Duas semanas após demissões, controladores da Stone vendem fatia da empresa e obtêm US$ 400 milhões

Duas semanas após demissões, controladores da Stone vendem fatia da empresa e obtêm US$ 400 milhões

André Vieira

09 de junho de 2020 | 13h59

Foto: Gabriela Biló/Estadão

No dia 26 de maio, quando a Stone divulgou um lucro de R$ 162 milhões no primeiro trimestre de 2020, os controladores da empresa de maquininhas participaram de uma operação para a venda a investidores institucionais de 13 milhões de ações, que são listadas na Nasdaq, a Bolsa de valores norte-americana das empresas de tecnologia.

O grupo de investidores vendeu o equivalente a 17% de sua participação na empresa (ou 4% do capital social). Ao final da operação, pelo valor médio de US$ 29,50, eles embolsaram algo próximo a US$ 400 milhões, ou R$ 2 bilhões pela cotação do dólar naquele dia que ainda superava os R$ 5.

A operação aconteceu 15 dias depois de a Stone ter demitido 1.300 funcionários no auge da crise da pandemia do coronavírus. “Eu ouvi a respeito disso. Fiquei muito decepcionado com a Stone. Eles falam muito nesta cultura de ‘no bullshit’ (sem besteira), mas é uma empresa que corta na sua base”, diz Thiago Silva, consultor de vendas de Poços de Caldas (MG), que fez parte do grupo de demitidos.

Questionada pelo Estadão/Broadcast se a empresa poderia postergar a decisão da venda de ações por parte de seus controladores, a Stone disse que as decisões dos investidores são feitas de maneira independente da administração da companhia e acontecem em períodos pré-estabelecidos pelos órgãos reguladores americanos (depois da divulgação dos resultados). A operação de venda foi coordenada pelo banco Morgan Stanley para evitar que a venda de uma grande fatia de ações diluísse o valor do papel no mercado. De lá para cá, a ação já subiu mais de 40%.

Segundo Stone, gravidade da crise obrigou-a a fazer demissões

Sobre as demissões, a Stone disse que, em abril, não tinha “clareza dos efeitos que as medidas adotadas nas semanas seguintes teriam na vida dos empreendedores” e, ao longo daquele mês, “ficou claro que o futuro é bem mais incerto do que todos pensavam no início”. A fintech afirmou que foi obrigada a rever o planejamento baseado no presente e “não na expectativa de futuro”.

Ao divulgar o balanço, a empresa informou que, após uma queda na segunda metade de março por causa do isolamento, os volumes de pagamento subiram 9% em abril e quase 23% em maio até agora na comparação anual, segundo dados preliminares.

A Stone disse que durante a pandemia destinou R$ 30 milhões em benefício às pequenas empresas e R$ 100 milhões em microcrédito para os clientes mais atingidos. Criou uma campanha para compra no comércio local e forneceu ferramentas para promover o delivery. Doou R$ 5 milhões para a construção de um hospital de campanha no Rio e 10 mil testes para hospital em São Paulo. “Nossos controladores também são pessoas altamente engajadas socialmente” em iniciativas de educação e saúde, disse a Stone em nota.

A Stone, que não distribui dividendos em razão de sua fase maturação de crescimento, informou que pratica salários fixos à alta administração abaixo do mercado e que a maior parcela da remuneração é associada aos resultados e ao desempenho, “que neste ano está sendo impactado pela crise.”

Cortes aconteceram depois de empresa anunciar a participação do “Movimento Não Demita”

As demissões pegaram os funcionários de surpresa. Em Live no Estadão, no dia 15 de abril, o diretor comercial, Augusto Lins, disse que a companhia apoiava o “movimento não demita”, o que acabou não acontecendo. A intenção, segundo disse na época, era manter todo o quadro de pessoal. “Para que eu vou encarar um custo de demissão se depois vou ter de contratar?”, afirmou Lins. Sua aposta era que, assim, a empresa poderia sair mais bem preparada para a retomada da economia.

Às 8h do dia 12 de maio, o presidente da Stone, Thiago Piau, promoveu outra live com todos os funcionários para anunciar as dispensas e escreveu uma carta-aberta no Linkedin afirmando ser “a decisão mais difícil” na história da empresa de maquininhas.

Fundada em 2012 por dois jovens empreendedores, a Stone é uma fintech de sucesso. Levantou US$ 1,5 bilhão na Nasdaq em outubro de 2018 atraindo investidores de peso como Warren Buffet, Jorge Paulo Lemann e o fundo Madrone, que administra a fortuna dos donos do Wal-Mart. Ela concorre com empresas estabelecidas como Cielo, Rede e Getnet.

André Street e Eduardo Pontes, atuais presidente e vice-presidente do conselho de administração, também venderam parte de suas ações na operação no exterior. Eles se mantêm como os principais acionistas, cujo bloco de controle não se alterou. Antes da operação eles detinham 60% do controle, segundo dados enviados à Bolsa americana. Não foi informada a fatia vendida por cada controlador.

Demitido havia saído de emprego pelo sonho de trabalhar em uma startup

Após a Live das dispensas, cada demitido recebeu uma mensagem eletrônica. “Foi um convite de despedida”, disse Silva, de 32 anos, que 10 meses antes havia trocado o antigo emprego para ganhar metade do salário, diante da aposta pessoal de participar de uma fintech e embolsar uma bolada em comissões de vendas. “Nunca consegui dobrar o salário”, diz ele, que ganhava R$ 1,3 mil fixos. Silva teve gêmeos em abril e agora procura emprego.

Além dos benefícios da CLT, a Stone ofereceu 4 meses adicionais de plano de saúde aos demitidos e suas famílias para enfrentar a crise de saúde, um reforço no vale-alimentação, um pagamento extra conforme o tempo de casa e uma licença de dois meses para uso no Linkedin a fim de buscar uma recolocação.

Para especialista, ações voltadas à sustentabilidade seguem sendo marginais para empresas

“Na crise, há situações em que o fator econômico pesa mais do que os outros”, diz Mariana Nicolletti, coordenadora da Iniciativas Empresariais, do Centro em Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que reúne cerca de 30 empresas comprometidas a avaliar os desafios de equilíbrio entre os resultados econômicos, sociais e ambientais.

Ela nota que muitas iniciativas voltadas à sustentabilidade e a solidariedade seguem sendo apenas investimentos marginais, e não fazem parte do escopo do negócio de muitas empresas. “Quando acabar a crise, será uma boa hora de avaliar o que ficou”, diz ela.

Embora afirme não conhecer o exemplo da Stone como um todo, a especialista da FGV diz que caso parece gritante. “A decisão acaba privilegiando quem está nos postos mais altos. Jogam uma parte da tripulação ao mar sob a justificativa de que não podem salvar todos.”

Reportagem publicada no Broadcast no dia 08/06/2020, às 15:07:13

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