Bancos ficam com 86% em debêntures emitidas até abril, ou R$ 28 bilhões

Bancos ficam com 86% em debêntures emitidas até abril, ou R$ 28 bilhões

Cynthia Decloedt

19 de maio de 2020 | 12h12

Os bancos estão enchendo seus balanços com debêntures de empresas que têm acessado todos os bolsos possíveis para fazer caixa e atravessar esse período de profunda desaceleração da atividade econômica, causada pela pandemia do novo coronavírus.

Por seu lado, as instituições financeiras têm enxergado a concessão de crédito por meio das debêntures como um bom negócio. Além de receberem uma remuneração maior que a do ano passado – uma vez que a crise aumentou, para boas empresas, entre duas a quatro vezes o custo de captação por meio desse instrumento, em relação a 2019 -, poderão embolsar algum ganho na venda desses papéis no mercado secundário, quando os preços estiverem normalizados e a procura por debêntures tiver retornado.

Do total de R$ 32,47 bilhões de debêntures emitidas com esforços restritos de distribuição de janeiro a abril, 86,1% ou R$ 27,9 bilhões foram subscritas por intermediários e demais participantes ligados à oferta. Esse porcentual é 61,2% superior ao dos quatro primeiros meses do ano passado, quando os intermediários ficaram com 28,6% das debêntures emitidas sob o mesmo regime de distribuição.

Os fundos de investimentos, por sua vez, subscreveram apenas 9,2% das debêntures que foram lançadas no acumulado até abril deste ano, bem abaixo da participação de 64% entre janeiro e abril de 2019, quando o mercado de renda fixa corporativa estava a todo vapor. A queda da Selic atraiu fundos para as debêntures até o início do segundo semestre de 2019, quando os cortes na taxa se aprofundaram e o interesse por esses papéis caiu.

Alguns bancos já testam a venda no mercado secundário, por enquanto, somente de debêntures incentivadas, já que os preços mostram sinais mais claros de estabilização. Além disso, tem interesse nos papéis as pessoas físicas de alta renda, seu principal público.

Na semana passada, BTG Pactual, Itaú e Safra engavetaram uma emissão de R$ 800 milhões em debêntures incentivadas de dez anos da Rumo Logística. A remuneração paga pela empresa aos bancos na emissão da debênture foi de 6,80% e, no secundário, os papéis vendidos em torno de 5,40%. O BTG, que deu garantia de subscrição de 50% do total de R$ 800 milhões, vendeu 5% do que levou. O Itaú BBA, que deu garantia a 25% do montante da emissão, vendeu praticamente tudo no secundário, conforme apurou o Broadcast com fontes.

O comentário agora é que a Petrobras fará uma captação de R$ 3 bilhões de debêntures incentivadas para bancos, que buscarão compradores no mercado o secundário. O Itaú BBA, o BB Investimentos, Safra e Santander estão coordenando tal operação, que deve ser fechada esta semana. No ano passado, a Petrobras levantou R$ 3,6 bilhões com debêntures, em detrimento do mercado externo, já que as condições locais, dada a queda no juro, estavam mais favoráveis.

No mercado tradicional de debêntures, a demanda para novos papéis segue abalada pela turbulência gerada a partir da pandemia, já que os principais compradores – as assets e gestores independentes – ainda sofrem os efeitos dos resgates realizados por investidores dos fundos de crédito privado. Além do baixo interesse nas ofertas primárias, isso implica em preços de negociação no mercado secundário ainda pouco atrativos para que bancos desovem o que está sendo encarteirado. Ainda, citou uma fonte, muitas das emissões têm tido prazo curto, aumentando a inclinação das instituições financeiras a manterem os papéis até o vencimento.

Nem tanto assim

Algumas fontes ouvidas pelo Broadcast ponderam que, embora aparentemente fique a impressão que os bancos estejam puramente lucrando, o custo do dinheiro também subiu para eles.

Outros lembram que os preços das debêntures estão distorcidos desde o ano passado. No primeiro semestre de 2019, os cortes promovidos pelo Banco Central na Selic deixaram os custos de emissão tão atraentes para as empresas que muitas se voltaram a esse mercado para captar. Na outra ponta, estava o investidor, buscando rentabilizar seus investimentos, dada a compressão na Selic, que fomentou novas captações e a criação de novos fundos de crédito privado.

No segundo semestre, o quadro mudou, à medida que os contínuos cortes da Selic fizeram com que o crédito privado perdesse apelo, enquanto os investidores exigiam prêmios elevados à época, provocando recuo no ritmo das novas emissões.

Com a crise da covid-19, empresas com classificação de risco AAA, o mais elevado, chegaram a ser negociadas com prêmio de 4% a 5% somado ao CDI. Nas últimas semanas, as taxas para empresas de melhor classificação, ou seja, dentro da categoria A, caíram em média para 3%. Alguns players entendem que o “novo normal” será de empresas de melhor classificação de risco pagarem prêmio de 2%, enquanto o praticado no ano passado estava em torno de 1%, ou até abaixo disso.

Preparado

O Itaú tem sido uma casa bastante atuante no mercado de debêntures. Em 2019, estruturou uma mesa de negociações de títulos de crédito privado no secundário. No balanço do primeiro trimestre, mostrou um desembolso de R$ 2 bilhões em aquisições de papéis no secundário para ajudar a estabilizar os preços das debêntures, que ficaram sem parâmetro de preços.

Mas não esteve só. Todos os grandes bancos, que também são donos das maiores assets, entraram comprando papéis no mercado secundário, em meio à turbulência.

Esta matéria foi publicada ontem às 18h23 no Broadcast

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