o escritório passou por uma reorganização e investiu na criação do Conselho. Nessa mesa de seis cadeiras, duas são reservadas para a XP.

“A gente sempre tentou ter um nível de governança elevado, pois temos sócios em partnership, o que exige muita transparência”, destaca Cabral. Desde 2017, a Blue conta com uma auditoria externa para avaliar processos financeiros e mostrar resultados para os sócios. “É uma preocupação com a perpetuidade da empresa, com seus processos sucessórios.”

Interesse no sócio investidor

Não são apenas os sócios do partnership que estão sendo levados em consideração para os assessores estruturarem conselhos. Outra justificativa é a possibilidade de sócios capitalistas nos escritórios.   Essa é uma das mudanças regulatórias no universo dos assessores de investimento que têm avançado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no último ano.

Para atrair os investidores, o nível de governança dos escritórios precisa ser elevado, destaca Medeiros, da AAWZ. “O principal ponto que o investidor vai olhar é como a empresa toma decisões. Ele precisa ter confiança nos sócios e saber que o dinheiro dele vai ser bem gerido”, diz. A governança servirá também para eventualmente o sócio externo participar das decisões da empresa em que está entrando.

“Todas as grandes empresas do mercado financeiro tiveram investimentos para alavancar sua estratégia. Quando o mercado procurar assessorias para investir, ele vai preferir as que têm mais governança, segurança jurídica, acordos bem definidos com sócios”, afirma Max Linder, CEO da Kona Capital. Eduardo Madanelo, sócio-fundador da Inove Investimentos – onde o conselho deve estar de pé até o fim do ano -, também diz mirar a possibilidade de entrada de investimentos externos.

Olhar de fora

A depender da estrutura do escritório, o conselho pode ter um formato mais simples ou complexo. Um ponto que Medeiros, da AAWZ, destaca é a importância de que o quadro tenha um número ímpar de integrantes. A governança de grandes empresas exige conselhos independentes, com número representativo ou até a maioria de membros externos. Como os escritórios de assessorias de investimento são menores,  ele não vê essa necessidade.

Ainda assim, a presença de conselheiros de fora é muito relevante, na avaliação do consultor. O presidente da AAWZ  afirma que esse executivo deve ser tanto alguém com conhecimentos específicos no setor para agregar experiência à empresa como também de outra atividade econômica, mas capaz de contribuir na estratégia da companhia. Um exemplo é um empresário relevante na região do escritório, que possa abrir portas e ajudar no relacionamento com potenciais clientes.

A Kona Capital instituiu no início deste ano seu Conselho de Administração, com sete membros – três deles externos. Um deles é o consultor especializado em assessorias de investimento Filipe Medeiros, e os outros são CEOs de outras companhias. Um é líder em um family office, e traz um complemento ao modelo de negócio da Kona, diz Max Linder. O outro comanda uma fintech com atuação na América Latina, escolhido por trazer uma visão da área tecnológica e de inovação.

Essa atração de executivos pode ou não vir acompanhada de um salário. Na Blue3 Investimentos, o valor negociado com conselheiros externos varia entre R$ 10 mil e R$ 20 mil, a depender de alguns fatores, como experiência de mercado. Já na Aplix Investimentos a remuneração não se dá com salário, mas com participação na sociedade. “São pessoas que querem ganhar com o crescimento da empresa e do negócio e, consequentemente, a valorização do equity”, afirma Felipe Romcy Araújo, sócio-fundador e presidente da Aplix.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast  Investimentos no dia 14/04/22, às 15h28.

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