Com ‘empurrãozinho’ do BC, corretoras de câmbio se aproximam dos níveis pré-pandemia

Com ‘empurrãozinho’ do BC, corretoras de câmbio se aproximam dos níveis pré-pandemia

Bruna Camargo

03 de setembro de 2021 | 05h10

Operações de câmbio recuaram no começo da pandemia em meio ao fechamento de fronteiras Foto: Fábio Motta/Estadão

As corretoras de câmbio sofreram durante o início da pandemia de covid-19, assim como tantos outros setores da economia. Em meio ao fechamento de fronteiras pelos países, os números de operações em câmbio turismo despencaram. Com clientes empresariais reduzindo ou encerrando atividades, as operações em câmbio comercial também foram recuando. Mais de um ano depois, porém, o cenário é outro. O volume do segmento comercial do setor está prestes a bater os níveis de 2019 e, em algumas casas, os resultados já ultrapassaram com folga o patamar pré-pandemia.

Profissionais ouvidos pelo Broadcast contam que foram criadas estratégias para lidar com a crise, mas boa parte do “empurrãozinho” veio do Banco Central (BC). A autoridade monetária elevou de US$ 100 mil para US$ 300 mil, conforme diretriz do Conselho Monetário Nacional (CMN), o limite por operação de câmbio feita por instituições não bancárias, como corretoras de títulos e valores mobiliários (CTVMs), distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs) e corretoras de câmbio. Assim, mesmo que o número de contratos fosse menor, o volume das transações poderia ser maior.

Dados do Banco Central compilados pela B&T Corretora indicam que, no primeiro semestre deste ano, as instituições não bancárias movimentaram aproximadamente US$ 4,862 bilhões em operações primárias – exportações, importações e transferências de e para o exterior -, valor 17% inferior ao movimentado no mesmo período de 2019 (US$ 5,799 bilhões). Já em uma comparação do segundo trimestre de 2021 com o de 2019, a queda é menor, com o período deste ano apenas 9% abaixo.

No caso da B&T, os níveis pré-pandemia já foram ultrapassados e a corretora operou de janeiro a junho de 2021 um volume 14% maior que no mesmo período de 2019. “A medida do BC para aumento do limite deu uma margem operacional maior e, com isso, nos esforçamos em captar novos clientes. Criamos um setor novo e investimentos nessa área da empresa”, afirma Vivian Portella, sócia da B&T.

Ela diz que outros fatores colaboraram para que, em grande parte, as operações com câmbio comercial sustentassem as corretoras enquanto o câmbio turismo não decolava. Cita fatores internos, como a digitalização, que agilizou processos, e o marketing, que atraiu clientes, e externos, como uma taxa de câmbio favorável às exportações, com o dólar chegando perto dos R$ 6 em 2020.

A Advanced Corretora também notou avanço nos negócios, ultrapassando em 44% o volume de operações no primeiro semestre de 2021 em comparação ao mesmo período de 2019. “As operações tiveram muita volatilidade durante a pandemia, mas o aumento de limite do BC contribuiu muito para a captação de clientes”, conta Guacyro Filho, consultor econômico da Advanced. Para ele, “os bancos estavam em uma zona de conforto [com os clientes] e as corretoras começaram a incomodar”.

Maior competição

Outra consequência do aumento de limite por operação de câmbio foi o aumento da competição no mercado. Embora o público-alvo de corretoras e de bancos ainda seja diferente por conta da possibilidade de volume transacionado, aqueles clientes que  precisavam procurar instituições bancárias quando os negócios passavam dos US$ 100 mil agora podem ser disputados.

Bruno Foresti, superintendente de câmbios do Banco Ourinvest, afirma que não houve grande impacto na mudança de limite determinada pelo BC. “Cerca de 85% volume de câmbio ainda é dos dez maiores bancos e o mercado é extremamente grande. Esse aumento de limite pode fazer com que os players grandes sintam o market share ameaçado e a concentração de clientes diminua”, afirma.

Segundo os dados do BC, o Ourinvest já ultrapassou, no primeiro semestre de 2021, em 91% o volume de operações primárias em câmbio comercial registrado no mesmo período de 2019. Foresti destaca que mais empresas estão buscando hedge cambial e o número de exportações e importações tem crescido, enquanto o que caiu foi o tíquete médio, diluído em meio ao aumento das operações.

Paulo Marcos, diretor comercial do Travelex Bank, vai na mesma linha, destacando baixo impacto com o aumento do limite. “As corretoras estavam ‘sofrendo’, foi oportuno”, ressalta. Ele afirma que o Travelex até ganha com a mudança do BC, pois muitas corretoras têm conta com eles e, quando os US$ 300 mil da operação são ultrapassados, as instituições firmam uma contratação de serviço para que o banco entre na jogada.

Os resultados do Travelex são expressivos. No comparativo do primeiro semestre de 2021 com o de 2019, o banco viu seu volume de operações aumentar em 185%, segundo dados do BC. “Sofremos em abril de 2020, mas depois foi só crescendo. Com o dólar ‘lá em cima’, há muitos casos de clientes que começaram a explorar o comércio exterior”, conta o diretor comercial.

E o que dizem os “bancões”? Tanto no período de janeiro a junho de 2019 quanto no de 2021, o Santander liderava o ranking do BC no volume das operações, com crescimento de 19% no comparativo. Beatriz Restaino Mendonça Amado, superintendente de Câmbio à Pessoa Física do Santander, destaca que o ambiente de alta volatilidade durante a pandemia gerou esse aumento no volume negociado, com diversas empresas em busca de proteção cambial.

No entanto, a maior competição entre instituições bancárias ou não passou despercebido. “Não sentimos a perda de clientes por conta do aumento do limite que as corretoras podem operar. Seguimos crescendo em volume, número de transações e quantidade de clientes que operam conosco”, afirma Amado.

Demanda antiga

O aumento do limite por operação de câmbio feita por instituições não bancárias é uma demanda antiga da Associação Brasileira de Câmbio (Abracam) e o fato de o valor ter triplicado foi comemorado pelas corretoras, segundo Kelly Massaro, presidente da Abracam.

“O limite estava defasado, mas o regulador está sempre muito atento antes de fazer ajustes. Considera-se o que o segmento está apto a fazer, o combate ao PLD-FT [que se refere à prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo] e se o mercado está sadio”, afirma Massaro.

Ela diz ainda que o setor estava realmente pronto naquele momento em que o limite foi elevado. “São 20 anos de trabalho da associação, acentuado nos últimos seis anos, para resolver problemas. Criamos o selo de conformidade e as corretoras abraçaram [o processo]. É uma evolução do mercado”, diz  a dirigente, que defende que o limite seja revisitado para ajustes regularmente.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 02/09/21 às 11h34.

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