Compra reprimida tem limite e não haverá compensação, diz presidente da Cielo

Compra reprimida tem limite e não haverá compensação, diz presidente da Cielo

Aline Bronzati

30 de abril de 2020 | 05h35

Por Aline Bronzati

As maquininhas de cartões ainda não sinalizam uma retomada da economia brasileira, mas uma coisa é certa: as compras reprimidas em meio à pandemia do novo coronavírus têm limite. Muitas não vão se materializar ainda que o varejo, de fato, abra suas portas em breve, na visão do presidente da Cielo, Paulo Caffarelli.

Sem informações concretas sobre o relaxamento das medidas de isolamento social, essenciais para combater a doença no País, o executivo considera qualquer expectativa para a volta da normalidade um ‘exercício de futurologia’. “Não dá para traçar uma previsão sem ter uma posição oficial sobre como vai voltar e quando”, afirma ele, em entrevista exclusiva ao Broadcast.

Além de dificultar ainda mais o trabalho de reposicionamento da líder do setor de maquininhas no Brasil – que já sofria em meio à disputada acirrada no segmento, a crise da covid-19 atrapalha a busca da Cielo por uma base de clientes mais rentável. Do total, 66% são grandes contas e 34% varejo, que é mais rentável. A meta de Caffarelli é 50% para cada, crescendo, assim, junto a um público que foi atacado por seus concorrentes e cujas receitas são maiores. Agora, porém, pode ocorrer o contrário, com as grandes contas garantindo os volumes já que o varejo está de portas fechadas.

A crise também atrasa a recuperação dos resultados da Cielo. No primeiro trimestre, seu lucro líquido teve queda 69,4% ante um ano, para R$ 166,8 milhões, retornando ao patamar visto há quatro anos. De novo, Caffarelli diz que qualquer previsão é ‘futurologia’. Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Broadcast: Algumas cidades e estados têm iniciado uma reabertura dos negócios. Já é possível sentir a retomada do varejo no volume de transações?
Paulo Caffarelli:
Não é possível ainda. Em março, tivemos uma queda bastante significativa na quarta e na quinta semanas como mostrou o Índice Cielo de Varejo Ampliado (ICVA). Abril tem sido muito volátil. No início do mês, melhorou, começaram a crescer as transações A queda que estava, em média em 40%, 45%, desacelerou para 34%, mas voltou de novo para a queda anterior. Sob a ótica do mercado, embora vendo medidas de relaxamento, ainda está instável.

Broadcast: A Alemanha começou a relaxar a quarentena e viu o número de casos subir. Não é um risco? Uma abertura antes da hora não poderia pesar ainda mais para o varejo?
Caffarelli:
A gente tem estar adaptado à situação atual. Se o mercado estiver aberto, vamos trabalhar com os devidos cuidados. Com ele fechado, temos trabalhado remotamente. A palavra final é das autoridades médicas e do governo porque realmente nos países que flexibilizaram a volta sem ordenação tem se mostrado bastante arriscado. Além disso, quando se tira fotografia do Brasil, 75% das lojas do País estão funcionando, com ao menos uma venda. Isso não quer dizer que estejam necessariamente abertas. Esse número chegou a 50% no fim de março. Mas tem muitas lojas pequenininhas.

Broadcast: Mesmo após retomada, haverá um período de acomodação. Quando os volumes da Cielo devem voltar ao normal?
Caffarelli:
Não é possível prever. Qualquer previsão é futurologia. Não temos insumos. Estamos trabalhando com variáveis não controláveis. O Estado de São Paulo pode voltar atrás no dia 11, por exemplo, e já muda tudo. Não dá para traçar uma previsão sem ter uma posição oficial como vai voltar e quando. Além disso, a venda reprimida tem limite. Parte já não vai acontecer mais. Passou e não vai se recuperar como, por exemplo, compras feitas nos feriados.

