Bancos brasileiros estão bem posicionados, mas peso de calotes se arrastará para 2021

Bancos brasileiros estão bem posicionados, mas peso de calotes se arrastará para 2021

Fernanda Guimarães e Cynthia Decloedt

20 de agosto de 2020 | 16h03

Perto de enfrentarem um dos maiores testes de estresse da última década, os bancos brasileiros estão melhores posicionados em termos de qualidade de ativos do que seus pares na Europa e Estados Unidos, que já preveem centenas de bilhões de dólares de perdas com crédito. Por aqui, a leitura é a de que as instituições entraram na crise com a “lição de casa” já feita nos últimos anos, apresentando um portfólio de crédito bastante diversificado, sem grandes concentrações e em boa parte atrelado a garantias. Ao mesmo tempo, com bilhões de reais já provisionados até o fim de junho, carregam um colchão suficiente para enfrentar níveis de inadimplência já previstos.

No entanto, os desafios podem aumentar a partir do quarto trimestre, quando cessarem os efeitos das milhares de rolagens de dívidas concedidas em meio à crise, o que tem potencial de produzir uma grande onda de inadimplência. Ou seja, a depender do tamanho dessa enxurrada de calotes, novas provisões podem ser necessárias, na opinião de especialistas. Dado o cenário ainda cheio de nebulosidade, as instituições brasileiras podem recuperar níveis precedentes à crise da covid-19 em termos de lucro e retorno somente em 2022, o que também deve ser visto lá fora.

“Temos a visão de que quando a pandemia se iniciou, os grandes bancos já estavam com a lição de casa feita, com diversificação do portfólio. Eles aumentaram exposição no varejo e diminuíram nas grandes empresas. No varejo o risco é mais alto, mas o spread é maior. E vimos ainda que no varejo, os bancos tiveram uma preferência por produtos com um nível maior de garantia e segurança, como o residencial e o consignado”, afirma o diretor sênior de instituições financeiras da Fitch Ratings para América Latina, Claudio Gallina, em entrevista ao Broadcast.

No segundo trimestre do ano, as provisões para devedores duvidosos (PDDs) de Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil somaram R$ 26,194 bilhões, ante R$ 28,384 bilhões de janeiro a março, segundo dados da Economatica. Em relação ao período de abril a junho de 2019, o PDD combinado dos quatro bancos praticamente dobrou.


Tabela: PDD trimestral R$ milhões – Consolidado (Bco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander – Fonte: Economática

Em abril, ainda em meio ao pico da crise da pandemia, um teste de estresse conduzido pelo Banco Central apontou que as instituições financeiras precisariam de R$ 70 bilhões para se enquadrarem nos limites de capital regulatório, em um cenário severo causado pela covid-19. O Banco Central notou, à época, que os resultados indicaram capacidade de absorção de perdas pelo sistema bancário em todos os cenários simulados, sem desenquadramento.

Como base de comparação, levantamento feito pela consultoria Oliver Wyman mostrou que os bancos europeus terão que enfrentar uma perda de crédito da ordem de 400 bilhões de euros com a crise, ao longo dos próximos três anos. Nesta terça-feira, o vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Luis de Guindos, alertou que os bancos da zona do euro não deverão se recuperar plenamente da atual crise antes de 2022, depois que se esgotarem as renegociações bilaterais e as tentativas de levantar caixa. Mudando de continente, nos Estados Unidos, o S&P Global Ratings apontou que mesmo com o aumento das provisões na metade do ano, deverá haver a necessidade de dobrar ou até mesmo triplicar os volumes, na eventualidade de aumento dos prejuízos causados com a pandemia.

“Na última crise, de 2008, os bancos estiveram no epicentro, mas hoje estão muito mais sólidos e fazendo parte da solução”, comenta a sócia da área de Bancos e Serviços Financeiros do Mattos Filho, Larissa Arruy.

O analista de bancos do Citi Brasil, Jörg Friedemann, considera difícil entender se as provisões feitas até aqui pelos grandes bancos foi suficiente para enfrentar o que pode ainda surgir em termos de inadimplência, e acredita que a necessidade de reforçar a proteção irá comprimir os resultados ao longo do próximo ano.

Friedemann chama atenção para o fato de que os índices de inadimplência, que ficaram abaixo do esperado, estão distorcidos pela permissão do Banco Central para que as dívidas que estão sendo prorrogadas não sejam contabilizadas como inadimplentes. Ele cita como exemplo o índice de atrasos acima de 90 dias do Itaú Unibanco no segundo trimestre, que recuou para 2,7%, contra expectativa do Citi de que ficaria em 3,4%. No primeiro trimestre, a inadimplência do Itaú Unibanco estava em 3,1%.

“Os bancos, de maneira conservadora, estão constituindo provisões antevendo que algumas dessas operações vão continuar tendo problemas à frente. Ao mesmo tempo, nos calls de resultado, os executivos têm dado a entender que a tendência é que os números caiam em relação ao primeiro semestre. Mas tenho dificuldade para entender se as provisões são suficientes, porque há dinâmicas que não permitem saber qual é o número real de inadimplência”, explica.

Para ele, os índices de inadimplência seguirão distorcidos no terceiro trimestre, citando uma perspectiva de os bancos acelerarem o volume de crédito levado a prejuízo. Friedemann diz que somente a partir do quarto trimestre os índices devem começar a representar melhor a realidade da qualidade de carteira, quando os efeitos dos programas de prorrogação de pagamentos de empréstimos expiram.

Nesse cenário, ao qual se somam ainda desafios relacionados a concorrência sobre outras linhas de receitas, o analista espera uma queda de cerca de 30% de lucro dos bancos acompanhados pela casa, e uma recuperação de 7% em 2021 a partir da base comprimida de resultado deste ano. “Os bancos não terão uma recuperação em V, tem uma esteira de provisionamento que vai bater em 2021, influenciando a recuperação da tendência de crescimento para essas instituições”, destacou.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 18/08/2020 às 18:55.

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