Com trégua na pandemia, PIB brasileiro vai a NY e retoma eventos na Big Apple

Com trégua na pandemia, PIB brasileiro vai a NY e retoma eventos na Big Apple

Aline Bronzati

14 de maio de 2022 | 10h30

Lotte New York Palace sediou o Latam CEO Conference   Foto: Aline Bronzati/Estadão

De banqueiros a CEOs de centenas de empresas, um pedaço representativo do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desembarcou em Nova York na última semana para uma agenda intensa de reuniões com investidores estrangeiros, pela primeira vez desde o início da pandemia, há dois anos. Em meio a dias de tensão nos mercados, que caíram com o temor de uma desaceleração global devido ao aperto monetário nos EUA, as reuniões foram uma oportunidade para amarrar futuras captações, principalmente na renda fixa, já que, na variável, o contexto mundial atrapalha, e, claro, falar de Brasil, cujas eleições, não foram o tema central, mas já levantaram questionamentos. A preocupação de estrangeiros é de um retrocesso, quer seja ele institucional ou econômico, a depender de quem vença as urnas no Brasil, em outubro.

As ruas da Big Apple, apelido da cidade de Nova York, receberam uma lista de banqueiros brasileiros ao longo da semana, incluindo os CEOs do Bradesco, Itaú Unibanco e Banco do Brasil. Dentre eles, um rosto voltou a aparecer, o de André Esteves, sócio do BTG Pactual, e que voltou ao posto de chairman do banco em março último, após seis anos afastado do posto.

A tradicional semana brasileira em Nova York foi uma oportunidade ainda de banqueiros e empresários reatarem o vínculo presencial com investidores estrangeiros diante da trégua na pandemia, mesmo que a China lembre o mundo que o problema da Covid-19 ainda não foi resolvido. “As pessoas realmente conseguiram usar bem o trabalho à distância, mas o presencial ainda tem o seu papel, muito claro, e esse tipo de evento ilustra isso”, disse o economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do Banco Central, Mário Mesquita, em entrevista ao Broadcast, em Nova York.

A agenda brasileira em NY acontece tradicionalmente na esteira das reuniões de Primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, e atrai uma comitiva verde e amarela para aproveitar a vinda de executivos de bancos e de governos, mas havia sido suspensa por conta da pandemia. Dentre os bancos que organizaram eventos na cidade – para além de reuniões com investidores, estiveram Itaú BBA, braço de atacado do maior banco da América Latina, BTG Pactual, Safra e Citi, sendo alguns com temática específica como voltados ao segmento tech e de agronegócios.

Segundo Mesquita, do Itaú, foi a maior edição do Latam CEO Conference na história do banco, e reuniu mais de 200 empresas, a maioria representada por seus CEOs. “Tivemos umas poucas baixas de pessoas que testaram positivo assintomático antes de vir para cá”, afirmou o economista-chefe do banco.

Estrangeiro segue cobrando agenda de reformas e privatizações no Brasil

Ainda que pese um ambiente difícil para emergentes, há, na sua visão, uma atitude até mais construtiva em relação ao Brasil do que frente à economia mundial diante dos três grandes temas atuais: guerra na Ucrânia, pandemia e o processo de aperto monetário, no qual o País está mais avançado. “Eu diria que é uma visão (do investidor estrangeiro) neutra para construtiva em relação ao Brasil, sem exuberância alguma, muito em função desse ambiente global desafiador”, disse Mesquita.

O estrangeiro segue cobrando a agenda de reformas e privatizações no Brasil e teme um eventual retrocesso – institucional ou econômico – a depender de quem vencer as urnas, em outubro. Quanto à privatização da Petrobras, que voltou aos holofotes com a chegada do novo ministro de Minas e Energia no Brasil, Adolfo Sachsida, Mesquita não vê tempo para isso. Segundo ele, as eleições presidenciais no País poderiam até ter tido mais ênfase nas conversas, mas a volatilidade dos mercados esta semana, com dados de inflação nos EUA elevando o tom “hawkish”, de mais subida de juros, roubou a cena.

