Com pegada digital, bancos voltam à Bolsa para financiar expansão

Com pegada digital, bancos voltam à Bolsa para financiar expansão

Aline Bronzati e Fernanda Guimarães

09 de janeiro de 2020 | 11h58

Foto: Cauê Diniz/B3

A bolsa brasileira voltou a ser uma importante fonte de captação de recursos para os bancos, principalmente os digitais. Nos últimos dois anos, os mineiros Inter e BMG abriram seu capital na B3. Já no início de 2020, a lista vai engordar com a estreia do Banco Votorantim, o BV, que deve colocar os pés na Bolsa em fevereiro, com uma oferta em torno dos R$ 5 bilhões. O mais esperado, porém, é o Nubank, avaliada em mais de US$ 10 bilhões na última rodada de captação. Com dinheiro em caixa, a fintech ainda não tem data para se tornar uma empresa de capital aberto.

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A estratégia desses competidores é financiar sua expansão no mercado de ações. Quebrada a barreira das agências físicas e com um empurrão do Banco Central, que tem se debruçado em uma agenda pró-concorrência, os bancos digitais estão em franca expansão. Próximos da marca de 30 milhões de clientes, têm complementado o portfólio de serviços financeiros com uma pegada digital e, na maioria das vezes, com isenção de taxas, pegando carona nas pessoas desassistidas pelos grandes bancos.

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Larissa Arruy, especialista em Bancos e Serviços Financeiros do escritório Mattos Filho, diz que as instituições têm de sair em busca de capital, dada a demanda robusta por investimentos em tecnologia. “A mudança da regulamentação mudou o setor”, diz ela. “Foi criado um ecossistema favorável, em um momento em que os investidores também têm grande interesse por empresas de tecnologia.” Calcula-se, segundo ela, que há no Brasil cerca de 600 fintechs, sendo maioria criada nos últimos cinco anos. Larissa afirma, ainda, que muitas dessas novas empresas passaram por rodadas de captação de recursos, por venture e private equities e, por isso, quando esses investidores fizerem o desinvestimento, a bolsa deverá ser uma das portas de saída preferidas.

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A fila de instituições financeiras que mira a bolsa para uma possível oferta inicial de ações tem se mantido constante e, nos últimos tempos, com tendência de crescimento por conta do momento de transformação do mercado. Nela, estão ainda nomes como o BS2, ex-Bonsucesso e o gaúcho Agibank, que deve fazer nova tentativa após não ter sucesso em 2018, conforme fontes. Outro que também já flerta com uma possível abertura de capital é o Original, da holding J&F.

“O mercado de capitais está atravessando o momento mais fértil da história e negócios impulsionados pelo crescimento econômico e que contam com aceleradores, como a digitalização para ganho de eficiência, acabam se tornando ainda mais atraentes. Em 2019, tivemos R$ 88 bilhões em emissões no Brasil e 25% disso foram de bancos e companhias de serviços financeiros. Este setor continua sendo uma de nossas grandes apostas para 2020”, diz o chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, Alessandro Farkuh.

A chegada dos bancos digitais na Bolsa se opõe ao movimento de saída de instituições de médio porte da B3 visto nos últimos anos. Afetados pela situação econômica e recorrentes crises de inadimplência, esses bancos foram obrigados a enxugar suas operações já que, diferentemente dos grandes, não tinham uma estrutura diversificada de receitas e serviços. A crise econômica empurrou uma leva de empresas para a recuperação judicial, colocando em xeque a saúde financeira dessas instituições.

O presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Ricardo Gelbaum, se diz mais otimista com o movimento dos bancos digitais rumo à Bolsa. Para ele, o movimento deve ser perene e sustentável. “Há 12 anos, quando tivermos a febre das aberturas de capital de bancos médios no Brasil, a pegada das instituições era diferente. Era todo mundo voltado para crédito. Agora, os bancos digitais têm um modelo mais voltado à prestação de serviços e o sucesso tem sido por conta da experiência do usuário e, principalmente, da gratuidade”, diz.

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Em 2007, quando aconteceu o último boom dos lançamentos de ações, foi também quando a bolsa brasileira mais recebeu ofertas iniciais de bancos – foram nove estreias, que movimentaram cerca de R$ 6 bilhões. A maior captação na ocasião foi a do Daycoval, de R$ 1 bilhão, que há quatro anos, porém, se despediu da Bolsa. Foi ainda nesse ano em que o Cruzeiro do Sul, que teve sua falência decretada em 2015, colocou os pés na bolsa. Das nove, só quatro – Pan (ex-Panamericano), Pine, ABC Brasil e Indusval – seguem abertos.

A volta de bancos de médio porte para a Bolsa evidencia ainda a concorrência nos mercados acionários brasileiro e norte-americano. Atraídas por elevados múltiplos, algumas empresas brasileiras têm preferido ir buscar investidores fora do País como fez no fim do ano passado a XP Investimentos, que escolheu a Nasdaq em uma oferta de US$ 2,25 bilhões. A escolha, ao menos até aqui, se mostrou acertada, com sua ação subindo cerca de 40%. A XP, inclusive, está debruçada em tirar do papel seu plano de se tornar um banco completo, após obter autorização do Banco Central. Quem também pode preferir o mercado norte-americano é o Nubank, apostam especialistas.

“É muito bem vinda a chegada dos bancos digitais na bolsa, mas eles têm o desafio de buscar uma forma híbrida de atuação, aliando a experiência do usuário e gratuidade com a rentabilização da base que está sendo construída. Em algum, momento vai ter uma convergência nesse modelo”, afirma o presidente da ABBC.

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No caso do Votorantim, recém rebatizado de BV, a ideia é já de estrear em fevereiro, com a missão de vender um banco bastante tecnológico e próximo das startups, diferente do foco no crédito a veículos que o trouxe até aqui. Para o futuro, inclusive, não está descartado o lançamento de seu próprio banco digital.

Dentre os bancos digitais candidatos a estrearem na bolsa já em 2020, está o Agibank, que fez uma tentativa em 2018, mas viu seus planos se frustrarem no momento da precificação da oferta, quando o mercado entornou com o crescimento da aversão ao risco. Constituída como uma financeira em 1999, no Rio Grande do Sul, a instituição é voltada às classes C e D e se reposicionou com linhas de menor risco como, por exemplo, o consignado, em uma ofensiva para convencer os investidores a aportarem recursos no negócio.

Quem trilhou caminho parecido foi o BMG. O mineiro conseguiu emplacar a abertura de capital na segunda tentativa de listagem após não obter o preço que desejava. Para reverter a imagem junto aos investidores, o mineiro reforçou seus resultados e aprofundou a estratégia de ser um banco digital. Apesar de ter conseguido emplacar a oferta, o BMG sentiu a dificuldade de ser uma empresa listada, com a reação diária do mercado e as cobranças trimestrais. Foi, inclusive, a única ação de empresa brasileira que abriu o capital em 2019 que fechou o ano no vermelho. A razão, segundo gestores, foi o primeiro resultado divulgado pela companhia após o lançamento das ações, que deixou a desejar.

Os bancos têm se aproveitado de um momento de elevado apetite dos investidores no mercado de renda variável, com migração de investimentos de renda fixa em busca de maior rentabilidade. Ano passado, o volume de ofertas de ações na B3 superou os R$ 90 milhões, e de mais de R$ 100 bilhões considerando as ofertas nos Estados Unidos. Para este ano a previsão é de novo recorde: de mais de R$ 120 bilhões se consideradas apenas as ofertas no mercado local.

Notícia publicada no Broadcast dia 08/01/2020, às 10:31:00

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