Dúvida sobre futuro do consumo digital coloca valor de mercado de marketplaces em xeque

Dúvida sobre futuro do consumo digital coloca valor de mercado de marketplaces em xeque

Cynthia Decloedt e Talita Nascimento

15 de julho de 2021 | 14h45

Empresas como  o Mercado Livre buscam ser referência para consumidores Aline Bronzati/Estadão

A sensação de que os padrões de consumo físico serão parcialmente enterrados está dificultando a definição de valores das plataformas de e-commerce e marketplaces. O fenômeno envolve agentes do mercado no Brasil e no mundo que tentam casar compradores e vendedores e levar ofertas de ações de empresas desse segmento à bolsa.

“Há uma dificuldade em se definir o valor dos ativos e uma discussão que ocorre em todos os mercados, não só no Brasil, é sobre quanto o desempenho dessas plataformas é estrutural ou circunstancial com a crise”, diz o co-head da área de banco de investimento do Goldman Sachs no Brasil, Ricardo Bellissi.

Ele observa que em tais discussões um tema que sempre ganha peso está relacionado ao fato de que muitas dessas empresas digitais têm acelerado receitas e, para isso, ampliado despesas, implicando geração de caixa negativo.

“Especialmente quando o comprador é listado em bolsa, apesar de eventual sinergia e do racional de estratégia do negócio fazer sentido, é preciso haver muita convicção na plataforma, que em alguns casos têm um valuation superior ao do próprio comprador”, afirma. Bellissi lembra que fusões como essas podem ter como resultado a diluição de seus próprios acionistas e, portanto, não serem tão bem vistas.

Para o responsável pelo banco de investimento do Santander, Gustavo Miranda, os múltiplos dos ativos estão elevados como um todo no mundo em meio à pandemia, sendo que a classe de ativos de tecnologia agrega um argumento adicional que é o potencial de crescimento de tal setor. “A Amazon demorou a dar lucro. São apostas de mercado, em que o custo de aquisição de clientes supera a rentabilidade imediata, mas tem a vantagem muito grande de, por vezes, ser um disruptor e ter a liderança no setor que quer atender”, comenta.

De fato, um grande número de operações de fusão e aquisição tem envolvido companhias de tecnologia e muitos segmentos, como empresas financeiras, de saúde e varejo, observando a necessidade de conexão com seus clientes por meio de uma plataforma digital que extrapola a oferta de seu próprio serviço ou produto.

Oportunidades

Os marketplaces, que são shoppings virtuais, apareceram como uma veia paralela, com grandes empresas como Mercado Livre, Magazine Luiza e a BW2 buscando firmar presença como referência entre consumidores. O varejo alimentar segue a mesma lógica e o de vestuário, que apanhou muito com o isolamento, também. Nesse caso, os especialistas apontam para a oportunidade de surgimento de marketplaces especializados em moda. Ainda assim, as marcas fazem movimentos de aquisição para aumentar seu portfólio próprio, sem mergulhar de vez no ramo de se tornarem um shoppings virtuais com muitos lojistas.

O grupo Soma, por exemplo, correu para comprar a Hering, enquanto a Arezzo busca construir seu ecossistema com marcas menores, desde que perdeu a malharia para a concorrência. Quanto à Lojas Renner, apesar da expectativa da compra de um grande marketplace – depois de uma capitalização que prometia fazer dela o Magazine Luiza da moda -, nenhum novo negócio se concretizou.

A analista da MyCap, Júlia Monteiro, entende que uma reflexão a ser feita é sobre qual será o tráfego real dessas plataformas ao fim da pandemia. Para ela, no caso das plataformas de venda online de vestuário, segmento que chamou atenção do mercado a partir da aquisição da Hering pelo Grupo Soma, existem desafios a serem vencidos e que são cruciais para o sucesso das vendas remotas.

“Ainda temos um grande problema no Brasil quanto à padronização de tamanhos, que atrapalha a venda de vestuário online. Não se sabe ainda qual a demanda real dos consumidores por isso”, diz Monteiro.

O analista da Guide, Henrique Esteter, lembra ainda que o modelo de marketplace é um segundo passo no comércio eletrônico, já que envolve não apenas vender seus próprios produtos digitalmente, mas oferecer infraestrutura para que outros lojistas vendam por meio de seu shopping virtual.

Assim, as companhias diversificam suas fontes de receita, ganhando com a venda de seu estoque próprio e com a prestação de serviços para os lojistas, além de – com mais produtos à venda – chamar mais público para suas plataformas.

Enquanto o mercado espera uma grande nova aquisição no setor, há quem corra no sentido contrário. A Riachuelo até criou recentemente uma área de fusões e aquisições interna na empresa para ficar atenta a startups de tecnologia e fintechs. Mas é de maneira orgânica que a companhia tem construído seu marketplace, hoje com a meta de chegar ao fim do ano com 200 lojistas virtuais de grande porte. Ainda assim, mesmo com tantos esforços, as vendas digitais da companhia representam cerca de 10% do total.

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 14/07/2021, às 16h22.

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