Brasil deve ser tornar 3º mercado da Saint-Gobain, diz CEO

Brasil deve ser tornar 3º mercado da Saint-Gobain, diz CEO

Gabriel Baldocchi

07 de fevereiro de 2022 | 15h30

Javier Gimeno, CEO para a América Latina da Saint-Gobain   Foto: Jean Chiscano

O espanhol Javier Gimeno assumiu em meados do ano passado a liderança da gigante francesa Saint-Gobain na América Latina. Sua chegada, após um período de 11 anos à frente da operação Ásia-Pacifico, não poderia vir em melhor hora. A subsidiária brasileira alcançou, no ano passado, faturamento recorde de R$ 15 bilhões. O crescimento de 40% em 2021 foi impulsionado pelos novos hábitos da pandemia, em especial a orientação de ficar em casa, o que levou muitas pessoas a despertar para a necessidade de reformas nas suas residências.

Para Gimeno, o olhar mais atento dos brasileiros ao imóvel próprio não é uma tendência passageira. É um “novo normal” no setor, que deve ajudar o Brasil a alcançar o posto de terceiro mercado dentro da gigante francesa. No mercado local, a empresa tem marcas como Telhanorte (varejo), Quartzolit e Brasilit, além de um parque fabril de 56 unidades e 79 lojas.

A multinacional está presente em 70 países e teve receitas de 33 bilhões de euros (cerca de R$ 200 bilhões) entre janeiro e setembro do ano passado. O Brasil é hoje o quinto maior mercado no grupo.

Em entrevista ao Olhar de Líder, programa de entrevistas do Broadcast, Gimeno conta como a empresa pretende alcançar o crescimento esperado nos próximos anos. Leia a seguir os principais trechos:

 

Broadcast – Como foi o convite para a operação do Brasil? Seu período na Ásia pode ajudar a liderar os negócios aqui?

Javier Gimeno – Eu trabalhei na Ásia durante 11 anos. Experimentamos um crescimento muito forte com melhoria da rentabilidade. Após 11 anos ali chegou o momento de trocar. A proposta que eu mais gostei foi vir para América Latina. Sou espanhol, então há uma proximidade cultural. Tenho convicção de que o Brasil e a América Latina ainda têm um potencial de crescimento enorme. Minha missão aqui é capturar todo esse potencial.

Broadcast – Hoje o Brasil ocupa que posição dentro do grupo?

Gimeno – O Brasil é muito importante na Saint-Gobain. A empresa chegou ao Brasil em 1937. Em termos de vendas, o Brasil ocupa a posição de número cinco. É o centro de gravidade na América Latina, com dois terços das vendas na região.

Broadcast – Dá para avançar algumas posições?

Gimeno – Estou convencido de que podemos avançar porque ainda existem muitos mercados nos quais não estamos presentes. Quando vejo a Saint-Gobain em quatro, cinco, seis anos, vejo o Brasil como número quatro, número três. Certamente não número um porque é o lugar da França (risos). Vamos continuar ganhando importância.

Broadcast – O senhor acabou adiando a entrevista porque pegou covid-19 agora no começo do ano. Há alguma lição a ser tirada para os negócios?

Gimeno – Tive muita sorte porque peguei a covid-19 quando havia tomado três vacinas. Tive um pouco de febre, bastante dor de garganta. Mas foi leve. A primeira lição foi a importância da vacina. A segunda lição é que mesmo se você faz tudo o necessário para ter um comportamento prudente, o risco existe.

Broadcast – Como foi o desempenho da Saint-Gobain na pandemia? Pode comentar 2021?

Gimeno – Pode parecer uma contradição, mas nesse tempo de crise, o desempenho da Saint-Gobain foi particularmente bom. Tivemos um desempenho espetacular em 2021. É verdade que estamos comparando com 2020, que foi um ano difícil também. Em 2021, tivemos ganho de 40%. E também uma melhoria significativa da rentabilidade. As oportunidades vieram do fato de que boa parte da população ficou em casa e compreenderam que precisavam melhorar de forma significativa a condição de conforto e de bem-estar nas suas casas.

Broadcast – Os 40% de avanço em faturamento significam o que em valores?

Gimeno – Pela primeira vez na história da Saint-Gobain no Brasil alcançamos vendas de R$ 15 bilhões. É um recorde histórico. Mas a ideia é que a história de crescimento tem que continuar.

Broadcast – Dá para crescer 40% novamente em 2022?

Gimeno – Não, 40% é muito. Para chegar a esse patamar só se fizéssemos aquisições significativas. Vamos fazer aquisições, mas de tamanho médio e pequeno. Nosso objetivo para 2022 é um crescimento de 15%. Poderia ser acelerado se as aquisições que estamos planejando tiverem êxito. Poderíamos chegar a 20%.

Broadcast – A tendência de cuidar mais das próprias casas durante a pandemia é passageira ou há algo que deve durar?

Gimeno – Tenho a convicção de que vai ficar. Existe agora uma conscientização maior com relação à saúde. Todos os elementos são os que oferecem soluções que alteram a vida das pessoas de forma importante. Vemos esse movimento das empresas também.

Broadcast – Sobre as aquisições, o que estão procurando?

Gimeno – Nossa lógica de aquisição tem duas perspectivas diferentes. Ou compramos participação de mercado ou compramos tecnologia, linhas de produtos onde a Saint-Gobain não tem posição consolidada. Não precisamos fazer grandes aquisições. Fazemos pequenas e médias. Neste ano, você vai ver que já assinamos uma aquisição de uma pequena empresa brasileira no setor de construções químicas. É muito complementar à nossa gama de produtos.