Broadcast: O varejo reclamou primeiro das medidas de isolamento e depois da falta de crédito. Como a Cielo está apoiando o segmento mesmo de portas fechadas?
Caffarelli:
Dentro das nossas condições e capacidades como adquirente, lembrando que não somos bancos. Fizemos apoio incondicional. Mais do que os R$ 5 bilhões para fazer antecipação para aqueles que não acessavam, temos tido uma atuação muito pró-ativa por meio de parcerias como Sebrae, Loggi e Ambev no sentido de unir as pontas.

Broadcast: A adesão aos meios de pagamentos digitais têm crescido na crise?
Caffarelli:
Temos três soluções que têm apresentado crescimento enquanto tudo encolhe na crise. O pagamento via link, o ‘superlink’ era pouco utilizado e tínhamos no máximo 5 mil clientes. Tivemos crescimento de 650% em um mês e meio e agora são quase 40 mil. Além disso, tombamos 1 milhão de clientes para poderem ter acesso à ferramenta. Temos ainda a tecnologia de pagamento por aproximação (NFC, na sigla em inglês), que cresceu 14%, e o QR Code, com alta de 10%.

Broadcast: Os R$ 5 bilhões em antecipação são suficientes? Quanto tempo?
Caffarelli:
Já tivemos incremento significativo. Abril e março batemos recorde de penetração com produtos de crédito no segmento de varejo em 24%. Temos recursos disponíveis ainda para atender a demanda dos nossos clientes. Não vamos falar em volume porque é uma informação estratégica. Miramos 50% da base com a oferta de produtos de crédito.

Broadcast: O crédito via maquininhas ficou em segundo plano. Ainda tem chances de sair?
Caffarelli:
Acredito que ainda tem chance. Continuamos mantendo contato. Formalizamos ao Ministério da Economia via a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) a total disponibilidade da indústria, ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Demonstramos nossa total disponibilização por meio das adquirentes para ajudar o varejo nesta crise.

Broadcast: Mas o governo não demonstra muito entusiasmo na linha. Como seria?
Caffarelli:
Com recurso público e faríamos o nosso papel de adquirentes, repassando os recursos ao empresários e microempreendedores. Temos de lembrar que muitos têm maquininha, mas não possuem conta em banco.

Broadcast: Como a crise impacta a estratégia de reposicionamento da Cielo? Desafia a gestão, que já tinha a sombra da concorrência?
Caffarelli:
A Cielo vinha fazendo de forma bastante focada um trabalho até a segunda semana de março, com crescimento bem superior ao do mercado. Estávamos no caminho correto. A partir desse momento, o que aconteceu conosco também está acontecendo com as outras adquirentes. Tivemos uma retração grande no varejo e isso vem para nós de forma mais acentuada ainda.

Broadcast: A agenda da Cielo tende a ser postergada?
Caffarelli:
Não digo postergada. O efeito covid-19 está batendo em todo mundo, pessoas físicas e jurídicas, empresas grandes e pequenas. Estamos aproveitando momento para readequar a empresa na estratégia que já vínhamos trabalhando. Queremos crescer forte no varejo e reduzir grandes contas. Foco, agora, mais do que resultado é a melhoria dos processos para atender melhor os clientes. Não estamos parados. Estamos arrumando a casa para voltar com a força total passada a crise.

Broadcast: O reequilíbrio do perfil da base de clientes, em grandes contas e varejo é esperado para quando?
Caffarelli:
É difícil prever isso. Varejo vai sair mais machucado da crise. Até o fim do ano, devemos ter outro tipo de perfil da base de clientes, que hoje é de 66% em grandes contas e 34% no varejo. Estamos caminhando mais para aumentar nossa presença no varejo. Não acredito em 50% e 50% este ano muito por conta da crise. Vínhamos em um patamar bem interessante. Vamos ter confirmação que estávamos na estratégia certa.

