Brasil se torna alternativa diversificada também no mercado internacional de ‘bonds’

Brasil se torna alternativa diversificada também no mercado internacional de ‘bonds’

Cynthia Decloedt

17 de fevereiro de 2021 | 16h00

 

Assim como tem acontecido na bolsa, empresas de setores diferentes daqueles que tradicionalmente acessam o mercado de dívida externa aproveitam a farta liquidez presente lá fora para se apresentar ao estrangeiro que investe em instrumentos de renda fixa corporativa. Além de nomes tradicionais e frequentes nesse mercado, como Marfrig e Klabin, chegaram nos últimos meses empresas do agronegócio, como Amaggi, ou de logística, como Simpar e sua subsidiária Movida, além da companhia de autopeças Tupy.

Isso favorece as operações brasileiras, à medida que o investidor estrangeiro enxerga oportunidade de diversificar setores em sua carteira de América Latina, observa o responsável por mercado de dívida do BTG Pactual, Sandy Severino. “Não existem na América Latina muitas companhias grandes o suficiente e com potencial de emitir bonds no exterior e isso faz com que o investidor sempre olhe para o Brasil, que já é o maior emissor desses títulos na região”, diz.

Normalmente, os principais emissores latinos de títulos de dívida (bonds, equivalente as debêntures) são de setores como óleo e gás, mineração e outros relacionados a commodities. No ano passado, as Lojas Americanas e a B2W atraíram grande demanda para sua estreia no mercado externo de bonds, e junto a um público que habitualmente recebe com cuidado os entrantes. Um dos fatores que contribuiu para o desempenho favorável da operação foi justamente a ausência de empresas de varejo latinas nesse mercado, onde uma das únicas representantes era a chilena Cencosud.

Em janeiro, estrearam no mercado de dívida externa a Amaggi, como uma emissão de bonds de US$ 750 milhões, a Simpar e a Movida, cada uma captando US$ 500 milhões. Mas o interesse em diversificar setores, aliado, é claro, à plena liquidez, ajudou também no retorno de empresas que não iam ao mercado de dívida externa há bastante tempo, como a Tupy Autopeças e o banco Banrisul.

O responsável por dívida externa do Itaú BBA, Pedro Frade, considera que o volume de ordens que as operações brasileiras atraíram foi “fortíssimo” e deve ser mantido nas operações que vierem a ser colocadas por emissores brasileiros nos próximos meses. Segundo ele, a demanda média foi de 2,5 vezes, mas houve casos como o da emissão de US$ 375 milhões da Tupy Autopeças, que trouxe para os livros de ordens uma demanda 11 vezes maior que a oferta.

Sem crise

O apetite dos investidores estrangeiros pelos títulos de dívida (bonds) emitidos pelo Brasil no exterior está aquecido, mesmo depois de um janeiro considerado bastante intenso em termos de números de ofertas. A plena liquidez e a necessidade de remunerar melhor os recursos seguem mantendo em segundo plano as incertezas locais, de acordo com especialistas ouvidos pelo Broadcast. O ritmo e a eficiência da vacinação no mundo ocupam no momento as atenções dos estrangeiros, enquanto o movimento do juro norte-americano, que continua ainda bastante comprimido e baliza o apetite do mercado para emissores emergentes, vem em segundo plano.

O número de ofertas, que chegou a 14 nos primeiros meses do ano, envolvendo perto de US$ 8 bilhões, tende, de qualquer forma, a diminuir, já que janeiro é normalmente a maior janela do ano. Alguns especialistas citam algo como US$ 5 bilhões em novas operações de bonds a partir do final deste mês, envolvendo emissões de estreantes. No ano, o mercado acredita que o volume de captações feitas com bonds fique em torno do levantado no ano passado, quando empresas e o Tesouro captaram mais de US$ 27 bilhões.

“Não há sinal até o momento de esgotamento nas alocações em Brasil e o fluxo dos fundos para o mercado de bonds está elevado”, comenta Frade. De acordo com ele, discussões mais específicas relacionadas à agenda de reformas ou outras discussões internas do Brasil devem entrar no radar dos investidores somente quando as cincertezas com a covid-19 deixarem de ser a principal variável de atenção.

Frade cita que, paralelamente, do ponto de vista das empresas existe uma agenda de vencimentos importante, o que, atrelado ao fato de que as taxas nominais nos Estados Unidos seguem muito baixas, fomenta a perspectiva de que as empresas sigam aproveitando esse mercado para melhorar a qualidade de seus passivos. Além disso, ele destaca que a melhora das taxas no mercado secundário de bonds está favorecendo o exercício de opção de recompra de emissões feitas no passado e que deixaram de refletir o risco de crédito real da companhia.

Este ano estão previstos vencimentos de R$ 13 bilhões em bonds, sendo que a maior parte, ou US$ 8,2 bilhões, concentrados no primeiro trimestre. Frade aposta que as emissões brasileiras ficarão em 2021 em torno da média dos últimos anos, de US$ 25 bilhões.

“O pacote de ajuda dos Estados Unidos dá tranquilidade aos investidores e o juro norte-americano está em níveis baixos, facilmente a nova safra de emissões será de pelo menos US$ 5 bilhões”, estima o responsável pelo mercado de dívida do Bradesco BBI, Philip Searson. Para ele, as operações feitas por novas empresas seguirão sendo uma tendência.

Severino, do BTG Pactual, destaca ainda que muitas companhias estão olhando para 2022, com a perspectiva de um mundo mais normalizado em termos de produção, o que tende a fazer com que o volume de operações este ano seja melhor do que no ano passado. “O mundo ainda não está equilibrado e a vacinação está em ritmo mais lento do que se esperava, mas vemos um bom momento no futuro.”

Contato: cynthia.decloedt@estadao.com

Tudo o que sabemos sobre:

bonds

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.