Com captações limitadas, novo DPGE pode irrigar bancos menores que temem inadimplência

Com captações limitadas, novo DPGE pode irrigar bancos menores que temem inadimplência

Cynthia Decloedt

27 de abril de 2020 | 14h45

A permissão anunciada na semana passada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para que os grandes bancos adquiram Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs) de instituições menores chega em boa hora. No momento, não há qualquer sinalização de dificuldades graves ou de crise sistêmica junto a esse grupo de bancos. Mas, ao contrário das cinco maiores instituições do País, os menores têm capacidade de captação limitada aos certificados de depósitos bancários (CDBs), em um momento em que as perspectivas não mensuráveis de inadimplência são uma grande preocupação. De acordo com participantes do mercado que preferem não se identificar, uma boa parte das instituições carrega apostas de que a crise pode durar muito mais do que se fala publicamente.

Até aqui, os bancos médios têm usado o quanto podem as plataformas de terceiros e suas próprias para levantar recursos por meio de Certificado de Depósito Bancário (CDB), que majoritariamente é comprado por pessoas físicas. A opção de captar via letras financeiras é restrita a um grupo seleto de médios, e, de modo geral, esse mercado está fechado, já que as assets, gestoras independentes e outros investidores institucionais têm pedido prêmios muito altos para comprar esses papéis.

Também para os DPGES as gestoras, seu público alvo, vinham pedindo prêmios superiores aos CDBs, sufocando esse canal de captação dos menores. O alto prêmio exigido pelas assets está mais relacionado, por enquanto, à falta de dinheiro do que ao temor de quebra das instituições financeiras. Afinal, as gestoras de fundos estiveram muito pressionadas pelos resgates vultosos ocorridos desde o início da crise.

Agora, com a possibilidade de os grandes adquirirem os DPGES de bancos menores, a expectativa é de maior irrigação desse canal. Além disso, fontes explicam que a compra desses papéis pelas instituições maiores era uma demanda antiga e que já se viu necessária na crise anterior pela qual os bancos de médio porte passaram.

Salto. De acordo com fontes consultadas, gestores têm pedido retorno de 130% do CDI para comprar DPGEs de um ano. Além disso, não é um dos papéis que preferem ter em suas carteiras. As captações por meio de CDBs dos bancos médios, junto as pessoas físicas, têm rodado em torno do mesmo porcentual. Entretanto, além de haver melhor aceitação do que os DPGES, para emissão desse instrumento é exigido das instituições um aumento na contribuição junto ao Fundo Garantidor de Crédito, que cobre perdas de investidores, até um limite de R$ 250 mil por CPF, aos investidores em caso de quebra do banco. Esse pedágio é equivalente a 0,03% ao mês do saldo que a instituição tem emitido de DPGE. Os CDBs também possuem cobertura do FGC.

Com as concessões de novos empréstimos praticamente congeladas, os médios enfrentam dificuldades também para se financiarem por essa via, além de sofrerem pressão nas receitas. Por outro lado, olham para os créditos concedidos buscando entender para onde deve caminhar a inadimplência e entrando fundo na cobrança, também sob a perspectiva de melhorar caixa.

“Temos acompanhado bem de perto os bancos e, de modo geral, todos têm feito campanhas intensas de cobrança com desconto de pagamento antecipado, para trazer caixa o quanto antes e acessar os recursos dos devedores o quanto antes”, observou a analista de bancos da XP, Camilla Dolle.

Mirian Abe, também analista de bancos da XP, acrescenta que para os médios, ainda que as captações tenham ficado mais caras, trata-se de um seguro. “No patamar para o qual caiu a Selic, o aumento visto no custo total é pequeno”, afirmou lembrando que, normalmente, os bancos médios acessam o mercado com prêmios mais elevados do que os grandes. “O incremento é marginal perto da segurança que esse caixa proporciona para esses bancos que estão preocupados no momento em ter recursos para fazer frente a desafios ainda desconhecidos como a inadimplência”, acrescenta.

Ambas analistas afirmam que, de forma geral, muitos bancos têm caixa elevado e uma curva de vencimentos de compromissos de dívida alongada. Ou seja, entram na crise com capacidade melhor de enfrentar o que vem pela frente.

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