Covid-19 impõe paralisação em aquisições de empresas, mas pode abrir mercado de ativos ‘estressados’

Fernanda Guimarães

21 de abril de 2020 | 17h44

A pandemia do novo coronavírus impôs uma parada obrigatória em grande parte das transações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), dada a dificuldade de estabelecer um preço para os ativos na mesa em um momento de paralisação da economia, com cerca de um terço da população mundial em isolamento social. Especialistas acreditam que, no momento, as partes que estavam em negociação antes da pandemia tentam ganhar tempo, para seguir com os planos após estabilização da economia. De outro lado, existe ainda a expectativa de que a crise comece a movimentar outros tipos de negócios, como a venda de ativos por empresas em dificuldades financeiras.

O volume de transações envolvendo empresas brasileiras no primeiro trimestre do ano caíram 26% em relação ao ano passado, para 239 operações, segundo dados da consultoria TTR. Por conta do tamanho das operações, em valores há alta no período: crescimento de 18% na relação anual para R$ 44,1 bilhões.

Dentre as vendas que foram postergadas por conta do Covid-19 estão as oito refinarias da Petrobras, por exemplo. Outra que suspendeu a venda foi a Bloomin? Brands, que buscava um novo dono para a rede Outback aqui no Brasil.

O sócio da Spectra Investimentos, gestora de um fundo de fundos de private equity, Renato Abissamra, afirma que a crise afetou o fluxo futuro de caixa das empresas, o que impossibilita a avaliação da companhia e o estabelecimento de preço para um acordo de M&A. “Isso colocou as operações em espera, com as partes tentando ganhar tempo para alinhar um período maior de exclusividade”, comenta.

Na butique de M&A JK Capital, as transações que estavam em fase final seguiram sendo negociadas, mesmo com a pandemia. Outras, iniciadas há cerca de dois ou três meses foram paralisadas por imposição da atual crise da Covid-19. O sócio da JK Capital, Saulo Sturaro, destaca que as transações ficaram travadas porque, neste momento, dependendo do setor de atuação da empresa, o estabelecimento de um preço para o fechamento do negócio ficou impossibilitado. “O efeito nas empresas será diferente, algumas vão voltar mais rapidamente e outras vão demorar mais”, comenta.

Desde que foi decretada a pandemia, algumas transações, que começaram a ser negociadas no ano passado, saíram ilesas, mas são exceções. São exemplos a compra da operação de embalagens da International Paper pela Klabin e a aquisição de fatia do e-commerce de produtos para animais domésticos Peltlove pelo gigante japonês Softbank.

“Os negócios de médio e menor porte em que a visão das partes é de longo prazo, e que possuem caixa suficiente para concluir as operações, ainda continuam em andamento. Transações de maior porte que já estavam em fases finais, como algumas no setor de infraestrutura e energia, também continuam em andamento”, destaca o sócio do Rolim, Viotti & Leite Campos Advogados, Fabio Appendino.

Outros tempos

Além de jogar a conclusão das transações mais à frente, outra mudança que já começa a ser observada é em relação ao formato dos pagamentos, comenta o sócio – diretor da consultoria de M&A Condere, Paulo Cury. “Naturalmente vai ter uma discussão de preço mais intensa e uma possível redução no valor dos ativos. Mas, o que vemos é uma mudança na estrutura de pagamento. Um valor menor à vista e uma prorrogação do pagamento para o longo prazo, vinculado ao resultado que a empresa-alvo virá a obter em determinado período de tempo. Outra alternativa que usamos em uma transação fechada em meados de março é a dívida conversível em ações, que viabiliza o negócio e posterga a definição do preço em valor absoluto, fazendo convergir o interesse entre comprador e vendedor”, explica.

Enquanto alguns negócios desaceleram, os especialistas já começam a ver outra janela se abrindo, uma típica de momentos de crise: a de “ativos estressados”, de empresas em dificuldades. “Prova disso é que os escritórios americanos estão treinando seus advogados para atuarem em compras de ativos em ‘distress’, ou seja, em dificuldade financeira. Eles estão se preparando fortemente para essa nova tendência, que podemos esperar também para o Brasil”, comenta Fernanda Bastos, sócia em Fusões e Aquisições do Cescon Barrieu Advogados. Entre os setores mais expostos à crise e, portanto, potencialmente mais propícios a um movimento de consolidação, Fernanda aponta os segmentos de shopping centers, empresas aéreas e todas as que demandam alta presença de público, como eventos e entretenimento.

“Temos visto que clientes estrangeiros e empresas nacionais com caixa continuam interessadas por bons ativos. Continuam buscando oportunidades e analisando alianças estratégicas. Certamente com o dimensionamento e controle dessa inesperada crise, haverá a necessidade de reperfilamento de dívidas, oportunidades para investimentos em ativos promissores ou mesmo a aquisição de ativos de empresas que estejam em uma situação econômica mais agravada pela crise”, diz Appendino, do Rolim, Viotti & Leite Campos Advogados.

Contato: fernanda.guimaraes@estadao.com

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