Dependentes da compra física, Cultura e Saraiva correm contra o tempo

Matheus Piovesana

15 de outubro de 2020 | 05h24

A saída do varejo na pandemia foi pela internet, e setores que antes eram menos expostos às vendas online viram seus canais digitais duplicarem ou triplicarem durante a quarentena. Mas os balanços das grandes redes de livrarias revelam uma tendência oposta. Cultura e Saraiva, dois dos nomes mais conhecidos do setor no País, correm contra o tempo para mudar seus regimes de recuperação judicial, porque para elas, a internet não é uma opção viável.

Na Cultura, as mudanças na proteção judicial, ainda pendentes na Justiça, chamam atenção pela alegação da rede de que transferir seu negócio para os canais virtuais de forma instantânea não é possível. Em uma das petições enviadas ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), a alegação foi de que não há “possibilidade e intenção” de virar a chave diante das sérias restrições financeiras pelas quais passa a empresa.

A situação pegou a Cultura no contrapé. Conhecida por suas megastores que misturam livros e espaços de convivência, a empresa teve de baixar as portas de todas elas, e o faturamento despencou. Em maio, foi de R$ 2,970 milhões – cerca de 80% a menos do que no mesmo mês de 2019. O caixa minguou para R$ 542 mil, suficiente para cobrir as despesas com aluguéis e com fornecedores, e nada mais.

Endividada, a Cultura tem poucas fontes de financiamento, e as torneiras, que já estavam fechadas há anos, ficaram ainda mais longe de reabrir com a pandemia. “A Cultura sustenta as atividades com o fluxo de caixa da operação. Os bancos já não financiam a empresa há bastante tempo. Neste sentido, não houve uma piora da situação”, comenta Fabiana Solano, sócia da área de Recuperação Judicial, Insolvência e Reestruturação do Felsberg Advogados, que assessora a empresa.

Os números também colocam a rival Saraiva em uma corrida contra o tempo. No segundo trimestre, as vendas caíram 83%. No e-commerce, vertical em que a companhia é pioneira no Brasil, a baixa foi de 58%, graças à estratégia da Saraiva de apostar todas as fichas na venda de livros, cortando produtos de menor margem para reduzir a queima de caixa. Em julho, as vendas foram 77% menores que no mesmo mês de 2019.

Nesta semana, a companhia propôs colocar à venda o site, as lojas físicas ou um pacote que inclua as duas operações para recompor o caixa diante da asfixia financeira, reconhecida pelos administradores judiciais no relatório de julho. Procurados, os representantes judiciais da companhia não responderam até a publicação desta nota.

No início do ano, a Cultura fez um movimento semelhante ao vender a Estante Virtual para o Magazine Luiza por R$ 31 milhões. Os recursos entraram em caixa em fevereiro. Um mês depois, a covid-19 mudou totalmente a perspectiva para o setor.

Um produto, dois preços

Embora sejam fortes no e-commerce, a Cultura e a Saraiva não conseguem competir de igual para igual com gigantes do varejo online, como a americana Amazon e as brasileiras B2W (dona do Submarino) e Magalu. Isso porque as redes de livrarias precisam estar com estantes sempre cheias em lojas que pagam caros aluguéis. E não necessariamente os livros que ocupam aquele espaço serão vendidos.

“A livraria hoje é um espaço de descoberta, de relacionamento, não de procura”, comenta Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e sócio da Editora Sextante. Ele aponta que o consumidor busca nos sites os livros que quer comprar, e completa a compra na internet porque os preços são menores – o que fere as margens de empresas que têm um pé no mundo físico e outro no virtual.

A maior penetração do e-commerce é visível nos preços praticados pelo setor. O Painel do Varejo de Livros no Brasil, parceria do SNEL com a Nielsen, mostrou que entre agosto e setembro, vendeu-se 26% mais livros no País que um ano antes, mas com um desconto médio sobre os preços de capa 8 pontos porcentuais maior, de 30%. “Isso é efeito das promoções online, que impulsionaram as vendas”, diz Pereira.

Por outro lado, os dados agregados também mostram uma retomada ‘em V’ do volume vendido e das vendas acumuladas no ano, que já chegam a R$ 1,124 bilhão. É um sinal positivo, mas o presidente do SNEL acredita que essa retomada não será através das duas redes, que foram emblemáticas da expansão e da contração do setor na última década. “Saraiva e Cultura estão super debilitadas, mas outras estão reabrindo e abrindo novas lojas. Durante a pandemia, nós vimos que o brasileiro está disposto a ler.”

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 14/10/2020 às 17:04:22 .

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