De malas prontas para a Nasdaq, Inter descarta novas ofertas de ações

De malas prontas para a Nasdaq, Inter descarta novas ofertas de ações

Matheus Piovesana

29 de maio de 2022 | 05h40

No último ano, ação do Banco Inter tem queda de 80%  Foto: Babi Profeta/Inter

De malas prontas para a Nasdaq, o Inter não se assusta com o ambiente pouco amigável a bancos digitais nos mercados globais. De acordo com a diretora financeira e de relações com investidores da instituição, Helena Caldeira, neste momento, o banco não precisa de capital novo.

“Não precisamos de capital primário na companhia”, disse ela ao Broadcast. Esse é o fator que encoraja o banco a manter a mudança mesmo em um contexto de aperto monetário, que penaliza mais ações de empresas de alto crescimento. “Não preciso captar recurso novo, e isso me dá conforto para chegar em um novo ambiente de listagem mesmo em um momento adverso.”

Após a chegada à Bolsa brasileira, em 2018, o Inter fez novas ofertas de ações entre 2019 e 2021. O resultado é que seu índice de Basileia, que mede o capital que tem à mão para, entre outras coisas, emprestar dinheiro, era de 35,7% em março, bem acima do mínimo exigido, de 11%. Nos grandes bancos, esse índice tem variado abaixo dos 15%.

Esse colchão é o que vai sustentar o crescimento à frente. “Precisamos continuar crescendo para remunerar esse capital, e crescendo a carteira de crédito também”, afirmou Helena, ao comentar sobre as perguntas que os investidores estrangeiros têm feito ao Inter.

No último ano, ação do banco recua 80%

Para este ano, a ideia é focar na rentabilidade, já que quanto mais difícil o ambiente econômico, mais fácil é crescer mal. “De acordo com a administração, cartões de crédito e a originação de crédito são chaves para a ativação dos clientes, mas a piora da economia e da qualidade dos ativos levou a um apetite de crédito mais conservador”, afirmou o Bank of America, em relatório sobre o Inter divulgado na sexta-feira (27).

Helena disse que o banco segue no caminho para elevar a rentabilidade, e que o momento da economia não necessariamente alongará esse processo. “Acho que é algo de curto ou médio prazo começar a entregar um resultado mais relevante. Mas não temos meta ou guidance.”

No último ano, a ação do Inter cai 80%, acompanhando a alta da Selic e dos juros nos Estados Unidos. O mesmo efeito afeta pares como XP, Stone (que é acionista do Inter), PagSeguro e Nubank, das quais a companhia mineira será “vizinha” em Nova York. A queda dos papéis do banco fez com que a primeira tentativa de migração fosse interrompida.

À época, o Inter estabeleceu que poderia suspender a mudança caso os pedidos de retirada dos acionistas superassem R$ 2 bilhões, o que aconteceu porque o papel caiu, na Bolsa, a preços menores que o que o banco pagaria a quem quisesse sair. A segunda tentativa emplacou graças à redução do limite para R$ 1,1 bilhão, com um rateio acima disso. O resultado é os acionistas que pediram para sair receberão dinheiro, mas também ações.

Negociação nos EUA começa dia 23 de junho

O Inter deve começar a negociar na Nasdaq em 23 de junho. A listagem será da Inter &Co, holding que controlará o banco, em modelo parecido com o de outras empresas brasileiras com listagem primária nos EUA. O banco listará Brazilian Depositary Receipts (BDRs) na B3, mas abrirá aos acionistas a chance de também “mudarem” para Nova York.

Os BDRs começam a ser negociados na B3 no dia 20 de junho, e a partir do dia 22, os acionistas podem solicitar que sejam desfeitos em ações de classe A da Inter &Co. O processo tem custos operacionais, mas, nos primeiros 30 dias de negociação, o banco vai bancá-los, em esquema semelhante ao que fez quando montou Units na B3, em 2019.

“Não queremos prejudicar o acionista porque estamos mudando o ambiente de listagem”, afirmou Helena. A CFO do Inter não revelou quanto esse subsídio custará à companhia, mas disse que o valor será relativamente baixo.

O Inter tem explicado aos acionistas, em especial pessoas físicas, as diferenças entre deter BDRs e ações de classe A, inclusive sob o ponto de vista tributário. A conversão poderá ser realizada pelo próprio aplicativo do banco, que permite investimentos em ativos americanos.

O maior conhecimento nos EUA é visto como a grande vantagem de levar as ações para lá. “Tivemos roadshows (reuniões) com investidores estrangeiros, e temos conseguido ganhar essa atenção. Estamos num timing complicado, mas que por outro lado pode ser um bom ponto de entrada”, disse Helena.

Aos estrangeiros, o Inter tem buscado explicar quem é quem – diferentemente de muitas fintechs, ele é de fato um banco perante o Banco Central, o que permite, por exemplo, recorrer a instrumentos de captação mais baratos, mas embute exigências de capital maiores. “Somos um player digital, que começou a ter a conta digital em 2015, 2016, mas já temos um histórico de originação de crédito desde 1994”, afirmou a CFO.

 

Este texto foi publicado no Broadcast no dia 27/05/22, às 15h25

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