Brasil vai na contramão climática e fica mais longe de US$ 20 tri

Brasil vai na contramão climática e fica mais longe de US$ 20 tri

Fernanda Guimarães e Altamiro Silva Júnior

26 de junho de 2020 | 05h00

Foto: Gabriela Bilo/Estadão

O Brasil caminha na contramão da agenda ambiental internacional e poderá sofrer um prejuízo incalculável em sua economia, em um momento em que todo o mundo recebe uma injeção de liquidez sem precedentes. Além das notórias perdas para o meio ambiente, temática que ganhou ainda mais urgência em todo o mundo em meio à pandemia, as empresas brasileiras podem perder acesso a mais de US$ 20 trilhões que estão nas carteiras de fundos que têm investimentos com o olhar em algum critério ambiental, social ou de governança (ESGs, na sigla em inglês), conforme dados coletados pelo Broadcast.

Um gestor em Londres, que administra uma carteira voltada para mercados emergentes, destaca que a questão da sustentabilidade e mudanças climáticas vem dominando a agenda de conversas no setor de investimento, mas o Brasil está se distanciando deste debate e corre dois riscos imediatos: perder capital de fundos comprometidos com estas práticas e não atrair mais recursos de gestoras com estas preocupações. Cada vez mais, observa este gestor, decisões de investimento e alocação de capital levarão em conta critérios ambientais e sustentáveis.

A ameaça de saída de investidores do Brasil começou no ano passado, momento em que as queimadas na Amazônia sofreram uma escalada, com a crise sendo mitigada pelo governo de Jair Bolsonaro, que recebeu, na época, críticas de líderes de grandes potências mundiais, como a França. O assunto apenas cresceu desde então e Bolsonaro, nesta semana, admitiu que a imagem do Brasil em relação ao comprometimento com o meio ambiente “não está boa” no exterior, mas disse que isso ocorria por “desinformação”, ignorando dados recentes sobre a continuidade do desmatamento no País. Com isso, outros gestores, que diante da grande liquidez nos mercados começaram a buscar novos investimentos em todo o globo, começam a tirar o Brasil do mapa do investimento. “As questões ambientais recentes no Brasil são uma fonte crescente de preocupação”, afirma a gestora holandesa Robeco.

Embora ainda seja uma parcela pequena do universo mundial do setor de fundos, o patrimônio das carteiras dedicadas especificamente ao ESG triplicou desde 2015, para US$ 1 trilhão, de acordo com dados do Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 450 maiores bancos do mundo, com sede em Washington. A expansão tem sido concentrada na Europa e nos Estados Unidos. Em tempos de juros zero ou negativos, como estas carteiras vem conseguindo mostrar retornos melhores que outros tipos de aplicação, a tendência é que a expansão prossiga em ritmo acelerado, ressalta o relatório. Gigantes como a BlackRock e a Pimco lançaram carteiras com este perfil nos últimos anos. Mais de metade dos US$ 20 trilhões dos recursos que demandam o cumprimento de algum critério ESG vem de gestoras dos Estados Unidos, com US$ 12 trilhões, de acordo com o Fórum para Investimentos Sustentáveis e Responsáveis dos Estados Unidos (USSIF).

Mesmo com o forte estresse causado pela pandemia no mercado acionário e de dívida, sobretudo no início, em fevereiro e março, o estudo do IIF constatou que 85% destas carteiras tiveram desempenho melhor que fundos tradicionais. No caso dos fundos de ações, chegou a ser de 8 pontos porcentuais a mais. Na renda fixa, 80% tiveram desempenho melhor que seus pares tradicionais neste segundo trimestre. “O desempenho relativo de ativos sustentáveis foi notável este ano”, destaca o IIF.

Mas não são apenas fundos sustentáveis que estão em expansão, universo que o Brasil corre o risco de ficar de fora. O estudo do IIF mostra que tem sido crescente entre os investidores a demanda por dívida de empresas com compromissos sustentáveis. Apenas este ano, as emissões de bonds sustentáveis e/ou empréstimos com este perfil superou US$ 200 bilhões.

Fabio Alperowitch, sócio-fundador e gestor da Fama Investimentos, gestora que seleciona empresas para sua carteira utilizando critérios ESG, uma das pioneiras no Brasil, afirma que, no País, ao contrário de todo o mundo, ainda se tinha questionamentos sobre a existência de mudanças climáticas e a pandemia trouxe “luz” à ciência, ajudando, como consequência, a questão ambiental. “A mudança climática é muito mais devastadora do que a covid e não tem cura ou vacina”, disse em Live organizada pela Genial Investimentos.

“É com profunda preocupação que acompanhamos a tendência de aumento do desmatamento no Brasil”, afirma logo no início uma carta enviada esta semana por 30 gestoras europeias, que administram quase US$ 4 trilhões, a embaixadas do Brasil. Os gestores pedem uma audiência com o governo brasileiro. “Instamos o governo do Brasil a demonstrar compromisso claro com a eliminação do desmatamento.” A carta é assinada por nomes como o grupo finlandês Nordea Asset Management, o holandês Robeco, a britânica Legal & General Investment Management (LGIM) e a norueguesa Storebrand Asset Management. O texto vem menos de um mês depois de o fundo soberano da Noruega, o maior do mundo, excluir a Vale de sua carteira de investimentos por violar boas práticas ambientais.

O chefe no Brasil da Principles for Responsible Investment (PRI, em português, Princípios para Investimento Sustentável), Marcelo Seraphim, destaca que o Brasil vem enfrentando entraves no movimento de sustentabilidade, principalmente por conta da agenda governamental, que, segundo ele, está desalinhada com o que o mercado pensa sobre essas questões. “Mas com a força dos investidores conseguimos alterar, inclusive, como o governo vem tratando essas questões para conseguimos evoluir em política de sustentabilidade”. Mesmo com essa postura do governo, o número de signatários no Brasil do PRI cresceu 30% neste ano, comenta Seraphim, em “live” da Genial.

Esse é o novo normal

No começo deste ano, em uma das cartas de gestoras mais aguardadas no mercado mundial, o presidente da BlackRock, Larry Fink, não decepcionou as expectativas e colocou a questão climática como o ponto cerne dos investimentos no mercado atual e disse que o mundo vive uma “mudança estrutural nas finanças”. “Estas questões estão conduzindo uma reavaliação profunda do risco e do valor dos ativos. E como os mercados de capitais projetam riscos futuros, veremos mudanças na alocação de capital acontecerem mais rapidamente do que as mudanças no clima. Num futuro próximo – e mais cedo do que muitos preveem – haverá uma realocação significativa de capital”, diz o chefe da maior gestora do mundo, com US$ 6,96 trilhões sob gestão.

“Questões de sustentabilidade deixaram de ser um diferencial competitivo para ser condição para competir, isso está dado”, afirma a presidente do Conselho Consultivo da Global Reporting Initiative (GRI Brasil) e vice-presidente do Conselho Técnico-Consultivo do Carbon Disclosure Project (CDP), Sonia Favaretto.

A matéria acima foi originalmente publicada no Broadcast, em 25/06/2020, às 14:00:23

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