Concorrência e inadimplência controlada podem evitar alta forte no spread dos bancos

Concorrência e inadimplência controlada podem evitar alta forte no spread dos bancos

Matheus Piovesana

07 de novembro de 2021 | 05h00

Calote contido deve frear  aumento do spread, segundo analistas  Foto: Fabio Motta/Estadão

O atual ciclo de alta da Selic pode não produzir um aumento de igual magnitude no spread dos bancos brasileiros. Especialistas afirmam que a maior concorrência no setor financeiro, trazida pela digitalização, cria dificuldades para que os incumbentes do setor elevem as taxas cobradas nas diferentes linhas de crédito. Se mantida sob controle, a inadimplência também pode evitar um aumento forte.

O spread é a diferença entre o custo de captação para os bancos e os juros que cobram nas linhas de crédito. A Selic entra nessa conta ao servir de referência para as taxas utilizadas na remuneração de instrumentos de captação, como letras financeiras e certificados de depósito bancário (CDBs), mas não é o único componente. Fatores como o mix de crédito e as taxas de inadimplência podem reduzir ou elevar o spread.

No ano passado, o alto risco de crédito evitou uma queda mais acentuada nos spreads. Enquanto a Selic chegou à mínima histórica de 2% ao ano em meio à pandemia da covid-19, o spread médio das operações de crédito no País não tocou seu menor patamar. Dados do Banco Central mostram que, entre agosto de 2020 e fevereiro deste ano, o spread do sistema financeiro local teve mínima de 14,2 pontos porcentuais e máxima de 15,78 p.p. Em dezembro de 2013, chegou a 13,28 p.p. – menor número na última década – enquanto a Selic era de 10%.

“Tivemos um momento peculiar, em que a Selic foi à mínima histórica, mas o risco de crédito seguiu alto”, diz Guilherme Machado, diretor responsável por entidades financeiras da S&P Global Ratings no Brasil. “Quando há uma redução da Selic, há uma redução no custo de crédito. Mas como o componente da inadimplência permaneceu forte, os bancos não reduziram significativamente as taxas de juros.” No ano passado, os bancos reforçaram suas provisões contra inadimplência diante da paralisação da economia, mas com a ajuda de programas de transferência de renda e de renegociação de prazos, a onda de calotes esperada em março não se concretizou.

Nos próximos trimestres, porém, não se espera uma alta tão forte nos spreads. O head da área de análise de entidades financeiras da S&P no Brasil, Sergio Garibian, afirma que o poder de precificação dos grandes bancos hoje é menor. “Se eu subir demais o spread, a concorrência me tira do jogo”, diz. Machado explica que essa concorrência não é apenas com os bancos digitais, mas também entre os próprios incumbentes.

Para o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP) Joelson Sampaio, hoje é mais fácil para o consumidor conseguir crédito fora dos grandes bancos do que na última crise, entre 2015 e 2016. “Você tem várias fintechs só de crédito, e bancos digitais concedendo crédito”, diz.

A análise não é unânime. Carlos Daltozo, head de renda variável da Eleven Financial, afirma que a última grande barreira de entrada para as fintechs e os bancos digitais é justamente a concessão de empréstimos, porque embora tenham acesso a recursos através de sucessivas rodadas de investimento, esses players ainda não conseguem captar dinheiro com a mesma facilidade dos grandes bancos. “As fintechs ainda não estão reguladas pelo BC, é difícil captar recursos. Elas chegam a R$ 5 bilhões em carteira de crédito, com recebíveis, FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios) e param ali”, diz.

Efeito inadimplência

Outro fator que deve frear a alta dos spreads é a inadimplência contida. Daltozo pontua que os dados mais recentes, tanto do Banco Central quanto dos bancos, mostram uma qualidade de ativos sob controle. “Diferente do ciclo anterior, que pegou as grandes empresas, que exigem um provisionamento maior, esse novo é mais focado em pessoa física, pequena e média empresa”, diz. “O ciclo não vai ser tão intenso do que foi em 2015, 2016, deve ser bem menor, com a inadimplência voltando aos patamares pré pandemia.”

A S&P também não espera uma grande deterioração da qualidade de crédito. Segundo Guilherme Machado, isso tende a reduzir as pressões de alta de juros nos produtos de crédito, e consequentemente, do spread. “Tem uma inadimplência bastante comportada, o que faz com que os bancos se sintam à vontade para manter os juros baixos ou reduzi-los”, diz.

O que pode mudar essa tendência é a magnitude da elevação da Selic. “Hoje, a tendência é de estabilidade (do spread), mas existe uma incerteza sobre a taxa de juros. A Selic a 10% é um cenário. A 14%, seria outro”, acrescenta.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast  no dia 28/10/21, às 18h10.

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