Dona das grifes Richards e Salinas manobra credores e gira dívida de quase R$ 500 milhões

Dona das grifes Richards e Salinas manobra credores e gira dívida de quase R$ 500 milhões

Cynthia Decloedt e Talita Nascimento

09 de novembro de 2021 | 05h00

Loja de Ellus, uma das marcas pertencentes à Inbrands   Foto: Manaira Shopping

Dona das marcas Richards, Ellus, Salinas, VR Collezioni e Tommy Hilfiger, a Inbrands tem marcada nova assembleia com os detentores de títulos de dívida (debêntures) na quinta, dia 11. Mais uma vez, tentará equacionar seu maior passivo, que beira o meio bilhão de reais. Os pagamentos estão em aberto há mais de um ano, desde abril do ano passado, bem como as mudanças nas cláusulas que regem os compromissos da companhia com esses papéis. Como tem ocorrido nos encontros marcados desde o ano passado, há grandes chances de novamente a reunião desta semana ser suspensa e adiada. A Inbrands tem conseguido ganhar graças a algumas estratégias de seu principal sócio, Nelson Alvarenga, e à boa vontade de seus credores, que, por enquanto, não têm interesse em executar a varejista de moda.

Alvarenga comprou boa parte dessas debêntures e pega capital de giro para o dia a dia da empresa por meio de fundo de recebíveis gerido por um dos donos desses títulos de dívida, a Quatá Investimentos.

Já os outros debenturistas, os bancos Itaú Unibanco, Bradesco, ABC Brasil, Votorantim, também têm pouco a ganhar caso executem a companhia. Além de dívidas menores, têm como garantia das debêntures a marca VR, que vale menos do que as outras do grupo. Essas debêntures tinham recebíveis de cartões de crédito como garantias, liberadas para que a Inbrands as utilizasse para garantir outros empréstimos.

Para a analista da Fitch, Gisele Paolino, a situação deixa o principal acionista da companhia, Alvarenga, numa posição relativamente cômoda. “O debenturista não quer propor algo que a companhia não tenha condição de honrar. Ele (Nelson Alvarenga) está numa situação confortável porque não está precisando honrar com nada”, afirma.

De acordo com um dos credores, que falou em condição de anonimato, Alvarenga tem conseguido “pilotar” bem a situação. “O maior temor, do nosso ponto de vista, seria uma decisão de Alvarenga de vender suas debêntures, o que implicaria mudanças nas negociações que existem atualmente”, disse.

Outros riscos apontados são de não cumprimento dos compromissos financeiros que envolvem capital de giro. Fontes afirmam que a companhia já iniciou negociações nesse sentido com contrapartes, além da Quatá.

Respiro

A trégua nas amortizações que estavam previstas tem beneficiado a companhia. No segundo trimestre, o prejuízo de R$ 40,3 milhões registrado um ano antes, no auge da pandemia, caiu para R$ 3,2 milhões, ainda no território negativo. Em 2019, a companhia carregou, no mesmo período, R$ 33,2 milhões de perdas.

A geração de caixa (ebitda) ficou de R$ 12,4 milhões positivos, de abril a junho deste ano. Um ano antes, o indicador havia ficado negativo em cerca de R$ 20 milhões. Em 2019, essa linha do balanço era negativa em R$ 9,2 milhões.

Mesmo com essa pequena melhora, a agência de classificação de risco Fitch colocou a nota da companhia um degrau somente acima do calote. Só não chegou à marca por conta das negociações dos debenturistas. Em teoria, a Inbrands pode permanecer com essa classificação RD (restricted default) por tempo indeterminado, mas pela metodologia da agência uma revisão acontece em 365 dias, ou seja, em setembro de 2022. Paolino afirma que a dívida é inconsistente com a capacidade de geração de caixa da companhia. “A alavancagem está bem acima de 10 vezes, o que é completamente desequilibrado”, diz.

Alvarenga é debenturista por meio do NAF Enigma Fundo de Investimentos em Ações, que tem 113.200 debêntures, o que lhe dá maioria na segunda série da mais recente emissão de debêntures da companhia. Como parte interessada, o fundo não pode votar nas assembleias. Automaticamente, essa “maioria” passa para a gestora Quatá, com apenas 7.050 títulos de dívida.

Com a Quatá, a Inbrands tem acesso a capital de giro, por meio de um fundo de investimento em direito creditório (FIDC). No FIDC, as companhias entregam recebíveis como garantia.

Os bancos, ao verem a situação, têm acelerado as provisões. Alguns deles já têm mais de 50% desse crédito provisionado. Outro movimento das instituições financeiras envolvem tentativas de alterar a garantia para marcas mais valiosas, como Richards ou Ellus – logotipos que enchem os olhos de algumas varejistas de moda com potencial de aquisição, mas afastam ofertas em razão da complicação financeira da companhia.

Procurada, a Inbrands disse em nota que, “como diversas empresas do setor de varejo, passou por momentos desafiadores durante a pandemia. A companhia, em função da retomada e de seus esforços para obtenção de ganhos de sinergia, apresentou nos últimos meses resultados consistentes com essa estratégia, o que demonstra claramente o foco na entrega de valor a todos os stakeholders (partes interessadas), por meio de um trabalho árduo de reestruturação e racionalização”.

A respeito das dívidas, a Inbrands diz que “se encontra em dia com todas suas obrigações junto aos bancos debenturistas, seus fornecedores e demais parceiros, mesmo após ter vivenciado a pior crise da história. Os bancos debenturistas vêm apoiando a companhia no enfrentamento dessa situação o que se vê refletido nas suspensões e prorrogações das assembleias de debenturistas, decisões tomadas unicamente pelos referidos bancos debenturistas. Todo esse processo de diálogo vem seguindo os mais altos padrões de governança. A companhia continua confiante em sua estratégia de crescimento e na força de suas marcas icônicas tão admiradas por seus clientes”.

O modelo de negócios da empresa, porém, segue com vários desafios. O diretor administrativo da consultoria Naxentia, Vincent Baron, diz que a Inbrands se formou em um período aquecido de aquisições no varejo. Em sua visão, essa e outras empresas do setor compraram ativos difíceis de serem integrados e, para isso, acabaram se endividando. “O varejo de moda tem ciclos financeiros longos e necessidade de capital de giro”, diz. Por isso, ele afirma que a alta alavancagem financeira no segmento é um processo difícil de ser revertido.

Procurados, os demais debenturistas não comentaram.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 08/11, às 16h34.

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