Crise de startups atinge ‘healthtechs’ e testa força do modelo de planos digitais

Crise de startups atinge ‘healthtechs’ e testa força do modelo de planos digitais

Luísa Laval

13 de julho de 2022 | 16h30

Consultório da Casa Alice, clínica da startup de saúde  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Queridinhos do mercado em 2020, os planos de saúde digitais também enfrentam mares tempestuosos. Na semana passada, a startup Alice se juntou à lista de empresas nacionais de tecnologia a fazer cortes em massa: 63 pessoas foram demitidas na última sexta-feira (8), segundo apurou o Estadão. Há algumas semanas, a concorrente Sami já havia desligado 75 funcionários, o equivalente a 15% do quadro total.

A proposta dos negócios das duas empresas é similar: oferecer planos de saúde com preços mais acessíveis, driblar a inflação médica e ter controles mais eficientes contra desperdícios. Em 2020, quando surgiram, era possível encontrar pacotes a partir de R$ 170.

O controle de custos começa desde o início: ao contratar o plano, o cliente passa a ser acompanhado por um médico de família ou de uma equipe de saúde. Antes de se consultar com qualquer especialista ou fazer um exame, o paciente é avaliado por esses profissionais. Só depois do aval do médico é que o beneficiário poderá ir a hospitais ou laboratórios parceiros.

Porém, mesmo com o crescimento da quantidade de beneficiários e com o uso de tecnologia, as startups têm enfrentado dificuldades para consolidar a proposta, ao mesmo tempo que as fontes de financiamento estão mais escassas.

A Alice nasceu com o foco em oferecer planos individuais, público do qual as grandes operadoras fogem, por possuir reajuste máximo regulado pela Agência Nacional de Saúde (ANS), fora outras obrigações.

Contudo, em junho deste ano, a empresa anunciou um plano de saúde corporativo com foco em negócios com até 250 funcionários. Segundo ex-funcionários, a guinada veio após pressão de investidores para que o principal produto da empresa seja o plano voltado ao mercado corporativo.

Segundo Luiz Feitoza, diretor da consultoria Arquitetos da Saúde, como a legislação exige a prestação de serviços determinados, há dificuldade em oferecer preços que acabam alcançando consumidores pessoa física sem capacidade hoje de contratar um plano. “A tecnologia é muito bacana, são produtos com uma entrega muito interessante, mas ainda é para quem pode pagar.”

De acordo com Feitoza, mesmo com uma proposta inovadora, os planos digitais ainda não conseguem oferecer um custo acessível, já que a operação de saúde é complexa e o setor continua dependente dos indicadores de empregabilidade. Nos últimos anos, o número de beneficiários vem se mantendo abaixo dos 50 milhões de usuários, patamar máximo atingido em 2014.

“É quase uma perplexidade, porque no início todos estavam confiantes. Ainda não saímos da lógica do rouba-monte (migração de beneficiários para outros planos). Ou o País cresce economicamente ou criamos uma regulação que permita baixar o preço e que pessoas de menor renda consigam entrar”, afirma.

Três principais operadoras digitais têm quase 32 mil vidas

Segundo dados da ANS, em maio as três principais operadoras de planos digitais do País (Qsaúde, Sami e Alice) somavam juntas pouco menos de 32 mil vidas, concentradas em São Paulo. As três ainda são consideradas operadoras de pequeno porte, embora tenham apresentado crescimento constante de vendas.

“(Esse mercado) Ainda não ganhou tanta penetração: plano de saúde é uma operação completa, pois você precisa garantir que cobrirá os procedimentos previstos, que são iguais aos de uma operadora tradicional”, afirma Vitor Asseituno, co-fundador e presidente da Sami. “Na minha visão, as novas operadoras gastaram esse primeiro um ano e meio criando e provando o modelo. Há muita coisa de sistema a ser implementada.”

Ele ressalta que 75% dos beneficiários da startup, em sua maioria microempreendedores individuais (MEIs) e pequenas e médias empresas, não possuíam planos de saúde antes de contratarem o serviço, e que a empresa consegue oferecer um plano até 30% mais barato que o de outras operadoras. Para ele, houve um processo de amadurecimento e agora, com o conhecimento adquirido, começa a hora de escalar o negócio, ainda que tenha sido necessário fazer o corte de funcionários. “A Sami cresceu seis vezes nos últimos 12 meses. Esperamos ainda crescer algumas vezes nos próximos e além.”

A QSaúde, que possui hoje cerca de 12 mil vidas, diz que está tranquila em relação às perspectivas para o negócio, já que não depende de investidores externos para se manter. A companhia, investida totalmente pelo fundador e ex-presidente da Qualicorp José Seripieri Junior, diz que ampliou seu portfólio para além do individual não como uma mudança de rota, mas como continuação dos investimentos.

Não há mudança de rota, diz QSaúde

“Começamos com plano individual e depois ampliamos o portfólio, então hoje também temos PME, adesão. Se for necessário, teremos corporativo, e isso não significa mudança de rota, mas sim o que acreditamos”, afirma a diretora-geral da QSaúde, Vanessa Gordilho. “Em nenhum momento travamos este investimento porque acreditamos no que está sendo construído.”

“Somos uma marca nova. Impactar um público B2C (relacionamento direto com clientes) demanda muito dinheiro. Nossos planos nos próximos 12 meses incluem a força das parcerias, em estar muito próximos do dia a dia dos pacientes, encontrar mais canais de vendas. Queremos que cada vez mais o nome da QSaúde se espalhe e as pessoas passem a conhecer.”

Ao lançar seu produto Qfácil, voltado para a classe C, o CFO Bruno Cals de Oliveira aponta que o preço realmente é um pouco mais caro em relação aos valores de outras operadoras verticalizadas.

“À medida que a empresa foi evoluindo, visualizamos a oportunidade de oferecer produtos para a classe C, então lançamos uma nova linha de planos com um preço bastante acessível, considerando a rede de qualidade que disponibilizamos. Ele é um pouquinho mais caro do que as ultraverticalizadas ou operadoras muito regionalizadas”, afirma.

Para Feitoza, da Arquitetos da Saúde, as startups possuem oportunidade de crescer caso consigam efetivamente driblar a média alta de reajuste, e quem conseguir oferecer bom preço agora vai capturar os insatisfeitos.

“Se tudo falhar, só resta o que já estamos vendo: não deu certo o nosso plano, vamos ter que diversificar a segmentação do produto, abrindo para o empresarial, para o coletivo por adesão. Me parece que a tecnologia não é suficiente para fazê-los crescer sem ampliar a oferta de algum jeito. A tecnologia não vence a capacidade de compra. Ser healhtech não é suficiente: sem preço e sem expansão da oferta, não é suficiente”, conclui.

Procurada, a Alice não quis se manifestar sobre a estratégia adotada de vendas.

*Com a colaboração de Bruna Arimathea e Guilherme Guerra

 

Este texto foi publicado no Broadcast  no dia 12/07/22, às 18h30

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