De olho em reestruturação, Casino pode fatiar venda do Pão de Açúcar

De olho em reestruturação, Casino pode fatiar venda do Pão de Açúcar

Cynthia Decloedt e Talita Nascimento

05 de maio de 2022 | 05h10

Conversas para vendas se estendem a quase todos os negócios do GPA  Foto: Sérgio Castro/Estadão

Conhecido por acessar o mercado financeiro com operações que fogem das tradicionais, o Grupo Casino estuda agora a venda de participações em seus negócios. O objetivo é avançar na reestruturação das operações no Brasil, o que incluiria a bandeira Pão de Açúcar. O movimento vem sendo feito desde 2020, com vendas e separação de ativos, tanto para reduzir o endividamento quanto para aproveitar melhor os recursos. Agora, uma estratégia na mesa é a venda de fatias de seus negócios.

Em 2020, o Casino tornou a operação do Assaí independente do Grupo Pão de Açúcar (GPA), mas manteve ambos sob seu controle. Listados na B3 de forma independente, passaram a valer mais separados do que juntos. O passo seguinte foi injetar dinheiro no caixa do GPA, com a venda dos pontos comerciais do Extra Hiper para o Assaí.

Ação do GPA sobe após rumor sobre interesse de Abilio Diniz

Com o Mercado Extra, o Grupo Éxito e o Pão de Açúcar disponíveis para entrar nesse rearranjo, surgiram rumores de que o empresário Abilio Diniz, que transformou a bandeira de supermercados numa potência quando era seu controlador, estaria em conversas para ficar com uma fatia da rede.

Hoje, Diniz é investidor do concorrente Carrefour. Uma das áreas da Península Participações, que administra seus recursos, tem como prioridade investir em empresas nos setores de educação, consumo e varejo. Como costuma olhar ativos nessas áreas – e as domina e tem o caixa recheado e -, as ações do GPA chegaram a subir mais de 10%, desde que os comentários começaram.

De todo modo, as conversas para vendas se estendem a quase todos os negócios e participações do GPA, desde que a galinha dos ovos de ouro, o Assaí, foi preservada.

O Grupo Éxito, que está presente em Colômbia, Argentina e Uruguai, já teria sido alvo de propostas de aquisição por partes do negócio, como já noticiado pela Coluna. O GPA chegou, inclusive, a admitir posteriormente ter tido propostas por ativos maduros da companhia, sem citar operações específicas do Éxito.

Na última teleconferência, o diretor financeiro da companhia, Guillaume Gras afirmou que podem acontecer novidades nessa frente. “Há possibilidade de movimentos futuros na participação do Éxito, mas nada a compartilhar agora”, disse.

Participação na francesa Cnova pode ser negociada

Outra fatia da companhia disponível para ser negociada é a participação do GPA na empresa de e-commerce francesa Cnova. Segundo Gras, ela deve ser vendida assim que o mercado estiver propício à transação. Até o próprio James, aplicativo de entregas do GPA, já foi classificado pelo ex-CEO Jorge Faiçal como parte importante da estratégia, mas não mais entre as centrais. “Não há decisão sobre a venda do James porque ele tem uma base importante de consumidores fiéis, cujo custo de aquisição foi alto, e não queremos ter o risco de perdê-la”, diz. Como quase tudo dentro do GPA, a permanência e ou a venda não é certa, tudo depende do preço.

O grande problema que o Casino tem neste momento no Brasil é encontrar compradores com bala na agulha para adquirir seus ativos em transações que envolvam somente pagamento em dinheiro. O Casino planejava vender 4,5 bilhões de euros em ativos e em julho, já havia conseguido embolsar 3 bilhões de euros. Naquele mês, após renegociações, o valor das linhas de crédito do Grupo Casino efetivamente disponíveis chegava a 2,2 bilhões de euros com um vencimento médio de 4,6 anos, mais do que o dobro dos 2,2 anos anteriores a essa repactuação.

O acordo melhorou a situação da companhia, que corria o risco de ter de vender ativos em um espaço mais curto de tempo para cumprir com seus covenants (compromissos assumidos ao contrair dívidas) e ajudar a Rallye, holding que pediu salvaguarda na França no início de 2020.

Ao mesmo tempo que faltam compradores capitalizados, muitos dos grandes concorrentes desse mercado, como o Carrefour, estão neste momento envolvidos em outras transações, que enfrentam um forte escrutínio do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O mercado já está bastante concentrado, portanto, a opção de desinvestimento por meio da venda de uma participação seria mais fácil, tanto do ponto de vista financeiro, quanto de aprovação pelas autoridades reguladoras.

Procurados, o Casino e o GPA disseram que não comentariam. A Península afirmou que não comenta “rumores de mercado”.

 

Esta nota foi publicada no Broadcast no dia 04/05/22, às 15h29.

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