Bancos ofereceram ficar com 10% da conta do crédito para financiar as folhas de pagamento

Bancos ofereceram ficar com 10% da conta do crédito para financiar as folhas de pagamento

Aline Bronzati

27 de março de 2020 | 09h14

Foto: Aline Bronzati/Estadão

Os bancos teriam proposto ao governo Bolsonaro arcar com 10% da conta do crédito para financiar as folhas de pagamento das pequenas e médias empresas em meio à crise gerada pela pandemia de coronavírus no Brasil, conforme revelou o Broadcast, um dia antes do anúncio da medida, divulgada na última sexta-feira, dia 27. O restante ficaria a cargo dos cofres públicos. Com negociações praticamente diárias, segundo três fontes próximas às negociações, a expectativa é de que o anúncio do socorro aos pequenos negócios, tido como urgente por conta dos estragos das medidas de isolamento para conter a pandemia no País, saia até a semana que vem.

 

A proposta dos bancos, incluindo players privados e públicos, é capitaneada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e é uma das que a equipe econômica tem em mãos. Uma fonte diz que essas instituições estariam dispostas a ficar com algo entre 10% e 20% do risco do financiamento das folhas de pagamento. Os próprios empresários, economistas e ainda outros players do mercado financeiro também têm apresentado soluções para socorrer as pequenas e médias empresas diante da crise.

 

Os bancos sugeriram que o governo pague a folha de pagamentos de pequenas e médias empresas por um período, que poderia ser nos próximos dois meses. Na prática, essas instituições atuariam como repassadores de recursos a esse público uma vez que detêm as folhas de pagamentos das empresas.

 

Embora os bancos tenham ofertado bancar, ao menos na largada, com 10% do risco dessa linha, de acordo com fontes ouvidas pelo Broadcast, essa parcela ainda está em negociação e pode mudar. “O porcentual ainda não está fechado. Estamos negociando”, diz um executivo de um grande banco, na condição de anonimato.

 

O restante do risco ficaria a cargo do governo decidir, se seria com o Tesouro Nacional ou o Banco Central. Outra discussão que ocorre diz respeito à fonte de recursos para financiar as folhas de pagamentos. Essa parte, acrescentam as fontes, também estaria a cargo do governo Bolsonaro.

 

Questionado sobre a linha em estudo para financiar as folhas de pagamentos das empresas, o presidente do Banco Central, Roberto Campos, disse hoje que essa função não compete à autoridade monetária. “Entendemos que é importante financiar folha de pagamentos num momento como este, mas essa não é a tarefa do BC”, disse ele, em coletiva de imprensa.

 

Para ajudar no combate ao Covid-19, o Banco Central anunciou ações que injetam R$ 1,2 trilhão em liquidez no sistema financeiro. Entretanto, especialistas alertam para o fato de que nessa crise o problema é endereçar o risco de crédito existente, já que empresas e pessoas físicas não terão oxigênio para honrar seus compromissos com os negócios paralisados.

 

O entendimento é de que, sem uma contrapartida do governo, os bancos privados não vão embarcar nessa. Assim, pode sobrar novamente para as instituições públicas atuarem na linha de frente. Ontem, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, disse, em entrevista ao Broadcast, vai manter as torneiras de crédito abertas para os clientes enfrentarem os impactos da pandemia de coronavírus, mas promete não “afrouxar” os critérios para a concessão de empréstimos como em crises passadas. Até agora, o banco já disponibilizou R$ 100 bilhões enquanto a Caixa Econômica Federal anunciou R$ 111 bilhões.

 

Em paralelo à discussão do financiamento das folhas de pagamentos de pequenas e médias empresas, outra discussão existente, conforme o executivo de um banco, é sobre um eventual subsídio de taxa para as esses grupos tomarem outras linhas de crédito junto aos bancos. Seriam modalidades comuns do dia a dia dessas empresas como, por exemplo, capital de giro para ajudá-las a atravessar o impacto nos negócios em meio à pandemia.

 

As pequenas e médias empresas, juntamente com as pessoas físicas, eram até outro dia o motor para o crescimento das carteiras de créditos dos bancos brasileiros. Com as medidas de isolamento e quarentena para combater a propagação do coronavírus, os negócios foram comprometidos e as torneiras de recursos se fecharam nos bancos, principalmente nos privados.

 

O impacto motivou, inclusive, uma carta por parte do setor de bares e restaurantes. Em documento enviado às instituições financeiras, destinada aos banqueiros, o segmento pede a ajuda dos bancos e do governo Bolsonaro para combater os estragos da pandemia no segmento, que emprega 6 milhões de pessoas no Brasil. Em uma lista de solicitações, reivindica crédito de longo prazo, acima de 48 ou 60 meses, 12 meses de carência para a primeira parcela e taxas de juros próximas à Selic, em 3,75% ao ano.

 

“Hoje não temos nada a comemorar. Estamos em terra arrasada. Despensas e câmaras frias vazias, funcionários em casa, portas fechadas. A penúria ronda nossa classe e nos coloca contra a parede. Estamos desesperados”, relatam os representantes do setor de bares e restaurantes, em carta aberta aos bancos.

 

Procurada, a Febraban não comentou.

 

A notícia acima foi publicada no Broadcast, no dia 26 de março, às 20:34:14.

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