BNDES sonda mercado para venda de ações

BNDES sonda mercado para venda de ações

Fernanda Guimarães

23 de junho de 2020 | 05h00

Depois do processo de venda de ações da carteira de renda variável do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ter sido interrompido abruptamente por conta da pandemia, bancos de investimento colocaram o time em campo para tatear o mercado sobre o apetite para as ações que compõe o portfólio do banco de fomento, como Suzano. O movimento ocorre exatamente em um momento em que o banco público se prepara para ter participações em aéreas, no âmbito dos pacotes de ajuda que vem sendo costurado para ajudar essas empresas a sobreviverem à crise.

A entrada do BNDES no capital da Azul, Gol e Latam será por meio de ofertas públicas de títulos de dívida, sendo parte em bônus conversíveis em ações, estrutura que abrirá espaço para o ingresso do banco de fomento em participações acionárias nas empresas. As condições do pacote de ajuda preveem que o BNDES fique com 60% do total, bancos privados 10% e o restante no mercado. A ajuda deverá chegar a R$ 2 bilhões para cada companhia. Segundo fontes, a capitalização poderá sair neste mês, mas existe grande chance de “escorregar” para julho. “O processo está evoluindo”, disse uma fonte. Uma das maiores dúvidas hoje é entender como será o apetite do mercado. O BNDES não possui, no momento, a participação em nenhuma companhia aérea.

As sondagens junto a investidores começaram na esteira da melhora dos preços dos ativos nas últimas semanas, puxados para cima com o início de medidas de flexibilização da quarentena e pela injeção de trilhões de dólares em liquidez por Bancos Centrais em todo o mundo.

Apetite pelo mercado de capitais está em alta

Até o momento, o BNDES não contratou nenhum banco para retomar tais vendas, mas a checagem do apetite do mercado mostra que a intenção é voltar a realizar desinvestimentos via mercado de capitais, assim que seja possível, ou seja, deverá ser em breve. O fato é que operações na bolsa já voltaram a ocorrer: semana passada a Centauro fez uma oferta de ações de R$ 900 milhões, com alta demanda entre investidores e na segunda-feira será a vez da Via Varejo, que poderá colocar mais de R$ 3 bilhões em seu caixa.

A crise causada pela pandemia da covid-19 pegou o BNDES no momento em que começava a vender ações de sua carteira de renda variável. No fim do ano passado, ela valia mais de R$ 100 bilhões. Em dezembro, a instituição saiu do capital da Marfrig. No início de fevereiro, vendeu suas ações com direito a voto na Petrobras, operação que levou ao caixa cerca de R$ 22 bilhões. Antes da crise abater os mercados, fechando de forma abrupta a janela para ofertas de ações em todo o mundo, o BNDES estava preparando a venda de sua polêmica participação na JBS. Com a venda, o banco embolsaria algo em torno de R$ 16 bilhões, considerando o preço da ação antes da pandemia.

Pelo tamanho da oferta da JBS, a operação deverá aguardar um momento de menor volatilidade do mercado, apurou o Broadcast. Outra venda que estava planejada ainda para este ano, mas que deve demorar um pouco mais, são as ações preferenciais na Petrobras – na oferta de janeiro o início do ano foram vendidas apenas as ordinárias, que são aquelas com direito a voto.

Ainda na carteira do BNDES há ações da Klabin, AES Tietê, Tupy e Copel, dentre diversas outras. No total, o BNDES possui em sua carteira quase 30 empresas de capital aberto. “Totalmente esperado que eles vendam o que puderem do portfólio”, disse uma fonte de um banco de investimento.

Para essas ofertas, dado o tamanho das participações – muito menor do que a na JBS, por exemplo, poderia ser feito via um leilões em bolsa de valores, o chamado block trade. No entanto, nos bastidores, a percepção é que, apesar desse formato ser muito mais célere, uma oferta pública provê mais transparência e é uma maneira, assim, de mitigar riscos de questionamentos.

Procurado, o BNDES não comentou sobre o tema

Contato: colunabroadcast@estadao.com

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