Easynvest decide entrar no mercado de crédito com empréstimos a partir de R$ 1 mil

Easynvest decide entrar no mercado de crédito com empréstimos a partir de R$ 1 mil

André Ítalo Rocha

25 de setembro de 2020 | 05h00

Foto: Pedro Moleiro/Easynvest/Divulgação

Em mais um passo das fintechs para se tornarem cada vez mais parecidas com um banco, a Easynvest – corretora que se popularizou nos últimos cinco anos como uma plataforma digital de investimentos – decidiu entrar no mercado de crédito. O foco será em empréstimos destinados a resolver emergências, a partir de R$ 1 mil, concedidos na própria plataforma, para investidores que preferem tomar dinheiro emprestado a resgatar o que tem investido. A intenção, além de diversificar os negócios, é atrair clientes de corretoras que não oferecem a opção.

O novo serviço, que será anunciado hoje e foi batizado de Easycred, usará os investimentos dos clientes como garantia contra calotes. Se não pagar, perde o valor equivalente. O mecanismo, que reduz o risco, permitiu que a corretora estabelecesse uma taxa de juros de 1,5% ao mês, similar ao que se cobra no crédito consignado – modalidade na qual a parcela da dívida é descontada do salário de quem toma emprestado – e quase cinco vezes menor que a média do juro cobrado no cheque especial, de 7%, segundo pesquisa de agosto da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

A taxa será a mesma independentemente do valor que se toma emprestado e do prazo do contrato, limitado a 36 meses. O cliente terá como crédito pré-aprovado 75% do valor que ele tem aplicado em renda fixa e 50% do que está investido em renda variável. Ele só será considerado inadimplente se atrasar o pagamento em 45 dias. Nesse período, a corretora pretende avisá-lo dos atrasos. Passado o prazo, a garantia é acionada.

O novo serviço começou a ser gestado no início do ano e ainda não chegou a ser discutido com o Nubank, que anunciou a compra da corretora há duas semanas. O tema só será tratado pelos executivos das duas companhias quando a aquisição já tiver sido aprovada pelos órgãos reguladores: o Banco Central (BC) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Até lá, as operações seguem independentes.

A ideia de se lançar no mercado de crédito nasceu quando a Easynvest percebeu que os clientes resgatavam investimentos para resolver imprevistos. Surgiu, contudo, a dúvida: se eles têm dinheiro para investir e contam com reservas de emergência, por que tomariam crédito? “Fizemos uma pesquisa e ouvimos de muitos que eles não gostam de tocar nas reservas que fizeram, porque lutaram muito para construí-las. É uma decisão mais psicológica do que econômica, mas não menos importante”, disse ao Broadcast o responsável pela área de crédito da corretora, Ramon Martinez Neto.

Segundo o executivo, 20% dos clientes da Easynvest têm algum crédito tomado no mercado e 40% deles, ou 8% do total, recorrem a produtos considerados caros como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial. Ao tentar oferecer uma solução mais barata para esse público, a Easynvest não quer só ter uma nova fonte de receita, “roubando” clientes do mercado de crédito tradicional, mas também atrair investidores de outras corretoras, que podem ver vantagem na possibilidade de investir e tomar crédito na mesma plataforma, com os investimentos como garantia.

O Easycred tem sido testado há um mês e meio, a uma base restrita de 10 mil clientes. Já foram emprestados R$ 430 mil, dos quais 46% dos contratos foram de até R$ 2 mil, valor que a corretora considera baixo e que sinaliza o caráter emergencial do produto. Nesse período de testes, os empréstimos foram limitados de R$ 1 mil a R$ 50 mil. Ao ser disponibilizado para toda a base, o valor máximo sobe para R$ 250 mil.

A Easynvest reconhece que o cliente pode ter emergências inferiores ao limite mínimo do serviço, de R$ 1 mil. Por isso, estuda reduzi-lo em algum momento para R$ 500. O que impede diminuir o valor ainda mais é o custo de emissão dos boletos para pagamento da dívida. “Cada boleto, hoje, nos custa R$ 5. Então, se emprestamos R$ 100 para ser pago em 36 meses, cada parcela sairia por R$ 3”, calcula Martinez Neto.

A corretora também esclarece que não pretende incentivar os clientes a tomarem crédito e se endividarem. Por ser uma plataforma de investimentos, entende que a melhor decisão econômica é guardar recursos e, se precisar de dinheiro, recorrer à reserva de emergência. “Com o crédito, estamos oferecendo a ele uma opção, caso ele não queira abrir mão da reserva de emergência e para que não precise recorrer ao crédito caro do mercado”, diz o executivo.

Segundo Martinez Neto, a corretora não tem uma previsão ou uma meta para o produto. Contudo, ressalta que uma pesquisa com os clientes identificou que 30% deles estariam dispostos a tomar crédito na própria Easynvest. Isso representa, de largada, um público potencial de 500 mil pessoas, um terço do total de investidores que aplicam na corretora.

Para colocar o serviço de pé, o Easynvest conta com a parceria da Captalys, plataforma de crédito que vai financiar as operações e também dar apoio com infraestrutura tecnológica. “Cada vez mais empresas estão procurando oferecer crédito, não apenas as fintechs, e o nosso modelo de negócio é justamente habitá-las para isso”, explica a CEO da Captalys, Margot Greenman.

De qualquer forma, a Easynvest está à espera da licença do Banco Central (BC) para operar também como uma instituição de crédito. O pedido foi feito em agosto e a corretora acredita que em seis meses deve receber a aprovação. A parceria com a Captalys, contudo, deve continuar mesmo após a obtenção da licença, afirma Martinez Neto.

Tendência no setor. A Easynvest não será a primeira corretora a oferecer crédito. A XP, por exemplo, também entrou nesse mercado em 2020, porém com empréstimos voltados a um público de alta renda. A chegada das plataformas de investimentos a esse segmento foi favorecida pela queda da taxa básica de juros. Com a Selic a 2% ao ano, pode ser vantajoso tomar um empréstimo e não tocar nos investimentos. “Antes, com o juro básico a 14,25% (em 2016), era melhor sacar o que estava investido, mesmo perdendo um pouco de dinheiro”, afirma o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Luís Eduardo da Costa Carvalho.

O movimento também reforça uma tendência de as fintechs buscarem cada vez mais diversificar os serviços que oferecem aos clientes, como parte da competição com os bancos. Trata-se de uma terceira fase do setor financeiro, segundo Bruno Diniz, cofundador da consultoria especializada em inovação para o mercado financeiro Spiralem, e líder na América Latina pela Financial Data and Technology Association (FDATA).

“Na primeira fase, os bancos surgiram oferecendo tudo, com a experiência não sendo muitas vezes a melhor possível. Na segunda, vieram as fintechs, oferecendo produtos muito especializados, superiores aos das instituições tradicionais, e fragmentando o mercado. Nesta terceira, essas fintechs, demandadas pelos clientes, estão oferecendo outros produtos, e enxergando a oportunidade de manter a recorrência do cliente no serviço”, explica.

Existe o risco de algumas se perderem no meio do caminho, caso não consigam, ao aumentar a oferta de produtos, manter o mesmo nível de qualidade, reconhece Diniz. Ressalta, contudo, que há a alternativa de buscar parcerias com companhias especializadas ou até mesmo comprá-las. Foi o que fizeram a Easynvest, que buscou a parceria com a Captalys para entrar no mercado de crédito, e o próprio Nubank, que adquiriu a Easynvest para chegar com força no segmento de plataformas de investimentos.

contato: colunabroadcast@estadao.com

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