Broadcast: Em termos de resultados, o lucro da Cielo caiu mais de 69% no primeiro trimestre? É possível prever quando esse ritmo vai se arrefecer?
Caffarelli:
Qualquer movimento nosso é futurologia. Estamos fazendo análise de cenário e possibilidades. Março foi ruim. Abril será pior. Temos grande expectativa de uma reabertura do varejo a partir de maio com devido cuidado e respeito.

Broadcast: Qual a expectativa de venda de maquininhas neste ano e para a base de clientes em meio à crise e com agências fechadas?
Caffarelli:
Essa informação é estratégica. Os concorrentes estão vendo nossa agressividade. Temos um ponto interessante. Temos parceria com vários bancos como Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e BRB (Banco de Brasília). Isso nos dá uma vantagem comparativa bastante interessante. Não dá para prever nesta crise, mas vamos vender um certo volume, evitando o subsídio (do aluguel da maquininha). Estamos estudando o comodato.

Broadcast: Como seria?
Caffarelli:
Não temos ainda esse modelo e podemos adotar. É um instrumento interessante para planejamento tributário por parte das empresas, no qual emprestamos a maquininha e se ela deixar de usar nos devolve. Essa ideia surgiu antes da crise e está caminhando.

Broadcast: E o processo da Caixa para um parceiro no segmento de maquininhas?
Caffarelli:
Está no meio do processo. Nós continuamos como um dos participantes. Isso vem sendo conduzido pela Caixa Cartões e até onde sabemos o processo continua. Estão contratando assessor para falar com os candidatos.

Broadcast: A crise pode gerar uma onda de consolidação no segmento? Qual seria o papel da Cielo?
Caffarelli:
Em outros países que passaram o que estamos passando neste momento, isso tem ocorrido. O mercado brasileiro conta hoje com 20 adquirentes e 200 subadquirentes. Uma provável chance de consolidação existe justamente porque as histórias nos mostram que é essa é uma consequência. Uma empresa do tamanho da Cielo sempre estará na fotografia, capitaneando o movimento de consolidação.

Broadcast: No preço em que a ação da Cielo está cotada na bolsa, o fechamento de capital faz mais sentido?
Caffarelli:
Esse é um assunto que temos total desconhecimento e sempre partirá dos acionistas.

Broadcast: O senhor tem dito que a Cielo tem de se ajustar assim como seus resultados diante do aumento da concorrência. Agora, tem o adicional da crise. Qual vai ser a cara da Cielo passado tudo isso?
Caffarelli:
Eu tenho um vínculo muito forte com a Cielo porque eu praticamente convivo com a companhia desde que ela nasceu, mais ainda após a abertura de capital ou o fim da exclusividade no setor como representante dos acionistas, conselheiro, presidente do conselho. Eu vim para cá para algo diferente do meu mundo justamente com o objetivo de, junto com o time que está comigo, fazer da Cielo a principal empresa de meios de pagamentos do País, com soluções dentro de uma transformação digital. Nosso grande objetivo é adequar a Cielo dentro das necessidades dos clientes no dia a dia sem descuidar do que é o mais importante hoje que é fazer a transformação digital enquanto uma empresa que vai durar 30 anos, 50 anos, 100 anos. Uma coisa não vive sem a outra mais.

Broadcast: A crise encurta essa digitalização?
Caffarelli:
Hoje já temos demonstrações positivas nesse sentido. O mundo não será mais o mesmo depois que isso tudo terminar. Nosso foco é fazer da Cielo uma empresa leve, ágil, tecnológica e muito próxima dos seus clientes. Mas, acima de tudo, uma empresa humana.

Broadcast: Como está a relação com acionistas diante dos novos desafios que se impõem para a empresa? O BB estava repensando seu portfólio de negócios de cartões…
Caffarelli:
A relação é a melhor possível e acontece dentro de uma governança corporativa sólida. O relacionamento com ambas as casas é bastante efetivo e constante. As decisões estratégicas relacionadas à Cielo são tomadas exclusivamente no âmbito do Conselho de Administração.

 

A matéria foi publicada no dia 29/04/2020, às 17:37:29

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