Dona da Siberian engrossa fila de candidatos a recuperação judicial no varejo têxtil

Dona da Siberian engrossa fila de candidatos a recuperação judicial no varejo têxtil

Talita Nascimento e Cynthia Decloedt

02 de setembro de 2020 | 05h00

A Valdac Global Brands, dona das marcas Siberian e Crawford, é mais uma varejista de moda que enfrenta dificuldades na crise. Com pedidos de falência sendo feitos já desde o ano passado, o grupo trabalha em sua reestruturação financeira. A saída via recuperação judicial, segundo fontes que pedem para não serem identificadas, não está descartada. Se antes da pandemia a empresa já apresentava problemas, o fechamento do comércio durante o isolamento foi um golpe ainda mais duro.

“O mercado de varejo foi fortemente afetado pela pandemia: tivemos 100% das nossas operações fechadas por mais de 110 dias”, disse a diretora-financeira da Valdac, Elisangela Fraga, ao Broadcast. Por meio de nota, a executiva afirmou ainda que a companhia passa por um momento de reestruturação financeira e está “pondo em prática seus planos de ação, a despeito das dificuldades enfrentadas”. Perguntada sobre o pedido de recuperação judicial, ela não confirma ou nega. Também não há informações sobre o tamanho da dívida da Valdac.

Dos vários pedidos de falência desde o ano passado, ao menos seis, feitos de fevereiro a agosto deste ano, ainda não tiveram acordo firmado, segundo dados públicos dos processos até a última sexta-feira. Só estes processos somam mais de R$ 3 milhões. Além dos pedidos de falência, a Valdac tem uma série de outras ações relativas a dívidas. Ao todo, em processos para os quais não há acordo fechado de fevereiro a agosto, a empresa tem quase R$ 11 milhões a pagar. Questionada sobre estes números, a companhia não respondeu a reportagem até a publicação desta reportagem.

De modo geral, empresas do setor de vestuário têm evitado entrar com pedido de recuperação judicial. Elas preferem conversar com credores, caso a caso. Uma delas é a Restoque, que negociou com credores por meio da recuperação extrajudicial. “O que a Restoque fez, muitas empresas estão fazendo, ainda que negociando credor a credor. O momento é propício para renegociações”, diz André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners.

A Restoque fechou um plano de recuperação extrajudicial, no qual renegociou R$ 1,4 bilhão em dívidas com 60% dos credores. Os 40% restantes, conforme prevê a lei, foram obrigados a aceitar os termos do plano. A companhia encerrou o segundo trimestre com prejuízo de R$ 146,7 milhões. Procurada, a Restoque disse que não há novidades nesse processo.

A expectativa é que o primeiro trimestre de 2021 venha cheio de novos pedidos de recuperação judicial. Isso porque muitas renegociações feitas neste semestre vencem no fim do ano. Além disso, o setor já vinha alavancado em razão de anos de crise.

Para Luiz Deoclecio Fiore, sócio da OneBehalf, as recuperações judiciais de empresas do ramo devem acontecer em razão dos altos custos operacionais do setor. “Ter grandes redes de lojas é caro. Os custos de se estar em um shopping são altos. Têm havido negociações, mas elas são feitas mês a mês e próximo aos vencimentos. Além disso, os investimentos em logística para operar o e-commerce também são elevados”, afirma.

Quando a pandemia chegou, o setor de vestuário ainda tentava um reequilíbrio da crise de 2015. A Fatto a Manno, com grande número de lojas em shoppings e de rua, recorreu à proteção da Justiça no fim de junho, justamente por não ter conseguido colocar em pé planos que, considerava, acabariam com os problemas trazidos da crise anterior. A empresa não retornou aos contatos da reportagem.

O sócio da StonePartners e professor de Turnaround da FIA Business School, Estevao Seccatto, afirma que o crescimento desorganizado de algumas empresas do segmento estão entre os principais motivos para a crise. Entre as com tíquetes médios mais altos, ou seja, do segmento de moda de luxo, Seccatto chama a atenção especialmente para as listadas em Bolsa.

“Algumas empresas cresceram de forma desordenada, com aumento excessivo do número de lojas, muitas vezes ignorando a capacidade regional de absorção de preços das grandes capitais, o que as levou a se alavancarem para melhorar os resultados contábeis em detrimento ao caixa”, diz.

Seccatto afirma que a reabertura do comércio não deve ser suficiente para devolver as vendas das empresas desse segmento à normalidade. Ou seja, pelo menos até o fim do ano, muitas não deverão recompor o faturamento. Para ele, a busca pela transformação digital, embora não seja uma saída de curto prazo, será obrigatória para as sobreviventes. Hoje, as compras online respondem, em média no Brasil, por apenas 1,7% das vendas totais.

“É um investimento relevante, na casa de centenas de milhões de reais”, diz Seccatto. Como no mundo as varejistas têm 25% de suas vendas em canais digitais, o Brasil não ficará de fora dessa tendência e o investimento é mandatório.

Contato: colunadobroadcast@estadao.com

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