Do lado das empresas, aproveitando o tête-à-tête com estrangeiros, a semana em NY foi intensa, com empresários apresentando seus planos de negócios e medindo o apetite do mercado para futuras captações. Aberturas de capital no Brasil, de acordo com executivos ouvidos pela reportagem do Broadcast, devem retomar apenas passadas as eleições presidenciais, em outubro, mas novas emissões subsequentes, os chamados follow ons, no jargão de mercado, ainda devem ocorrer ao longo de 2022.

A janela para emissões de renda fixa também segue aberta e ativa, de acordo com executivos de bancos. A Oncoclínicas, um dos maiores nomes do setor de oncologia na América Latina e que abriu capital no Brasil, no ano passado, está levantando um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) de alguns milhões de reais.

Para o vice-chairman do Citi no Brasil, Fernando Iunes, o Brasil atravessa uma “tempestade perfeita”, somando os aspectos conjunturais como covid e guerra na Ucrânia e ainda as eleições, em outubro. No entanto, observou, as empresas brasileiras estão bem, mesmo com os juros básicos no País, a Selic, saltando dos 2% para 12,75%. “Não vimos nenhuma empresa tendo problema. Os IPOs (abertura de capital, na sigla em inglês) passam por um contexto pontual. Há uma lista de empresas represadas”, afirmou o executivo. Primeira vez na sede do banco, em NY, um arranha-céu no bairro Tribeca, em Manhattan, desde que chegou, em março último, o ex-BBA integrou a alta cúpula do Citi Brasil, que contou ainda o presidente, Marcelo Marangon, e outros executivos.

Gestores em busca de recursos marcaram presença

Gestores brasileiros em busca de recursos para seus fundos e assessores de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) também marcaram presença em Nova York, em busca de negócios. Dentre os setores pujantes, destacam-se saúde, energia, infraestrutura, além de empresas brasileiras buscando expansão internacional. “Agenda lotada aqui até o fim da sexta-feira. Muito produtiva”, resumiu o ex-executivo de um banco brasileiro, que prefere não ter o seu nome revelado, e está montando um fundo de private equity no Brasil, aquele que compra participações em empresas.

Outro chamariz para os brasileiros em NY foi a tradicional premiação “Person of the Year”, promovida pela Brazilian American Chamber of Commerce, na noite do dia 09 de maio. O evento também foi o primeiro presencial desde a pandemia. Menos luxuoso que os anteriores, o jantar de gala tradicional em Nova York aconteceu na casa de eventos “The Glasshouse”. A predominância do público também foi de brasileiros, incluindo o ex-governador de São Paulo, João Doria, e banqueiros para todos os tipos e gostos. Antes, haviam mais americanos. Para um dos participantes, foi uma “típica festa de brasileiro, com menos luxo, mas mais leve”.

A presidente do Conselho de Administração do Magalu, Luiza Trajano, foi a homenageada do lado brasileiro. Já do lado americano, a escolhida foi a chairman da IBM, Virginia M. Rometty, conhecida como Ginni. Como de costume, Luiz Trajano jogou luz em questões como o machismo e a polarização no Brasil. “Eu nunca imaginei que receberia esse prêmio até porque ele chamava o homem do ano”, afirmou ela, ao receber a premiação.

Por fim, os brasileiros também marcaram presença na Bolsa de Nova York (Nyse). Nomes como a Sabesp, de saneamento, e o Itaú Unibanco celebraram aniversários de listagens, enquanto a Eve, empresa de carros voadores da Embraer, lançou suas ações na Nyse, na terça-feira, dia 10. Apesar da estreia ter sido acompanhada de uma queda de cerca de 23% dos papéis, influenciados pela perspectiva de longo prazo do negócio, a startup é a aposta da fabricante brasileira de aviões para o futuro. “Em dez anos, a Eve pode ser do tamanho da Embraer hoje”, afirmou o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, ao Broadcast.

 

Este texto foi publicado no Broadcast no dia 13/05/22, às 13h22

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