Broadcast – Qual é o nome da empresa?

Gimeno – Brasprefer.

Broadcast – Qual é o valor da transação?

Gimeno – Ficou alto. É uma boa empresa, se não, não compraríamos. Nesse tipo de transação o que conta é a perspectiva de crescimento. Pagamos alto, mas justo. Vamos gerar sinergias rapidamente.

Broadcast – No tema de aquisições, o senhor citou empresas regionais. Já veem algum nome?

Gimeno – Sim. Essa política é aplicável em toda região. Em 2021, compramos no México uma empresa por 50 milhões de euros. Fizemos aquisição no Peru.

Broadcast – Estava me referindo mais à Telhanorte e o varejo regional.

Gimeno – Estamos muito contentes com a nossa posição no varejo brasileiro. As operações melhoraram muito em rentabilidade e no modelo de negócios, que evoluiu para integrar a digitalização. Nossa estratégia agora não é fazer aquisições, mas de consolidar e desenvolver novas linhas de negócios, em particular o que estiver ligado ao digital. É uma tendência muito importante que se acelerou na pandemia.

Broadcast – Hoje o digital representa quanto das vendas da Saint-Gobain?

Gimeno – É muito pequeno, apenas 15%, mas há dois anos não representava nada. Em três, quatro anos, pode chegar à metade. Esse trem a Saint-Gobain não pode deixar passar. Precisamos ter uma posição de liderança e acelerar o processo.

Broadcast – O que vocês estão fazendo na área digital?

Gimeno – Temos desenvolvidos plataformas. Precisamos melhorar o conteúdo e o serviço logístico. O mercado do varejo no Brasil é muito capilarizado. Uma boa parte dos atores não tem uma cultura digital, mas isso está mudando muito rapidamente.

Broadcast – Qual é a perspectiva de investimentos para a região? Tem alguma nova fábrica por vir?

Gimeno – Somos um grupo industrial. O esforço de capital é alto. Temos 56 fábricas e outras vão chegar. Temos uma fábrica de gesso em construção para entrar em operação em 2023, temos duas novas linhas de fibrocimento e também uma linha nova de argamassas. Estamos investindo de forma importante. Outros projetos vão ser lançados ainda.

Broadcast – O que isso representa em termos de valores?

Gimeno – Vamos investir 100 milhões de euros por ano na região. O Brasil vai ter a parte mais importante. Poderia ser até mais de 100 milhões dependendo da qualidade dos projetos. Pode ser 130 milhões, 140 milhões de euros.

Broadcast – Muitas empresas enfrentaram problemas na cadeia de suprimentos na pandemia. Vocês sofrearam com isso?

Gimeno – Algumas tiveram sim. Principalmente no automotivo. Mas o modelo de fabricação da Saint-Gobain é um modelo local. Fabrico no Estado de São Paulo o que vou vender no Estado de São Paulo. Os produtos Saint-Gobain viajam mal, tem um custo logístico muito importante. O perímetro onde podem ser vendidos de forma competitiva fica muito pequeno.

Broadcast – O tema da cadeia de suprimentos ganhou importância. Vocês têm mais chance de barganhar recursos para construir fábricas locais?

Gimeno – Não preciso convencer meus chefes em Paris que as fábricas para o mercado brasileiro precisam ser assim. Nosso modelo de negócio está construído assim. Em relação à indústria, acho que há consenso de que há uma dependência excessiva em relação a alguns países. Vai haver um processo de relocalização. Fizemos uma estratégia industrial que sempre privilegiou a produção de proximidade.

Broadcast – E a inflação? Como estão lidando com o patamar elevado? Foi possível fazer repasses?

Gimeno – Provavelmente é a parte mais difícil de 2021 e 2022. A inflação ficou muito alta. Nossa responsabilidade é de tentar não passar tudo aos clientes, mas de absorver um pouco. A Saint-Gobain tem uma cultura industrial muito forte, com programas para reduzir ano a ano os custos. Fomos capazes de absorver uma parte importante, mas ficou tão alta que precisamos passar parte aos clientes e houve um aumento de preços significativos. Mas menos do que outros países e outros competidores.

Broadcast – Haverá necessidade de novos repasses?

Gimeno – O pior já está para trás. Temos dois, três, quatro meses em que a inflação vai ficar alta e depois maio junho, julho vai decrescer. Estou vendo esse processo em outros mercados que estão mais avançados. Durante a primeira parte do ano teremos que lidar com inflação.

Broadcast – 2022 é um ano eleitoral e tradicionalmente há mais incertezas. Como pretendem administrar isso?

Gimeno – Com respeito. O que os brasileiros decidirem, temos que respeitar. O Brasil é um país maduro. Não vejo que a política econômica vá mudar de forma extrema. Certamente se houver mudança de governo, vai mudar algo, mas os elementos fundamentais vão ficar. Estou muito confortável.

Broadcast – As políticas econômicas que estão colocadas na corrida eleitoral são diferentes.

Gimeno – Certamente. Mas acredito que não é algo que vá influenciar de forma dramática o desenvolvimento dos negócios.

Broadcast – Qual papel a região da América Latina pode ter no grupo nos próximos anos?

Gimeno – A ideia é que nossa presença e vendas vão dobrar nos próximos 5 anos. As vendas aqui são importantes. Estamos falando de 10% dentro do grupo. Mas a região é importante porque os mercados são dinâmicos. Podemos aprender muitas coisas que podem ser aplicadas em outros continentes.

 

Esta entrevista foi publicada no Broadcast no dia 04/02/22, às 15h12.

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