Gestores de fundos veem oportunidades e reabrem captações após onda de resgates

Gestores de fundos veem oportunidades e reabrem captações após onda de resgates

Karla Spotorno

28 de janeiro de 2022 | 05h15

Ano de volatilidade exige reflexão das assessorias de investimento  Foto: Fabio Motta/Estadão

O ano começou movimentado entre gestoras de fundos atentas a oportunidades nos mercados, com apetite para montar posições e, em alguns casos, também com vontade de recuperar parte do que perderam em 2021 com resgates. Além da Dynamo e da Verde, outras gestoras estão se mexendo para captar novos recursos.

Uma delas é a Genoa Capital. A empresa, que tem quase R$ 8,4 bilhões sob gestão, planeja captar algo entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão no fundo principal, o multimercado Radar. O diretor de operações e sócio-fundador da Genoa, Rodrigo Noel, conta que a reabertura faz parte da estratégia de manter o fundo disponível nos canais de distribuição, mas que respeita uma diretriz dos sócios: crescer gradualmente e não deixar o patrimônio inchar muito. “Sempre nos preocupamos em não deixar o fundo ficar muito grande nem crescer rapidamente”, diz Noel, que, junto com os sócios, se surpreendeu na estreia, há um ano e meio, com uma captação de R$ 7 bilhões em apenas dois meses.

Fundo de previdência no forno

O Genoa Radar está aberto para reservas em algumas plataformas de investimento, mas a aplicação propriamente será no dia 21 de fevereiro. Diferentemente de outros multimercados, o Radar não teve saída líquida de recursos. Fechou o ano com saldo positivo de R$ 446,7 milhões. Uma parte desse valor entrou na reabertura do fundo feita neste primeiro semestre.

Noel relata que, apesar de a estratégia do Genoa Radar e de a atual estrutura de equipe permitirem que o fundo chegue aos R$ 12 bilhões, a ideia é parar perto dos R$ 9 bilhões. Isso porque a gestora “tem no forno” a criação de um fundo de previdência sob a mesma estratégia de investimentos do Radar. “Por isso, preciso preservar parte do meu ‘capacity’ para o fundo de previdência”, diz o sócio da Genoa

Motivação

Um motivo importante para as gestoras abrirem para captação é o fato de alguns segmentos da indústria de fundos – como é o caso de multimercados – terem sofrido muitos resgates. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o segmento perdeu alguns bilhões no segundo semestre. O saldo entre captações e resgates entre julho e dezembro ficou negativo em R$ 31,5 bilhões. No ano, o saldo ficou positivo em R$ 59,6 bilhões pela entrada líquida de recursos nos primeiros seis meses, quando a Selic ainda era de um dígito e a austeridade da política monetária no Brasil não era nem de perto o que se vê hoje.

Repor as perdas, contudo, não é a principal motivação dos gestores que estão reabrindo para captação, na avaliação de Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo e responsável por alocação e produtos. “O principal fator para uma gestora captar é o fato de o gestor estar vendo oportunidades no mercado. Não faz sentido o fundo receber recursos e o gestor deixar parado no CDI”, diz Franchini. “Na renda fixa, vemos muita operação pagando 12% a 13%. Na Bolsa, o preço de muitas ações caiu bastante também”, exemplifica.

Outro fundo que reabriu em janeiro para captação é o ARX Macro. O diferencial desse multimercado, como pontua Franchini, é o prazo de resgate: D+0. Segundo comunicado da gestora, o fundo ficará aberto até 28 de fevereiro ou quando chegar a R$ 1,2 bilhão, o que acontecer primeiro. Hoje, o fundo está com R$ 979,2 milhões de patrimônio líquido, segundo o site da gestora. Nos últimos 12 meses, o retorno foi de 10,02%, enquanto o CDI rendeu 4,89%. Apesar de esse fundo estar fechado, a estratégia macro da ARX sempre esteve aberta, segundo a gestora. O ARX Macro 15 tem a mesma estratégia e nunca fechou. A diferença desse para o fundo que a gestora reabriu é o prazo de resgate, que são 15 dias.

Volatilidade

Em um ano eleitoral que promete muita volatilidade, a atual conjuntura do mercado de ações e dos fundos de renda variável exige uma reflexão das assessorias de investimento. O que pode parecer um sinal de euforia do gestor com as condições da Bolsa pode ser, na verdade, falta de ativos líquidos no fundo. Muitos fundos de ações estão com caixa zerado mais por uma questão circunstancial do que por uma visão sobre os preços e perspectivas das empresas de capital aberto no Brasil. Isso acontece, como pontua Franchini, da Monte Bravo, pelo fato de muitos fundos terem sofrido resgates grandes no ano passado.

Como mostram os números da Anbima, os fundos de ações sofreram bastante nos últimos seis meses. O saldo ficou negativo em R$ 3,6 bilhões nos últimos seis meses. Por pouco, não zeram o saldo no ano. Nos 12 meses de 2021, houve ingresso líquido de R$ 201,7 milhões.

Abertos na XP

Para clientes da XP, dois fundos – um quanti com 10 anos de histórico e um multimercado com mais de 16 anos – também reabriram para captação neste mês. Mas a reabertura desses dois fundos aconteceu por uma questão muito particular do universo XP. Tanto o fundo quantitativo Zarathustra, da Giant Steps, quando o multimercado Absoluto, da GAP Asset, estavam fechados na plataforma porque a empresa oferecia “espelhos”. Um fundo espelho reproduz exatamente o que o original faz mas numa outra estrutura e CNPJ que, na XP, ganha o sobrenome de Advisory. Segundo a Giant, o Zarathustra “original” reabriu para captação em março de 2020 para o mercado geral e nunca fechou. Na XP, reabriu na semana passada.

“O fundo GAP Absoluto nunca fechou [para o mercado em geral] desde dezembro de 2005”, afirma Lia Liserra, sócia da GAP e responsável pela área de Relações com Investidores (RI) da gestora carioca. Mas na XP, quando foi criado o GAP Absoluto Advisory, foi fechado para captação o GAP Absoluto “original”.

“Para eles não terem o mesmo fundo ‘duplicado’ na prateleira, eles fecharam o antigo para captação. Mas como o novo não pode mostrar a rentabilidade [pelo fato de ter menos de seis meses], a entrada de recursos caiu muito nos últimos meses”, diz Liserra. Ontem (27/01), a página no site da XP sobre o fundo ainda informava “Por questões regulatórias, fundos com menos de 6 meses de histórico não podem ter a rentabilidade exibida”.

Assim, quando percebeu a queda na captação pela plataforma, a GAP solicitou para a XP reabrir o fundo “antigo” para captação. “Então, nunca fechamos o fundo para captação. Mas na XP aconteceu essa reabertura sem prazo para fechar por conta dessa situação com o fundo novo”, afirma a sócia da GAP.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast Investimentos  no dia 27/01/22, às 16h39.

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