Crise fará mercado imobiliário de São Paulo encolher entre 30% e 35% em 2020

Circe Bonatelli

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A crise provocada pela pandemia do coronavírus deve interromper a recuperação do mercado imobiliário na capital paulista, que mostrou um volume crescente de negócios nos últimos três anos. A perspectiva agora é de que os lançamentos de novos projetos imobiliários na cidade devem cair entre 30% e 35% em 2020 na comparação com 2019.

A estimativa é do presidente da Brasil Brokers e vice-presidente de intermediação imobiliária do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Claudio Hermolin. “Os projetos estão praticamente prontos para serem lançados. O que falta é confiança de que os produtos serão bem vendidos”, ressalta.

Quase um mês após a autorização para reabertura dos estandes na cidade de São Paulo, as construtoras que atuam no mercado imobiliário ainda não retomaram os lançamentos de novos projetos. É verdade que o tempo foi curto para obter licenças, montar estandes e preparar equipes. Mas também tem pesado para os empresários as incertezas sobre os rumos da economia brasileira, incluindo o comportamento do emprego e da renda da população.

Tudo indica que uma retomada mais pujante continuará em compasso de espera até a pandemia ser controlada e a economia der sinais de melhora, segundo Hermolin. “Hoje os incorporadores estão olhando a água fria e se perguntando quem será o primeiro a mergulhar”, compara.

Para os meses da quarentena (entre abril e junho), havia um cronograma de lançamentos avaliados em ao menos R$ 2,5 bilhões, mas nada disso se concretizou por conta do fechamento do comércio. Já para julho e agosto juntos, são esperados lançamentos na ordem de R$ 700 milhões na cidade. É um bom recomeço, mas abaixo do ritmo pré-crise, diz Hermolin.

Nessa retomada, os lançamentos ficarão concentrados no Minha Casa Minha Vida (MCMV) e nos apartamentos compactos (menos de 40 m²) – segmentos que atraem pessoas com maior necessidade de moradia e investidores, respectivamente. “Os apartamentos de três e quarto quartos, voltados para famílias e pessoas de maior poder aquisitivo, ficarão para depois”, estima.

Vendas de imóveis dão sinal de melhora

Embora o clima no mercado seja de cautela, alguns números dão esperança de que dias melhores estão chegando. Um levantamento preliminar da Lopes, antecipado ao Broadcast, mostra que as vendas na cidade de São Paulo em maio foram 50% abaixo do mesmo mês do ano passado. Já em junho, as vendas foram “apenas” 20% menores, na mesma base de comparação. “Considerando que não tivemos lançamentos nesse período, não foram números ruins”, avalia a diretora comercial da Lopes, Mirella Parpinelle.

A executiva relata que as vendas foram principalmente de unidades no Minha Casa Minha Vida, além de algumas poucas unidades de alto padrão fechados por pessoas que trabalham em setores produtivos que seguiram ativos na crise, como agronegócio, varejo online e supermercados.

Com esse nível de liquidez considerado relativamente bom, Parpinelle acredita que os incorporadores terão disposição para voltar a lançar em breve e de forma gradual. “Os projetos que estavam previstos para o segundo e o terceiro trimestres devem ser realizados ainda este ano. Mas os lançamentos do quarto trimestre devem ficar para 2021. Não dá tempo de recuperar”, calcula.

Outro dado que serve de alento para o setor é a pesquisa sobre crédito imobiliário. Entre janeiro a maio de 2020, os empréstimos totalizaram R$ 34,08 bilhões, expansão de 23,2% em comparação com esses mesmos meses de 2019. Só em maio, foram R$ 7,13 bilhões, aumento de 8,2% frente a maio do ano passado, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). A Abecip destacou que o volume financiado em maio, segundo mês completo sob isolamento social, foi praticamente igual ao de janeiro, o que sugere um impacto reduzido da crise sobre o setor.

“Entre maio e junho tivemos um incremento considerável na entrada de novos pedidos de crédito em comparação com os meses de março e abril, quando o setor teve um impacto pelo menor número de transações imobiliárias”, conta o diretor de negócios imobiliários do Santander, Sandro Gamba. “O volume de análise de crédito vem aumentando tanto no mercado de imóveis. Isso é um dado positivo”.

Construtoras veem risco de demissões

A pesquisa da Abecip também mostrou, entretanto, que há uma diferença no comportamento da carteira de crédito. O crescimento dos empréstimos está concentrado nos contratos com pessoas físicas, que tomam recursos para a compra das moradias, novas ou usadas. Já os financiamentos a construtoras está mais devagar, como reflexo do adiamento de novos projetos e início de obras.

A liberação de crédito para a aquisição somou R$ 5,3 bilhões em maio e R$ 27,2 bilhões no ano, o que representam altas de 12,2% e 30,1%, respectivamente. Na contramão, o crédito para a construção foi de R$ 1,8 bilhão em maio e R$ 6,9 bilhões no ano, baixa de 2% e alta de 1,8%, respectivamente.

“Essa parada no crédito à produção reflete os lançamentos. Por consequência, as empresas não contratam serviços e não compram materiais, adiando a retomada da economia como um todo”, observa o presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França.

Caso os lançamentos demorem a ser retomados, o risco passa a ser de demissão, alerta. “As empresas têm uma estrutura instalada grande que envolve escritórios e equipes de backoffice. Se postergarem por muito tempo os lançamentos, podemos ver uma redução das equipes internas. Se ficarem sem as receitas, tem que equilibrar as despesas”, explica.

A pesquisa mais recente realizada pela Abrainc com 20 incorporadoras associadas em todo o País, com dados do último trimestre móvel encerrado em abril de 2020, mostrou que foram vendidas 29,7 mil unidades no período, alta de 2,7% ante o mesmo período do ano passado. Os lançamentos somaram 18,4 mil unidades, avanço de 2,2% na mesma base de comparação.

Contato: circe.bonatelli@estadao.com

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