Brasil pode acessar mais de US$ 4 bi com banco dos Brics e o de fomento asiático

Brasil pode acessar mais de US$ 4 bi com banco dos Brics e o de fomento asiático

Cynthia Decloedt

28 de junho de 2020 | 05h09

O Brasil pode ter disponíveis mais de US$ 4 bilhões esse ano, parte deles para o combate à pandemia do novo coronavírus, com a chancela à criação de uma sede para o NDB, o Banco dos Brics, no País, obtida ontem na Câmara dos Deputados, e a ratificação do Brasil como um dos membros fundadores do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), na pauta da casa hoje. O cálculo é do vice-presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), Sergio Gusmão Suchodolski, que representa cerca de 30 instituições brasileiras de fomento, entre eles o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste, o Banco da Amazônia e o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), do qual Suchodolski é também presidente.

“Aprovados pelo Legislativo, os acordos dão sinal verde para a atração de novos recursos destes dois bancos multilaterais que, em parceria com os bancos e agências de fomento brasileiros, chegariam ao País sem pesar nas contas da União”, diz Suchodolski em conversa exclusiva com o Broadcast.

O Banco dos Brics, que já está em operação há cinco anos e aguardava autorização para ter aqui a sua sede, deve aprovar no próximo mês US$ 1 bilhão em recursos para o combate à covid-19, enquanto outros US$ 500 milhões já foram aprovados para projetos de infraestrutura este ano. O montante pode alcançar US$ 4 bilhões em 2020, de acordo com Suchodolski. “A autorização para a constituição de sua sede no Brasil abre a perspectiva de esses recursos aprovados serem desembolsados com maior celeridade, uma vez que facilita a análise dos projetos, que vinham sendo feitos a partir da sede em Xangai, na China”, explica. Com Rússia, China, Índia e África do Sul, além do Brasil, como países-membros, a instituição de fomento criada em 2014 tem capital integralizado de US$ 50 bilhões.

Mas é no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) que Suchodolski deposita grande expectativa, por ter uma estrutura parruda, com capital de US$ 100 bilhões, mais de 28 países-membros entre asiáticos, europeus e latino-americanos, e US$ 10 bilhões disponíveis para o enfrentamento do novo coronavírus. De acordo com Suchodolski, o AIIB encaminhou em abril uma carta ao Ministério da Economia, recomendando a ratificação do Brasil como país-membro e oferecendo recursos do programa de US$ 10 bilhões criado para enfrentamento do novo coronavírus.

“Efetivamente produz oportunidade muito grande porque o montante mínimo de recursos que são oferecidos nas linhas disponíveis de financiamento é muitas vezes superior ao da subscrição à cota que torna o Brasil um de seus membros”, explica. O Brasil pode subscrever 0,3% das ações do AIIB, o que envolveria US$ 1 milhão e a obrigação de contribuir com um teto de mais US$ 4 milhões, caso haja alguma chamada de capital.

Mas a instituição provê linhas de crédito que são múltiplos desse valor, girando em torno de um mínimo de US$ 100 milhões, dada a capacidade do AIIB de levantar recursos baratos no mercado de capitais. O AIIB, diz Suchodolski, tem classificação de risco AAA pelas três grandes agências de rating e consegue repassar recursos a um custo baixo aos países. Na América Latina, Equador e Uruguai já ratificaram o acordo, enquanto a Argentina está nesse processo.

Ele conta que o AIIB ofereceu entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões ao BDMG para seus programas de mitigação dos efeitos da crise nas regiões de sua atuação, que envolvem 17 Estados, entre os quais o de São Paulo, de maior concentração de infectados e mortos pelo covid-19 . Mas sem a ratificação, nenhum banco ou agência de fomento pode ter acesso a este dinheiro.

“São recursos que estão disponíveis ao Brasil e os quais viriam a complementar o acesso das instituições nacionais de fomento a um numero maior de organismos internacionais”, diz ele, lembrando que o País já tem acordos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), o Banco Mundial e agências de fomento da França e da Alemanha, entre outros.

Suchodolski ressalta que o Brasil está progressivamente utilizando formas mais eficientes de captação e repasse dos recursos de instituições estrangeiras de fomento, por exemplo, por meio de linhas estaduais e regionais que trazem eficiência ao processo. ?Além disso, trabalhamos sem garantia soberana, o que traz flexibilidade para a tomada de recursos, e nos aprofundando e diversificando nos instrumentos disponíveis?, observa.

Mesmo que os acordos para o ingresso do Brasil das duas instituições tenham sido firmados durante o governo petista, Suchodolski entende que obterão sanção do atual presidente, Jair Bolsonaro, que chegou ao cargo com uma bandeira de oposição ao Partido dos Trabalhadores. ?São compromissos de Estado, que se perpetuam independente da gestão política, são decisões de longo prazo?, afirma.

Nesse sentido, ele lembra que está prevista para o mês que vem a posse do atual secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, diretamente ligado ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para a presidência do NDB. ?É uma sinalização positiva do compromisso do Brasil com essa instituição”, diz.

Empoçamento

Suchodolski não vê empoçamento de recursos nos bancos e agências de fomento nacionais, embora exista esta percepção no mercado e entre as empresas de modo geral, envolvendo as iniciativas anunciadas pelo governo federal e pelos bancos comerciais. “Temos visto desembolsos relevantes e crescentes. As instituições estão bem posicionadas para dar esse alívio à crise”, assegura. Com programas voltados a reduzir o impacto da pandemia sobre a economia e prover sustentação à saúde, os bancos e agências de fomento disponibilizaram R$ 218 bilhões em crédito, de acordo com números da ABDE, que não tem, entretanto, visibilidade sobre quanto desse total chegou efetivamente à ponta.

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