Cielo vende R$ 700 mi em ativos e quer se desfazer de negócio nos EUA

Cielo vende R$ 700 mi em ativos e quer se desfazer de negócio nos EUA

Aline Bronzati

15 de agosto de 2021 | 05h00

A Cielo, que pertence ao Bradesco e ao Banco do Brasil, vendeu quase R$ 700 milhões em ativos em menos de um ano, em um movimento para dar prioridade em seu negócio principal, o de pagamentos. Por trás do movimento, está a estratégia de contra-atacar a concorrência nas maquininhas e meios de pagamentos, que disparou nos últimos anos no Brasil. Foram vendidos três negócios: a Orizon (que atua no segmento de saúde), uma plataforma de transações para a bandeira Elo e a empresa de meios de pagamento M4U, anunciada na sexta-feira. Agora, a companhia pode se desfazer de um negócio no exterior, segundo fontes de mercado, que pedem o anonimato.

Trata-se da americana Merchant e-Solutions (MeS), adquirida em 2012. À época, a Cielo desembolsou US$ 670 milhões pela empresa – e fez sua estreia nos Estados Unidos. De lá para cá, a visão para o investimento mudou. Com a troca de comando, o desinvestimento chegou a ser cogitado. Depois, houve uma tentativa de reforço na subsidiária, em um avanço ao mercado norte-americano, enquanto no Brasil a guerra das maquininhas dava o tom.

O atual presidente da Cielo, Gustavo Sousa, sinalizou, em recente conversa com analistas e investidores, que sua gestão está aberta a “analisar decisões mais estratégicas”, depois de um trabalho de turnaround, ou seja, de recuperação das métricas operacionais e financeiras. “Esse processo agora está maduro… Entendemos que a atenção da Cielo tem de ficar em seu core de adquirência no Brasil”, disse ele.

No mercado, comenta-se que a venda da MeS começou na administração passada, sob a liderança de Paulo Caffarelli. O executivo, que renunciou à presidência da Cielo em maio, foi quem deu o pontapé nos desinvestimentos, no fim do ano passado, com a venda da Orizon. No caso da MeS, já haveria banco com mandato para encontrar interessados, e tratativas com potenciais compradores, de acordo com fontes.

M4U foi vendida para a Bemobi

Caso a Cielo avance na venda da empresa norte-americana, poderá ser seu maior desinvestimento até o momento. Líder do setor de maquininhas no País, a companhia anunciou na sexta-feira a venda da M4U pelo valor de até R$ 185 milhões para a Bemobi, especializada em serviços digitais móveis. Foi primeira aquisição da empresa, conhecida como a “Netflix dos apps e games”, desde que captou mais de R$ 1 bilhão na B3, em fevereiro.

Para os analistas Gabriel Gusan, Jörg Friedemann e Karina Salva Martins, do Citi, o desinvestimento de ativos não estratégicos por parte da Cielo é um movimento positivo à medida que fortalece o caixa. Não demonstram tanto ânimo, porém, com o preço pago pela M4U. “O valor da operação parece inexpressivo se comparado ao que a Cielo pagou por ela ao longo do tempo”, dizem, em relatório ao mercado.

A Cielo desembolsou R$ 50 milhões por uma participação de 50% na M4U, em 2010. Seis anos mais tarde, comprou mais 41%, por R$ 80 milhões. Por fim, desembolsou outros R$ 30 milhões pelos 9% restantes na empresa, no ano passado. “Mantemos nossa visão conservadora sobre a capacidade da Cielo de se reinventar em um mercado super competitivo”, escreveram os especialistas do Citi.

Para o analista de renda variável da Frontier Capital, Alexandre Cancherini, o negócio da M4U é “pequeno”, mas o recado, com o movimento, é relevante. “É a sinalização de uma empresa olhando mais para o seu core business, e que tem de fazer isso nesse processo de focar nas suas operações para se reinventar em um cenário cada vez mais competitivo”, diz, em entrevista ao Broadcast. “Agora, o próximo ativo que faz sentido anunciar é a (venda da) MeS.”

Reestruturação

Os recursos levantados com a venda da M4U, de até R$ 185 milhões, serão utilizados pela Cielo para reforçar os chamados produtos de prazo, com destaque, para a antecipação de recebíveis, conforme a revelou mais cedo o Broadcast. O raciocínio é que, ao antecipar uma receita futura aos lojistas, retém o cliente e garante margens futuras.

Nos últimos anos, a Cielo esteve mergulhada em um processo de reestruturação, que foi sucumbido pela pandemia do novo coronavírus. Enquanto tentou se reerguer do ataque de entrantes no mercado brasileiro, priorizou o varejo, cujas margens são melhores, e reforçou o time comercial. Para ir além das maquininhas, por conta da revolução tecnológica em curso, incluiu mais produtos de crédito, serviços e soluções de pagamento, e reforçou seu braço comercial, enquanto, na outra ponta, passou a tesoura nos gastos e listou desinvestimentos.

Procurada, a Cielo não se manifestou. “A operação faz parte da estratégia de crescente concentração da Companhia em suas competências centrais e teve seus termos e condições aprovados pelo Conselho de Administração”, disse, em comunicado ao mercado sobre a venda da M4U. Bradesco BBI e Lefosse foram os assessoras da operação por parte da Cielo. A Vinci Partners e o Pinheiro Guimarães atuaram pela Bemobi.

Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 13/08/21 às 16h23.

O Broadcast+ é a plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.

Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse 

Contato: colunabroadcast@estadao.com

Tudo o que sabemos sobre:

cielom4ueuadesinvestimentobemobi

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.