Em ano recorde e de liquidez, investimento de venture capital desafia turbulência

Em ano recorde e de liquidez, investimento de venture capital desafia turbulência

Cynthia Decloedt

23 de novembro de 2021 | 14h30

 

Em outubro,  a B3 adquiriu a Neoway, especializada em exploração e análise de dados    Foto: Fernanda Guimarães/Estadão

Os números são espetaculares. O montante de recursos direcionados em nove meses para empresas nascentes, chamadas de startups, por fundos e investidores de venture capital atingiu um recorde até setembro deste ano de R$ 33,5 bilhões, o que supera em três vezes o aportado no mesmo período do ano passado. O fluxo desafia a volatilidade no mercado brasileiro, e a explicação está no potencial disruptivo desse segmento no País, na alta liquidez globalmente presente e no fato de esse ser um investimento que, por natureza, é descolado do noticiário macroeconômico. O mercado já atrai inclusive family offices, que passaram a criar áreas para se debruçar sobre as oportunidades oferecidas pelas nascentes empresas de tecnologia.

“Para quem é da indústria, o sabor é do ‘até que enfim'”, diz o Managing Partner do Redpoint Ventures e vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Anderson Thees.

O executivo afirma que a indústria vive hoje o amadurecimento de um ciclo iniciado em torno de 2010, quando os investimentos de venture capital responderam por um “pouquinho” dos recursos que o País atraiu entre 2009 e 2013. “Isso foi suficiente para dar início a essa indústria, e o resultado começou a aparecer em 2019 e 2020, quando empresas como Stone, Moviel, Gimpass, Minuto Seguro e outras ganharam um tamanho que começou a chamar a atenção”, afirma.

Thees diz que um dos fatores interessantes desse segmento é não estar correlacionado ao PIB. “De 2014 em diante houve deterioração do estrangeiro para o Brasil e ainda assim a indústria de tecnologia tem crescido de forma positiva apoiada pelo venture capital”, observa.

O sócio-fundador do escritório Bronstein, Zilberberg, Chueiri & Potenza Advogados, Pedro Chueiri, diz que as oportunidades de investimento no Brasil são tão promissoras que os estrangeiros estão “comprando” o risco cambial para estar nas empresas de tecnologia do País. “Não é a toa que há vários investidores de venture capital vindo para o Brasil dos EUA, Europa e China, apesar da volatilidade do dólar, porque sabem que o múltiplo do retorno vai compensar a oscilação da moeda”, comenta Chueiri.

Seu escritório assessorou recentemente a aquisição da Neoway pela B3, da Squid pela Locaweb e da rodada de R$ 434 milhões na Tembici, entre vários outros. Segundo ele, “poucos se aventuravam no Brasil, muitos fundos não incluíam Latam e outros não incluíam venture capital e agora são vários com as portas abertas aos que buscam alternativas de financiamento”.

Thees, da Redpoint, afirma que os desinvestimentos ainda não começaram – normalmente levam de 15 a 20 anos – e que a indústria ainda deve vivenciar um bom crescimento. “Crescemos 10 vezes e devemos crescer alguns múltiplos daqui em diante, não só pelos fundamentos seculares, que são de expansão continuada independente da pandemia, que, por sua vez criou uma visão nova e que acelerou essa tendência”, pontua.

O executivo discorda que a crise local esteja sendo totalmente ignorada. “Isso não é uma verdade absoluta, porque investidores profissionais que estavam pensando em começar a investir param”, diz. De toda a forma, ele observa que não existe impacto nas perspectivas dos investimentos já feitos ou para aqueles fundos que já tem o capital levantado.

Efeito colateral

A alta demanda dos investidores por essas empresas nascentes de tecnologia traz, como efeito colateral, uma valorização nos preços desses ativos, para alguns, até um pouco exagerada. Mas o consenso é o de que esse julgamento não cabe a essa indústria, uma vez que ela por natureza é de risco.

“Estamos vivendo um momento de muita liquidez globalmente e parte dessa riqueza tem enxergado como atraente o investimento em startups, e isso infla os ‘valuations'”, afirma o diretor de inovação do BV, Guilherme Horn. Ele lembra que cheques de US$ 10 millhões que eram assinados para algumas startups no Vale do Silício há cinco anos, agora acontecem de forma generalizada. Paralelamente, o número de fundos saiu de dezenas para centenas.

“É uma questão de oferta e demanda que puxa os ‘valuations’. Nesse mercado o olhar é outro. Essa lógica de bolha funciona bem mercado no mercado de capital tradicional, mas no de venture capital não, porque a natureza do investimento já é de risco muito alto”, argumenta.

Horn lembra ainda que para os investidores de venture capital não financeiros, a atividade de venture capital é, no fundo, muito mais estratégica do que financeira, o que faz com que a discussão sobre preço seja relativa . “O aporte de venture capital representa a compra de tempo em projeto que poderia levar um ano ou dois”, diz.

Além do BV, que tem sido um investidor em fintechs para fomentar um ecossistema maior de atuação em serviços financeiros, empresas como Americanas, Tenda, Alliance, CSN e Drogasil são outros exemplos de grupos que investem em fintechs com o olhar não financeiro, mas estratégico.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 22/11/21, às 14h00.

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