Balanços do 2tri e reabertura podem trazer novo ajuste ao mercado de dívida externa

Balanços do 2tri e reabertura podem trazer novo ajuste ao mercado de dívida externa

Cynthia Decloedt

14 de junho de 2020 | 10h00

Passado o primeiro susto com o impacto econômico da disseminação do novo coronavírus no mundo, investidores do mercado de dívida externa, onde as empresas captam trilhões em recursos todos os anos, olham agora os balanços do segundo trimestre e os efeitos da reabertura de várias economias. A possibilidade de um novo choque no preço desses ativos, como aconteceu nos meses de março e abril, é baixa, no entanto, não elimina a possibilidade de um novo ajuste de preços, na opinião do executivo responsável por mercado de capitais de dívida internacional do Itaú BBA, Pedro Frade Rodrigues.

Segundo ele, a perspectiva de reabertura das economias desenvolvidas e algumas emergentes têm contribuído para a recuperação de preços no mercado de dívida. Paralelamente, os investidores conseguiram quantificar os gastos dos governos estão fazendo para sustentar suas economias e seus respectivos impactos fiscais. “Cada país tem sua singularidade e após dois meses, os investidores já tem um mapa de onde preferem estar mais expostos”, disse em conversa com o Broadcast.

Entretanto, os balanços do primeiro trimestre mostraram pouco do impacto da crise e o esperado é que os resultados do segundo trimestre tragam números bem mais afetados. “A dúvida é se as economias estão reabrindo antes da hora e essa resposta não virá este mês”, observa. Por isso, Frade acredita que o mercado está tendo o benefício da dúvida quanto ao que ainda mostrarão os balanços das empresas e quanto aos desdobramentos da reabertura.

Mesmo assim, o executivo afirma que os investidores têm atualmente a situação presente e as perspectivas futuras melhor mapeadas. “Todos os investidores estão acompanhando relatórios econômicos e buscando colher informações sobre as empresas para ajustar os preços antes de os balanços efetivamente serem divulgados”, diz. “Pode haver uma correção negativa ou até positiva, mas não da mesma magnitude vista”, acrescenta. O executivo aposta que o mais provável é que ajustes ocorram de forma pontual, a depender do setor, e não de modo generalizado como foi ao final de março, quando o mercado perdeu parâmetro de preços .

O Itaú BBA foi um dos bancos coordenadores das duas únicas emissões brasileiras de títulos de dívida (bonds) no exterior realizadas após o anúncio da pandemia, com as quais Tesouro e Petrobras captaram juntos US$ 6,75 bilhões, após atrair demanda de US$ 34 bilhões nas duas emissões, conforme informações de mercado.

O expressivo volume de ordens de compra não foi um fenômeno isolado ao Brasil. O banco liderou captações externas feitas pelos governos do Paraguai, Chile e Colômbia e, de acordo com Frade, com demandas semelhantes às atraídas pelo Brasil.

Segundo estatísticas do banco, em média, o total de ordens obtidas por emissores latino-americanos este ano superou em 5,4 vezes o volume captado, bem acima da média de 3,5 vezes do ano passado. Isso resultou na manutenção em praticamente no mesmo patamar no prêmio em relação aos preços praticados no mercado secundário, que ficou em 0,16% este ano, contra 0,14% em 2019. “Ainda que se argumente que os preços dos papéis no mercado secundário estão mais altos, há de se considerar que o cenário econômico hoje é totalmente outro”, pondera.

Somado ao fato de que o juro norte-americano caiu abruptamente, as empresas e os países captaram praticamente com o mesmo custo de antes da crise. O preço de um título de dívida é composto por prêmio mais a taxa de juro norte-americana de mesmo vencimento do bond que está sendo emitido.

A maior parte das emissões feitas até aqui no mercado de dívida de modo geral se concentra em papéis com grau de investimento, de acordo com Frade. A América Latina já captou metade dos US$ 120 bilhões emitidos no ano passado, sendo 85% dessas operações feitas por emissores com grau de investimento. No ano passado, esse porcentual era de 65%. Ele nota que a concentração nos melhores nomes, de menor risco, é o tradicional durante períodos de crise, mas que existe chance para empresas e países com classificações de risco abaixo do grau de investimento captarem.

“Com base na demanda vista nessa primeira fase, estou confiante de que o mercado está líquido o suficiente para que emissores com qualidade fora desse grupo também acessem o mercado”, diz. Mas observa que o mercado de dívida externa faz sentido nesse momento para empresas que busquem prazos mais longos e maiores volumes.

“Decisões sobre novas operações por parte das empresas começam a ser tomadas a partir de agora, da reabertura das economias e das informações que as companhias colherem sobre o impacto desse movimento em seus resultados”, explica.

Esta matéria foi publicada no Broadcast, serviço em tempo real do Grupo Estado, no dia 12/06, às 9h

Contato: cynthia.decloedt@estadao.com

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