Bancos batem à porta das empresas para propor ofertas de ações para fortalecer caixa

Bancos batem à porta das empresas para propor ofertas de ações para fortalecer caixa

Fernanda Guimarães

11 de maio de 2020 | 09h24

 

A pandemia de covid-19 abateu o mercado financeiro brasileiro em pleno voo de cruzeiro. As dezenas de emissões na fila para a Bolsa foram engavetadas e, no melhor cenário, a expectativa é de que fossem retomadas no fim do ano. O motivo, é claro, é a gigantesca aversão ao risco que tomou conta dos investidores. No entanto, oportunidades surgem. Como o mantra da crise é “cash is king”, os bancos de investimento têm levado a empresas que consideram atraentes a ideia de buscar dinheiro no mercado. Na manga, um argumento incontestável: as medidas dos bancos centrais para mitigar os efeitos da pandemia injetaram muita liquidez no mercado financeiro. Ou seja, haveria demanda por bons ativos.

“Nunca se sabe o dia de amanhã. Agora é hora de caixa e caixa alto. É uma precaução”, disse uma fonte, que tem conversado com as companhias levando essa proposta. A primeira que tentará emplacar uma oferta subsequente de ações (follow on) é a Via Varejo, que contratou Bradesco BBI, Banco do Brasil, Bank of America e XP para lançar uma oferta de nada menos do que R$ 5 bilhões. A expectativa é que o lançamento ocorra após a divulgação de resultados da companhia, na próxima semana. “Tem espaço para essa oferta, mas vai depender do preço. Tem liquidez no ‘buy side'”, disse uma fonte, próxima da operação.

Outra varejista que está com bancos contratados para a oferta é a Centauro, outra afetada com lojas fechadas por conta da pandemia. Estruturarão a oferta, de cerca de R$ 500 milhões, Itaú BBA, Bradesco BII, BTG Pactual e Santander.

Apesar da crise, algumas ações listadas na Bolsa brasileira, estão indo bem. No seleto grupo, estão as mais ligadas a setor de tecnologia e comércio eletrônico, que se destacaram em tempos de quarentena mandatória. Outras em evidência são as expostas ao mercado externo, beneficiadas pelo dólar cada dia mais próximo de R$ 6.

Nos últimos dias, líderes de empresas começaram a ver pipocar mensagens no WhatsApp: “Sua ação está subindo. Cash is king, vale reforçar o seu caixa”. Como resultado, algumas operações podem sair do papel.

Semana passada foi a vez da Marfrig ser procurada com muito afinco. Com valorização no ano de mais de 30%, banqueiros argumentaram que a empresa teria condições de levantar ainda mais caixa por meio de uma oferta de ações, para passar de forma ainda mais tranquila pelo período de pandemia. Como munição, foi usado à exaustão um relatório do Credit Suisse, que passou a cobrir o frigorífico, com recomendação de compra. Nele, a previsão é de um céu muito azul adiante: a Marfrig poderia ter, em 2020, o melhor ano de sua história.

Além do dólar elevado ajudar as exportadoras, a empresa pode se beneficiar do fechamento temporário de frigoríficos nos Estados Unidos e está bem posicionada no mercado chinês. Os bancos teriam argumentado a Marcos Molina, dono do negócio, que a Marfrig teria facilidade para fazer caixa, como forma de precaução, já que não se sabe quando o fim da crise vai chegar. Além disso, neste momento o mercado está líquido. A Marfrig rechaçou a ideia, dizendo que tem caixa. E encerrou as conversas.

Para provar a grande liquidez externa, o exemplo da Boeing tem sido utilizado nas conversas. A fabricante norte-americana de aviões, que acaba de rescindir acordo com a Embraer e vive uma situação financeira desafiadora, teve sucesso em levantar US$ 25 bilhões no mercado. Descartou, assim, ajuda do governo dos Estados Unidos. Uma fonte, contudo diz: “É muito diferente. Mercado americano é muito mais ‘profundo'”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: