Com mercado seletivo para IPOs, empresas buscam alternativa de crédito e miram fusões

Cynthia Decloedt

14 de maio de 2021 | 16h09

A janela mais apertada para as ofertas de ações está empurrando empresas para a mesa de negociações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) e para soluções de financiamento alternativas. Uma parte das empresas que desistiu de levar adiante suas ofertas de ações (IPO, na sigla em inglês) nesta segunda janela de ofertas do ano já mantém conversas em busca de outras saídas.

A Rio Alto, de energia renovável, tem um empréstimo de R$ 600 milhões em andamento, organizado pelo Credit Suisse junto a investidores que seriam âncoras da oferta de praticamente o mesmo valor e que foi suspensa. Por conta de um aporte do Canada Pension Plan Investment Board (CPP Investments), a Iguá deixou de lado sua intenção de levar seu IPO para a bolsa este ano.

Três ofertas em bolsa do setor de saúde, um dos mais movimentados em fusões e aquisições, ficaram pelo caminho em abril: Hospital Care, Kora e Athena Saúde, todas com metas de utilização dos recursos para consolidação. As apostas são de que busquem alternativas financeiras para manterem pelo menos parte de seus planos.

“Veremos algumas das empresas com transações de IPO que não foram concretizadas em busca de soluções intermediárias”, previu o presidente executivo do UBS-BB, Daniel Bassan. Ele lembra que perto de 80% das companhias que têm buscado a bolsa este ano para levantar recursos estão com aquisições ou crescimento orgânico no foco. No ano passado, acrescenta, esse porcentual era perto de 60%. “Ou seja, são empresas que têm projetos prontos para serem realizados”, diz.

No primeiro trimestre, o volume de operações de fusões e aquisições já foi considerado bastante positivo. “É impressionante”, diz o co-head de M&A do Citi na América Latina, Antonio Coutinho. Ele cita os US$ 37 bilhões em operações anunciadas no período, contra US$ 7 bilhões no mesmo intervalo de 2020, envolvendo 166 transações contra 144 em 2020.

“Olhando para o conjunto das transações anunciadas, vemos uma variedade de fatores e temas trazendo volume para esse mercado”, acrescenta. Coutinho observa que enquanto o tema da venda de ativos por estatais predominou em anos anteriores, agora soma-se uma onda de consolidação doméstica ligada ao momento econômico desafiador, onde as empresas buscam oportunidades para reduzir custos, crescer e se posicionar para o momento seguinte.

Eduardo Miras, head do banco de investimento do Citi no Brasil, observa que há vários setores da economia que estão fragmentados nesse momento e que, portanto, passíveis a uma consolidação. “As dificuldades da pandemia aumentaram a diferença entre as empresas mais fortes, com acesso ao capital da bolsa e de acionistas, e as mais fracas”, conta Miras.

No setor de saúde, por exemplo, grandes grupos, como Hapvida/Intermédica Rede D’Or e Dasa, estão captando recursos em bolsa para consolidação. A Rede D’Or sozinha levantou mais de R$ 11 bilhões, direcionando metade para aquisições. Em operações maiores, os grandes grupos têm aproveitado a valorização de suas ações em bolsa como moeda, economizando caixa, caso esse da fusão da Hapvida com a Notre Dame Intermédica.

Estrangeiro

O varejo de moda é outro setor em franca ebulição, com os players maiores buscando a via da aquisição para crescer e assumirem posições de liderança nos segmentos em que atuam. O caso mais emblemático é o da oferta feita pela Hering pelo Grupo Soma, passando na frente da Arezzo, que havia feito uma oferta anteriormente. As Lojas Americanas se uniram a B2W. A Renner, que levantou R$ 4 bilhões na bolsa, deve partir para uma grande aquisição, tendo nomes como C&A e Dafiti na mira.

“Há muitas empresas olhando combinações para melhorar margem e escala. É uma maneira de enfrentar a crise que se está vivendo”, observa o responsável por M&A da XP, Marco Gonçalves. Ele ressalta que a baixa presença do investidor estrangeiro, por conta da cautela com o País, faz com que as empresas brasileiras que estão capitalizadas tenham uma oportunidade única.

“Por não ter o fluxo externo, as empresas estão baratas. O ambiente está muito favorável para o empresário local que tem recursos sobrando e apetite ao risco”, afirma. Gonçalves faz um paralelo à onda de IPOs de 2007, seguida por um fluxo de operações de M&A, em que a presença dos estrangeiros na bolsa, mantinha o valor das companhias em patamares mais elevados do que se encontram hoje.

Ele cita setores como o de proteínas, em que os múltiplos em bolsa se encontram em níveis excessivamente baixos. “Quando a visão de Brasil estiver mais positiva, poderemos ter um volume crescente de estrangeiros participando das transações”, prevê Gonçalves.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 12/05/2021 às 13:54

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