Em dois anos, BNDES liberou apenas 1,2% dos R$ 500 mi de crédito caminhoneiro

Em dois anos, BNDES liberou apenas 1,2% dos R$ 500 mi de crédito caminhoneiro

Irany Teresa

30 de maio de 2021 | 05h00

Concessionária de rodovias CCR. : Daniel Teixeira/ Estadão

 

A linha de financiamento de R$ 500 milhões para manutenção de veículos e compra de pneus BNDES Crédito Caminhoneiro liberou, em dois anos, apenas R$ 6 milhões, ou seja, 1,2% do total oferecido. Lançada em abril de 2019 pelo governo federal, num pacote elaborado para enfrentar uma ameaça de greve de caminhoneiros, a linha de crédito aproxima-se do final de sua vigência – prevista para o próximo dia 8 de junho, de acordo com o site do banco – como um fiasco.

Os dados sobre liberações da linha de crédito não estão disponíveis para consulta no site do BNDES. Depois de dias de insistência – e já com encaminhamento do pedido pela Lei de Acesso à Informação -, o banco encaminhou as informações à Coluna: “Entre junho de 2019, mês de início da operacionalização, e março de 2021, as aprovações alcançaram o montante de R$ 7 milhões (os desembolsos até o momento foram de R$ 6 milhões) para 188 operações”.

Presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, mais conhecido como Chorão, um dos líderes da greve que parou o País em maio de 2018, se surpreende até mesmo com a informação de que houve desembolso, embora baixo. “Não conheço ninguém que tenha conseguido. Se o BNDES diz que teve liberação, tem de mostrar, no portal da transparência, quem conseguiu”, diz.

Segundo ele, a categoria, formada por 1,6 milhão de caminhoneiros autônomos – com 35 mil deles associados à Abrava – esbarrou em vários obstáculos na tentativa de obter o empréstimo. “Os gerentes de bancos diziam que a linha não estava disponível, falavam também em risco. É claro que alguns caminhoneiros estão, sim, com nome restrito, mas têm um equipamento quitado para dar em garantia. A gente viu que não é o risco, mas uma trava no BNDES“, diz Chorão.

A Abrava vai encaminhar ofício ao Ministério da Economia propondo a extensão do prazo e mudanças na linha de crédito. “Se o governo prometeu, vai ter de cumprir, não vamos dar mais moleza, não”, disse, elogiando o programa Gigantes do Asfalto, lançado na semana passada, que ele espera também ver sair do papel.

 Caixa e BB seriam principais responsáveis pelo crédito especial

O Crédito Caminhoneiro segue a modalidade indireta, na qual o candidato ao empréstimo tem de ir a um banco credenciado pelo BNDES. Quando anunciou a medida, em 2019, o então ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni, informou que, de início, Banco do Brasil e Caixa ofertariam a linha especial de financiamento, que depois ficaria disponível também nos “demais bancos e cooperativas de crédito do Brasil”.

O BNDES tem 67 instituições cadastradas, 18 delas públicas, que poderiam intermediar as operações. Mas, o fato é que nem os bancos públicos nem os privados demonstraram muito interesse em operar a linha de crédito, mesmo com a participação do BNDES de até 100% do financiamento.

O limite para cada caminhoneiro autônomo, que no início foi fixado em R$ 30 mil, foi mais do que triplicado, para R$ 100 mil, sem que isso resultasse em montantes de desembolso mais robustos. E os R$ 500 milhões anunciados no lançamento do programa eram apenas a “primeira liberação”, como disse Lorenzoni na ocasião.

Desde a campanha eleitoral, em 2018, Bolsonaro contou com apoio de boa parte dos caminhoneiros e, a partir do início de sua gestão, vem se equilibrando em sucessivas negociações para impedir os efeitos políticos e econômicos de uma greve da categoria. Os acordos giram sempre em torno de redução de custos para o transporte rodoviário de carga.

Esta foi, por exemplo, a gota d’água para a substituição de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna na presidência da Petrobras. A declaração do executivo, em fevereiro deste ano, de que o custo do diesel para os caminhoneiros autônomos “não se trata de um problema da Petrobras” foi rebatida com sua demissão, anunciada por Bolsonaro nas redes sociais.

Mas, a política de Preço de Paridade de Importação (PPI) não mudou com a troca de comando. Como alternativa para a redução de preço, o governo tenta passar no Congresso um projeto que mude a cobrança de ICMS (um imposto estadual) sobre o diesel. Mas, como mostrou reportagem de Idiana Tomazelli e Anne Warth, do Broadcast, o projeto está parado por falta de apoio tanto de parlamentares quanto de governadores. E a situação está muito longe de uma solução.

 

Esta reportagem foi publicada no Broadcast+ no dia 28/05, às 12h49.

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